04 Sep
04Sep

MOREIRA,Lígia Zambone.Entre-mundos:Exílio,Hospitalidade e Escola,1.ed.,São Paulo: Lavra Editora,2026.

A obra de Lígia Zambone Moreira é um trabalho acadêmico sensível e rigoroso que cruza exílio, hospitalidade e escola como eixos centrais de investigação. A autora parte de histórias reais de pessoas que viveram o desterro ainda na infância ou adolescência, propondo uma reflexão profunda sobre como a instituição escolar pode - e deve - ser um espaço de acolhimento e hospitalidade para quem chega de outros mundos.   


A Pátria do Olhar: Uma Navegação Prosaico-Poética por Entre-Mundos

Prólogo - A Semente que Navega nos Ventos do Tempo

Há corpos que não caminham apenas por estradas; navegam por fraturas. Cruzar uma fronteira nunca é um ato meramente geográfico: é um desterro do peito, um desabar silencioso da casa ancestral. Em Entre-Mundos: Exílio, Hospitalidade e Escola, Lígia Zambone Moreira não ergue um tratado frio sobre fluxos migratórios; ela esculpe um altar de escuta, onde a dor do desenraizamento e a graça do acolhimento se encontram.Tudo principia na pele de Ndala, a menina angolana colhida pela tempestade da guerra. 

De sua terra natal, restaram-lhe os cheiros impregnados na memória e o vácuo deixado pelo pai ausente, tragado pelos conflitos políticos. Ndala atravessa o oceano não por escolha, mas por sobrevivência - esse impulso bruto de manter acesa a centelha da existência. Ao desembarcar no tecido urbano de São Paulo, desprovida do idioma e das antigas referências, a pequena refugiada encarna a metáfora viva que atravessa a obra: o exilado é uma semente lançada ao vento. Distanciada de seu solo natal, a semente não perde a memória do fruto que carrega. Ela apenas vaga em busca de uma terra macia onde possa novamente fincar raízes e desabrochar.

I. O Não-Lugar do Exilado e a Fenda da Crise

Habitar o “entre-mundos” é viver em suspensão - entre o ontem que se desfez em pó e o amanhã que recusa a se desenhar. Na segunda década deste século, o mapa-múndi transformou-se em uma cartografia de cicatrizes e travessias incertas. Diante das multidões que vagam pelos mares e estradas, as nações erguem fortalezas, exigem papéis e convertem a alteridade em ameaça.

 O estrangeiro é visto como aquele que desestabiliza a ordem aparente, o caminhante que força o grupo a encarar a fragilidade de suas próprias certezas. Contudo, invocando o pensamento de Hannah Arendt, Paul Ricoeur e Donatella Di Cesare, a autora nos lembra de que a crise não precisa ser a ruína do humano: ela pode ser a fenda de luz por onde irrompe a transformação. O exílio é uma ferida que não cicatriz inteiramente, pois o que se foi jamais retorna igual. Todavia, é precisamente nessa vulnerabilidade do desterro que o gesto ético se torna urgente. 

Exilar alguém é tentar apagar sua história; acolhê-lo é devolver-lhe a condição de sujeito de direitos, palavra e afeto.

II. Da Odisseia Homérica ao Altar da Palavra: A Fenomenologia do Abraço

Para compreender a sacralidade do acolhimento, o livro viaja no tempo e desce até as margens da Grécia antiga. Na Odisseia, a hospitalidade não era mera cortesia civil, mas um mandato sagrado velado por Zeus. O forasteiro era acolhido antes mesmo que se perguntasse seu nome ou sua linhagem; estendia-se-lhe o pão, o descanso e a proteção. Maltratar o hóspede equivalia a violar o próprio tecido da humanidade - a barbárie que o Ciclope Polifemo encarnou ao devorar aqueles que batiam à sua porta.Dessa herança épica e do diálogo denso com Jacques Derrida, germina uma fenomenologia dos gestos que sustentam a verdadeira hospitalidade:

O Ver e o Reconhecer: Olhar nos olhos do recém-chegado e rasgar o véu da invisibilidade institucional.

O Dirigir a Palavra: Perguntar "quem és?", oferecendo a palavra como ponte e não como interrogatório.

O Convidar a Entrar: Abrir a porta do espaço comum, compartilhando o abrigo do mundo.

O Proteger e Alimentar: Acolher as necessidades materiais do corpo ferido pelo cansaço da viagem.

O Permitir Partir e Narrar: Dar a liberdade de ir e vir, sem exigir em troca a gratidão servil ou a renúncia da própria identidade.

Na hospitalidade linguística, como ensina Ricoeur, a tradução torna-se um ato de amor. Não se trata de exigir que o estrangeiro abandone sua língua para adotar a nossa, mas de nos dispor a escutar o timbre de sua voz e a riqueza de sua diferença. A língua do outro não é uma barreira a ser corrigida, mas um território a ser visitado.

III. Girassóis no Pátio: A Escola como Solo e Sol

Se o mundo lá fora ergue muros e burocracias, a escola surge como o primeiro porto seguro e o espaço público por excelência. Toda criança já nasce recém-chegada ao mundo; a criança exilada é recém-chegada em dobro. É no chão da escola que o indivíduo deixa de ser apenas a marca do seu trauma para voltar a ser criança, aluna e criadora de futuros.

O livro evoca a travessia de Carlos, o garoto argentino acolhido pela sensibilidade do professor Maurício, e a dor de Simon, o aluno do filme Monsieur Lazhar, cuja alma encontrou repouso ao narrar seu sofrimento a um professor que também trazia no peito as marcas do desterro. A escola não é um lugar de neutralidade asséptica, mas uma casa de portas abertas.

