16 Aug
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MENEZES, Nilza.Poesia da Vida:Vida de Poesia, 1.ed.Curitiba:Aprpris,2026

O crítico Dr. em Comunicação e Semiótica e Mestre em Literatura Brasileira, Valdevino Soares de Oliveira, responsável pela apresentação da obra, conduz o leitor por esta antologia, definida por ele como um “verdadeiro florilégio colhido nos jardins da autora”. Em sua leitura, destaca-se a brevidade e a síntese quase matemática dos versos de Nilza Menezes. 

A apresentação evidencia, assim, uma poesia lacônica, que flerta com formas concisas como o haicai e a aldravia, capaz de condensar a imensidão do cotidiano nos limites estreitos do verso. A estética de Nilza não se constrói pelo excesso, mas pela sutileza: seus poemas frequentemente se iniciam de maneira acolhedora, apoiados em uma linguagem coloquial e fluida, para culminarem em fechos inesperados, rupturas que quebram a expectativa do leitor e o convidam a participar ativamente do jogo de sentidos.

No plano temático, a apresentação delineia um amplo painel da existência humana, atravessado pelas agruras da condição feminina, pelos afetos, pela rotina, pelo envelhecimento e pela própria poesia, representada como uma menina marota que se esgueira pelas ruas da vida. Sem recorrer ao sentimentalismo fácil nem a um lirismo excessivamente contido, a obra reúne fragmentos de tempo, memória e experiência para construir um retrato sensível da existência. Nesse universo, a palavra, leve e plástica, transforma o aparentemente banal em matéria poética e faz do cotidiano uma permanente possibilidade de descoberta e beleza.

Por sua vez, o prefaciador Carlos Moreira propõe outra chave de entrada para a obra ao afirmar que “entrar na poesia de Nilza Menezes é como atravessar a toca do coelho de Alice e aceitar o convite para tomar o frasco que diz ‘Beba-me’”. A imagem estabelece, desde o início, uma poética marcada pela travessia, pelo estranhamento e pela disposição de abandonar referências conhecidas para penetrar em um universo próprio. 

Moreira observa que a escrita da autora, amadurecida ao longo de mais de cinquenta anos, não se constitui apenas de palavras, mas do próprio corpo em visceral embate com o tempo, aproximando o fazer poético da entrega trágica e autêntica de uma tourada, na qual o risco, o confronto e a exposição fazem parte da própria criação.É nesse território, em que se manifesta o “lado de fora do lado de dentro”, que a poesia de Nilza opera uma espécie de alquimia antropofágica: toureiro e touro deixam de ocupar posições absolutamente distintas e fundem-se em uma mesma experiência de confronto. 

A tensão entre loucura e sonho, confissão e ironia, memória e presente atravessa seus versos e impede que a lírica se acomode em uma contemplação ingênua. Ao contrário, a escrita dessacraliza o cotidiano e constrói uma espécie de “Macondo lírica”, povoada por seres híbridos, vozes femininas, acontecimentos insólitos e fissuras do tempo.A poética de Nilza aproxima-se, ainda, das margens de Cora Coralina e Emily Dickinson, sobretudo pela capacidade de extrair do aparentemente simples uma complexidade existencial profunda. O amor idealizado é frequentemente desarmado por meio da ironia, das inversões de papéis e da exposição das contradições humanas. Sua condição de historiadora e pesquisadora das religiões afro-brasileiras e da filosofia do Ifá amplia esse universo poético para além da experiência individual, fazendo da memória do corpo e da carne também um espaço de reflexão histórica, política e espiritual. 

Nesse movimento, a poesia expõe o preconceito, dá visibilidade a corpos historicamente subalternizados e questiona as certezas que pretendem organizar a experiência contemporânea.Ler Nilza Menezes, portanto, significa aceitar o risco dessa travessia: penetrar em uma poesia que oscila entre o íntimo e o coletivo, entre a delicadeza e o confronto, entre o cotidiano e o insólito. Ao final desse percurso, permanece a palavra como resistência e transbordamento — talvez a única resposta possível diante do vazio: o transbordar da palavra.


