LIMA, José Vicente de. Poemas para Fuga e Retorno. 1. ed. São Paulo: Lavra, 2025.
A poesia de José Vicente de Lima publicado pela Lavra Editora, revela uma maturidade poética que "ficou guardada na gaveta por muitos anos", emergindo agora com uma voz que transita entre o existencialismo, a crônica social e o lirismo clássico. Não nasceu do pressuposto, mas do sedimento. Por décadas, seus versos habitaram o silêncio das gavetas, amadurecendo como o vinho ou a madeira que o artista, em sua face de escultor, aprendeu a respeitar. Nascido sob o sol da Zona Leste paulistana e radicado nas terras do norte paranaense, Vicente transita entre o asfalto da memória e a serenidade do agora. Em Poemas para fuga e retorno, as palavras não são apenas signos, mas extensões de suas mãos de pintor e artesão. Cada poema é um pássaro noturno que, após um longo descanso sob o manto da "noite chumbo", resolveu finalmente testar a abertura da janela. É um convite ao desapego, onde o amor é liberdade e a verdade é um horizonte que não cabe no peito. Abrir este livro é permitir que esse pássaro nos leve por "liras desconhecidas", colhendo os silêncios que só quem viveu o tempo da espera sabe transformar em canto. Prepare-se para uma jornada de partidas necessárias e regressos redentores, onde a única bússola é a honestidade de quem não teme ser, em seus próprios pensamentos, um tanto "torto".
O livro é composto por poemas que parecem atemporais, refletindo a vivência de um autor que é também pintor e escultor. Essa formação visual é nítida na construção das imagens poéticas. A obra não se prende a uma única métrica, preferindo versos livres que se adaptam ao ritmo do pensamento e da confissão. Os temas variam desde a transitoriedade do amor e a crueza da desigualdade social até homenagens históricas e reflexões sobre a própria finitude.
Análise Crítica: Entre o Espanto e a Aceitação
A poesia de José Vicente de Lima é marcada por uma "honestidade desconcertante". Ele não busca o rebuscamento vazio; sua força reside na precisão do sentimento. Em "Poema para fuga e retorno" (Poema-Título) sua escrita funciona como uma metalinguagem da própria criação artística. O autor utiliza a metáfora do "pássaro noturno" que escapa pela "janela da poesia" em uma "noite chumbo".
A "fuga" aqui não é uma covardia, mas uma necessidade de exploração por "liras desconhecidas". O "retorno" do pássaro à sua casa, carregando "silêncios" sob a asa, simboliza o ciclo do poeta: sair do mundo real para o imaginário e voltar com a matéria-prima do verso. É um poema circular, que acalma o leitor ao sugerir que a inspiração, embora fugaz, sempre encontra o caminho de volta.
Em "torto (penso)" Lima desconstrói a idealização do amor romântico. Ao afirmar que "o amor só é verdadeiro / quando um se propõe, / desde o começo, / a deixar o outro ir", o autor introduz uma ética do desapego.
O uso reiterado da expressão "penso que" confere ao poema um caráter ensaístico e reflexivo. Ele desafia o egoísmo possessivo, definindo o amor como liberdade, mesmo que isso resulte em fugacidade. É uma voz madura que aceita a impermanência.
Por outro lado em "se eu te decifrar" e "sem nexo" são dois poemas que dialogam com a dúvida existencial. Em "se eu te decifrar", a vulnerabilidade é exposta na pergunta: "e se eu virar pedra / promete / não me quebrar?". Já em "sem nexo", o poeta encara o fim do tempo com frustração por não ter encontrado "a verdade".
Há um toque de pessimismo filosófico que lembra a tradição de poetas que veem a vida como um enigma insolúvel. A "verdade" que "não cai e não cabe em si" sugere que a realidade é vasta demais para a linguagem humana.
Em "trocadilho" e "ser ou não nascer" o autor exercita sua veia mais ácida e social. Em "trocadilho ele brinca com a estrutura das "quebradas" (periferias), onde o medo é uma constante que só se perde quando se torna parte da própria engrenagem da sobrevivência. Em "ser ou não nascer", ele toca em temas espinhosos como a marginalidade e o destino, sugerindo que, para alguns, a não-existência seria um "alívio" diante de uma vida de "caminho torto".
Além disso, há outros temas centrais que aparecem no decorrer do livro como a força do sertão e do cangaço em poemas como lídia (na pia das panelas) e o trecho sobre Zé Baiano revelam uma releitura poética do cangaço, misturando drama, traição, violência, mitificação das figuras históricas. O autor não romantiza: ele humaniza. Mostra dor, culpa, desejo e destino.
Nos poemas gol (1) e gol (2) o futebol aparece como metáfora da vida - transformam o ato de fazer um gol em gesto técnico, explosão emocional,narrativa épica do cotidiano. É futebol visto com poesia, como se cada lance fosse um microcosmo da existência.
Poemas como franciscos e anônimo encontramos a existência,destino e escolhas - tratam de enfrentar desafios, seguir correntes ou resistir a elas, caminhar pelas sombras, preparar despedidas. São reflexões curtas, mas densas, que lembram haicais ampliados.
A Dor, abandono e afetos encontramos no poema abandono - simples, direto, mas carregado de emoção. O autor domina o minimalismo sentimental. A poesia das coisas simples em crisântemo,onde ele brinca com flores, rimas e expectativas do leitor. É um poema leve, quase lúdico, que contrasta com outros mais pesados.
Cotidiano, humor e crítica social se faz presente em "gosto não gosto" e "catrefa", poemas em que o autor lista preferências, expõe contradições humanas, critica comportamentos ,revisita memórias dos anos 70, fala de moralidade e preconceito. Sempre com ironia fina e observação social.
São 134 poemas onde humor e dor convivem.O livro alterna leveza, tragédia, ironia e lirismo despertando nostalgia,reflexão, riso discreto, incômodo, empatia, reconhecimento. Um livro para ler devagar, reler, e encontrar novos sentidos a cada volta.
Poemas para Fuga e Retorno é um livro que honra seu título: ele foge para o passado, para o sertão, para a memória , e retorna ao presente, ao íntimo, ao cotidiano. É uma obra que mistura cultura popular, lirismo, crítica social e existencialismo leve, criando um mosaico poético rico e acessível. José Vicente de Lima entrega uma poesia madura, humana e profundamente brasileira.
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Ao fechar as páginas de Poemas para fuga e retorno, o que resta não é o peso do papel, mas a leveza de quem compreendeu que a vida é um exercício constante de lapidação. José Vicente de Lima, o operário das artes que por tanto tempo guardou seu grito na gaveta, entrega-nos uma obra que recusa o óbvio e abraça a impermanência.Sua escrita é um porto seguro para as incertezas, onde o "tempo que está quase acabando" não é uma ameaça, mas a moldura que dá valor à verdade do instante. O pássaro que escapou no início da leitura retorna agora à sua casa, não mais vazio, mas pleno de voos incertos e liras descobertas.Fica a imagem do poeta que, entre o pincel e a pena, escolheu ser "tratado como um cara normal" enquanto desvenda o extraordinário que habita o cotidiano. José Vicente nos ensina que, se a poesia é uma fuga do mundo, o livro é o retorno necessário para que possamos, enfim, nos decifrar sem o medo de quebrar. No fim, a poesia não é prisão, é a liberdade de ser, simplesmente, um pássaro que conhece o caminho de casa.