
SÃO PAULO – O Pavilhão das Culturas Brasileiras (PACUBRA), no coração do Parque Ibirapuera, transformou-se no epicentro do debate sobre o morar contemporâneo com a realização da Bienal de Arquitetura Brasileira 2026. Sob o conceito de “Pavilhão Brasil”, a mostra propõe uma leitura sensorial do território nacional a partir de seus seis biomas, articulando arquitetura, cultura e modos de vida.
Nesse contexto, o destaque amazônico ganha força com o projeto “Casa Entre Águas”, do arquiteto Thiago Marques, representante de Rondônia com curadoria de Cleber Felipe Bandeira. Mais do que uma proposta arquitetônica, a obra se configura como experiência imersiva que traduz o cotidiano ribeirinho, evidenciando a íntima relação entre habitação, rios e ciclos naturais.

Expandindo sua dimensão arquitetônica, a Casa Entre Águas incorpora um potente eixo expositivo que reúne diferentes linguagens artísticas — esculturas, pinturas, fotografias e audiovisual —, ampliando a compreensão do espaço como território simbólico e sensível. Entre os artistas participantes estão nomes como Bruno Sousa, Homero Rodrigues, Will Arehj, Átila Ferrer & Chroma Killa, Saulo de Sousa, Cléber Cardoso, Kali Paripassu, Rafaela Correia e Flávio Dutka. Além desses, Paula Amaral ,artista do RJ, Paulo Azevedo do Pará e Rodrigo Sá (berimbaubrazil). No campo do audiovisual, a proposta é ampliada com produções de Andrea Melo, Amanara Brandão e Stephanie Matos, que reforçam a dimensão sensorial da experiência.Segundo o curador Cléber Ferreira, o conceito expositivo parte de uma imagem central:
“A Casa Entre Águas traz o que um ribeirinho vê quando abre a janela.”
Essa ideia se materializa na disposição das obras como “janelas simbólicas”, que se abrem para diferentes paisagens amazônicas. Um dos destaques é a série Varadouro – Caminhos para a escola, de Flávio Dutka, que evoca os percursos cotidianos em regiões ribeirinhas, onde o deslocamento é também experiência formativa e afetiva.

Se, por um lado, as pinturas e esculturas constroem paisagens, por outro, a fotografia e o audiovisual mergulham na dimensão do corpo amazônico em movimento. As imagens exploram ritos e práticas culturais que evidenciam a conexão entre identidade e território mediada pelas águas.Entre os registros, destacam-se:
Essas narrativas visuais não apenas documentam, mas ativam uma percepção sensível da Amazônia, em que cultura e natureza não se separam, mas coexistem em fluxo contínuo.
Na Bienal de Arquitetura Brasileira 2026, a expografia organiza-se a partir dos seis biomas brasileiros, cada qual propondo uma reflexão específica:
Nesse panorama, a Casa Entre Águas se destaca por articular arquitetura e arte como dispositivos de tradução cultural, oferecendo uma leitura sensível do habitar amazônico.
Como elemento unificador, a Bienal adota o cobogó — criado na década de 1920 e consagrado como ícone modernista — como símbolo visual dos pavilhões. Representando ventilação, transparência e diálogo, o cobogó sintetiza princípios fundamentais da arquitetura brasileira: adaptação climática, estética funcional e abertura ao outro.
A Casa Entre Águas, ao representar Rondônia, ultrapassa a dimensão de projeto arquitetônico e se consolida como narrativa expandida da Amazônia contemporânea. Ao reunir artistas, linguagens e saberes, o espaço propõe uma travessia — entre rios, corpos e memórias — que convida o público a repensar o conceito de habitar a partir de uma perspectiva mais integrada, sensível e ancestral.