E, como leitora apaixonada por poesia, posso dizer que Poesia de Vida, Vida de Poesia, de Nilza Menezes, é uma obra que exige de nós mais do que uma leitura acadêmica: exige uma entrega sensível e empática. Ao adentrar nos seus versos, percebe-se que Nilza constrói uma verdadeira cartografia do afeto, do corpo e da memória feminina. Entrar nessas páginas de Poesia de Vida, Vida de Poesia,  é aceitar o convite para uma travessia pelas correntes profundas da memória e do sentimento. 

Como quem se senta à beira do rio ao cair da tarde, somos tragados por uma escrita que nasce do chão batido, do aroma do cotidiano e da pulsação incontestável do corpo feminino. Não se trata de uma simples coletânea de versos, mas do retrato de uma alma que transformou meio século de dores, afetos e insurgências em matéria viva de linguagem. Ao abrir este portal, preparamos o olhar para escutar o silêncio das ancestrais, contemplar a fúria da lua sobre as águas e reconhecer, no espelho da palavra alheia, os fragmentos mais sinceros da nossa própria humanidade.

Indo além da resenha de um livro , aqui estão algumas chaves de leitura e reflexões profundas que um leitor atilado extrai dessa experiência literária: 

1. A Poesia do Cotidiano como Resistência Existencial 

Nilza Menezes demonstra que o sagrado e o poético não habitam apenas museus ou grandes teorias, mas sim o chão batido da cozinha, o perfume do tempero, o estalar do azeite na frigideira e a poeira das lembranças. Ao transformar tarefas diárias e rotinas invisibilizadas em poesia de alta carga simbólica, a autora desmistifica a ideia da "poesia acadêmica" e a devolve ao seu lugar de origem: o coração da vida vivida. É a rotina que se recusa a ser meramente repetitiva, transformando-se em ato de criação e sobrevivência. 

2. A Tensão Geracional e a Ruptura da Trajetória Feminina 

Um dos pontos mais marcantes do livro é como a autora se coloca no entre-lugar da linhagem feminina: 

A avó, que representa a submissão histórica, o silêncio e o dever cumprido sem questionamentos (expressos na cena em que lava os pés do marido).

A mãe, que traz o afeto contido e o protesto silencioso, amarrado ao medo da dor.

E Nilza, que decide ser o ponto de virada. Ela honra a história de suas ancestrais, mas rompe com a sina da resignação. A frase "eu quero é olhar as estrelas" é um grito de libertação para todas as mulheres que foram obrigadas a manter os olhos baixos na costura ou no fogão.

 3. A Reivindicação da "Loucura" e do Desejo Sincero 

A "loucura" em Nilza Menezes não é patológica; é a recusa da dormência social. Num mundo que exige que mulheres amadureçam de forma contida, comportada e previsível, a poeta reivindica a maturidade aos 40 anos não como o fim, mas como o auge da liberdade pagã, do desejo e da intuição. A lua crescente, o ciclo marinho e a força da natureza tornam-se metáforas do próprio corpo que não se envergonha de seus desejos, de sua eroticidade e do seu direito ao orgasmo estético e vital. 

4. O Afeto Social e a Escuta do Invisível 

A obra de Nilza não cai na armadilha do egoísmo estritamente individual. O "eu" lírico da poetisa é permeado por uma profunda alteridade: 

Ela sente a dor dos boias-frias sob o sol e os compara a espantalhos sem braços que guardam no peito o desejo secreto de abraçar o mundo.

Ela enxerga no operário João a "raiva-grande-fome" gerada pela desigualdade social e pela exploração.

Essa capacidade de entrelaçar a dor íntima com a dor coletiva demonstra um compromisso humanista raro e comovente. 

5. A Desconstrução do Amor Romântico 

A sensibilidade de qualquer leitor capta rapidamente a maturidade com que a autora desfaz o mito do "príncipe encantado". Nilza desconstrói os clichês românticos comercializáveis para revelar a realidade crua dos relacionamentos: as dores do desencanto, a efemeridade das certezas e a beleza de se acolher inteira, mesmo após a desilusão. A poesia se torna, assim, a única companheira leal capaz de curar o abismo deixado pela falta do outro. 