Como girassóis que inclinam suas hastes em direção à luz, os seres desterrados caminham incessantemente em busca de acolhimento. A escola é esse sol quente que não exige que o girassol mude sua natureza para ter direito ao calor. Nela, os cinco gestos da hospitalidade deixam de ser teoria e se transformam em prática cotidiana:

O Gesto TeóricoA Prática no Chão da Escola
ReconhecimentoChamar o aluno pelo nome correto e valorizar sua história de origem.
DiálogoDar espaço para que a língua materna ecoe como riqueza, não como falha.
Acolhimento MaterialGarantir o alimento, a segurança e o descanso do corpo que sofreu a travessia.
Espaço NarrativoPermitir que o aluno conte sua trajetória por meio da arte, da escrita ou do silêncio respeitado.
Abertura PolíticaTratar o recém-chegado como cidadão de pleno direito do espaço comum.

Considerações Finais - Memória, Esquecimento e Inacabamento

Nas Considerações Finais da obra, Lígia Zambone Moreira reúne os fios que percorrem toda a investigação: o exílio, o estar-entre, a hospitalidade, a escola, a memória e a possibilidade do recomeço.

A tese que se consolida é potente: acolher não significa apagar o passado de quem chega. Ao contrário, a verdadeira hospitalidade pressupõe o reconhecimento de que ninguém atravessa uma fronteira desprovido de história.

A memória acompanha o exilado.

Ela pode ser dolorosa, fragmentada ou silenciosa, mas permanece como parte constitutiva da identidade. O novo mundo não precisa exigir o esquecimento do anterior para que uma nova vida possa ser construída.

É nesse ponto que a reflexão sobre Ricoeur e o inacabamento ganha especial relevância. A vida não se apresenta como narrativa concluída. Cada encontro, cada deslocamento e cada chegada reabre aquilo que parecia definido.

A escola participa desse processo porque também é uma instituição inacabada.Ela recebe a tradição, mas recebe igualmente aquilo que ainda não existe.

Cada novo aluno que atravessa seu portão traz consigo uma história, uma língua, uma memória e uma maneira singular de olhar o mundo. A comunidade escolar, quando verdadeiramente hospitaleira, não apenas ensina o recém-chegado a habitar o espaço comum: permite que sua presença transforme também aqueles que já estavam ali.

Talvez esteja justamente aí uma das contribuições mais profundas de Entre-Mundos: compreender que acolher o outro não significa simplesmente abrir espaço para que ele entre em um mundo já pronto. Significa aceitar que sua chegada modifica o próprio mundo que o recebe.

 A Pátria do Olhar

Ao longo de sua travessia entre filosofia, literatura, narrativas de vida e educação, Entre-Mundos constrói uma reflexão profundamente humana sobre o direito de chegar.

A história de Ndala, que inaugura a obra como uma semente arrancada de sua terra, encontra ao final um horizonte mais amplo. A semente não deixa de carregar a memória do lugar de onde veio. Mas pode encontrar novos solos.

O sujeito exilado não precisa apagar sua origem para construir pertencimento.

A criança estrangeira não precisa abandonar sua língua para aprender outra.

O recém-chegado não precisa provar que merece humanidade.A hospitalidade começa antes.

Começa no olhar.

Talvez seja essa a pátria mais profunda que o livro nos convida a imaginar: não uma pátria delimitada por fronteiras, documentos ou pertencimentos nacionais, mas uma pátria construída pela capacidade de reconhecer o outro.

Em algum momento da vida, todos atravessamos territórios desconhecidos. Todos podemos experimentar o desenraizamento, a perda de referências e a necessidade de encontrar um novo porto. Somos, em diferentes medidas, estrangeiros diante de algo que ainda não conhecemos.Por isso, acolher o outro não é perder a si mesmo.

É ampliar o mundo.

houver uma porta que se abra, uma escola disposta a escutar e um olhar capaz de reconhecer humanidade naquele que chega, haverá possibilidade de recomeço.

Afinal, talvez a maior hospitalidade não seja oferecer abrigo apenas ao corpo, mas permitir que alguém conserve sua memória, diga seu nome, fale sua língua e encontre espaço para continuar escrevendo a própria história.

E, como sugere o próprio inacabamento que atravessa as páginas finais da obra, a humanidade permanece um livro aberto.

Cada chegada acrescenta uma página.

Cada encontro reescreve o mundo.

E talvez seja justamente nessa disposição para acolher o que ainda não conhecemos que resida a mais verdadeira forma de pertencimento.

No fim, Entre-Mundos é um convite. Um convite a reconhecer que todos, em algum momento, fomos e seremos estrangeiros. Que a semente levada pelo vento não deixa de ser árvore - ela apenas busca solo para crescer. E que a maior hospitalidade que podemos oferecer não é dar abrigo apenas ao corpo, mas escutar a voz, respeitar a memória, reconhecer a humanidade em quem bate à porta. Como nos diz a imagem que percorre o livro: os girassóis caminham em busca de luz - e a escola, como o sol, deve estar sempre lá, para todos, sem distinção. 

"A hospitalidade não é um dom de quem recebe - é o direito de quem chega, e também a forma mais antiga e sagrada de reconhecermos que, no fundo, todos somos estrangeiros em viagem".

Quem é a autora? Ligia Zambone Moreira -Mestre em Educação pela FE-USP, Doutoranda em Filosofia da Educação,Professora bilíngue da rede privada de ensino de SP,graduada no curso de Licenciatura em História pela FFLCCH-USP e em Relações Internacionais pela PUC-SP.


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