  

O RIO E A LUA DE NILZA MENEZES: A CARTOGRAFIA DA ALMA FEMININA

Mergulhar nas páginas de Poesia de Vida, Vida de Poesia, de Nilza Menezes, é adentrar um território onde o tempo não se mede por ponteiros, mas pela pulsação da carne e pelas marés lunares. Como uma alquimista das memórias do campo e das margens amazônicas, a historiadora e pesquisadora transforma cinquenta anos de existência em um jorro visceral de linguagem, no qual viver e escrever se tornam atos indistinguíveis de sobrevivência. 

Uma poesia que  não pede licença; ela brota do cheiro de cebola na frigideira, das mãos queimadas pelo azeite quente e das frestas do cotidiano doméstico. Contudo, de sob a rotina imposta pelas estruturas sociais, ergue-se uma voz que se recusa a ser domada. Ela reivindica a loucura não como patologia, mas como uma força espiritual sem cura, um transbordamento que encontra na lua crescente o seu ritmo e na palavra o seu mais profundo orgasmo. 

É a palavra que estanca a falta, consolida o desejo noturno e purifica a alma após as angústias e a culpa. Há na obra um diálogo profundo e doloroso entre as gerações. A poeta escreve espremida entre a avó submissa, que lavava os pés do marido em silêncio, e a mãe que racionava o afeto como forma primeira de protesto. 

Diante dessa herança de baús envelhecidos e amores velados, a autora decide construir seu próprio caminho: se o homem de casa tem o privilégio de olhar as estrelas enquanto a mulher costura à luz da lamparina, a voz lírica declara sua insurgência - eu quero é olhar as estrelas. Ela traz a marca das "hímens rompidos" pelo dever de sorrir ao inimigo, denunciando com coragem a agressão velada de ceder aos conceitos alheios. Mas ao mesmo tempo em que recusa o nó que sufoca, acolhe o afeto singelo, lembrando que a libertação não exige o esquecimento dos bolinhos de polvilho da infância. 

A profundidade de sua lírica reside nessa constante tensão entre o sublime e o terreno. A paixão surge como um bicho no cio , mas deságua no olhar social afiado para a dor do outro. João, o operário da construção marcado pela "raiva-grande-fome", e os boias-frias das roças do Paraná, cobertos sob chapéus anônimos como espantalhos sem braços que sonham abraçar o mundo, ganham corpo e dignidade em seus versos. 

A dor de Nilza não é isolada; ela é concreta, coletiva, e nenhuma receita fantástica ou conselho abstrato pode curá-la. Chegar aos quarenta anos, para a poeta, não é o outono da vida, mas a descoberta de uma "loucura dobrada". O corpo sente as avarias da travessia, o medo do inverno da alma e as incertezas da maturidade, mas a alma permanece menina - pagã, livre e indomável. Quando as ilusões dos príncipes encantados se desfazem em sapos e o amor romântico revela sua face de consumo e conforto, resta-lhe a poesia como parto doloroso, jorrado em mesas de bar e transformado em viva filosofia de botequim. 

Por fim, a obra se consolida como um rio em constante travessia. Como as águas amazônicas que sobem em fúria no inverno e depois descansam tranquilas pela cidade dormindo, a alma da poeta muda suas águas sem jamais perder sua essência. Nilza Menezes desata os nós da culpa, recusa a sina lida na palma da mão e se oferece inteira. 

Sua poesia não pertence às estantes empoeiradas; é uma chama acessa na escuridão, uma prova viva de que, mesmo quando a vida nos cobra a juventude, a arte é o espaço supremo onde a mulher pode, finalmente, voar. Ao fechar este livro, o eco de suas palavras não se dissipa; permanece no ar como o cheiro da terra molhada após a tempestade. 

Nilza Menezes nos entrega mais do que poesia: deixa-nos um rastro de coragem, uma bússola para navegar as marés da existência sem perder a capacidade de encanto. Suas linhas nos ensinam que desatar as amarras do passado não significa esquecer as raizes, mas permitir que o tronco finalmente cresça em direção às estrelas. 

Fica a certeza de que o tempo pode desgastar o corpo e dobrar os dias, mas a alma que escreve - pagã, inquieta e profundamente humana - permanece invencível. Que estas páginas sirvam de abrigo e farol para quem precisa lembrar que viver é, em si, o mais belo e doloroso ato poético.



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