
A presença amazônica na Bienal revelou a potência cultural, ambiental e arquitetônica dos estados que compõem o maior bioma do planeta. Cada pavilhão apresentou uma leitura singular sobre a relação entre território, tradição e inovação, formando um mosaico que evidencia a pluralidade da região.
O Acre destacou uma arquitetura profundamente enraizada na floresta, com estruturas em madeira certificada e ambientes abertos que reforçam a convivência comunitária. O pavilhão dialoga com técnicas construtivas tradicionais e explora a integração entre habitação e natureza, reafirmando a identidade amazônica como parte essencial do cotidiano acreano.
Em Roraima, as paisagens da Serra de Roraima e dos grandes rios inspiraram formas orgânicas e a valorização de elementos indígenas. O espaço apresentou a arquitetura como ferramenta de preservação cultural e ambiental, ressaltando a importância dos povos originários na construção do imaginário regional.
Rondônia trouxe a delicadeza contemplativa da Casa Entre Águas, assinada por Thiago Marques Arquitetura e com curadoria de Cleber Felipe Bandeira. O projeto utiliza materiais naturais, como madeira e argila, além de técnicas sustentáveis que integram construção e paisagem. O som das águas e o verde intenso da floresta transformam o espaço em uma experiência sensorial de pausa e conexão profunda com o bioma.
O pavilhão também destacou a produção artística rondoniense, reunindo nomes como o artista visual Flávio Dutka, o escultor Homero Rodrigues e a artista têxtil Paula Amaral entre tantos outros de RO, e participações de artistas do RJ e PA. Conforme ressaltado pelo curador, as obras e fotografias funcionam como “janelas que se abrem para os rios”, representando aquilo que o ribeirinho vê ao despertar e abrir sua casa para a paisagem. Além disso, as peças abordam ritos ligados ao corpo amazônico, evidenciando a relação simbiótica entre território, água e identidade cultural.
O Pará apresentou um pavilhão marcado pela arquitetura das águas, inspirado no cotidiano ribeirinho e nas tradições do Marajó e do Tapajós. Palafitas reinterpretadas, fibras naturais, cerâmica marajoara e referências aos saberes artesanais reforçam a ideia de que a arquitetura paraense nasce do encontro entre cultura, biodiversidade e inovação.
O Amapá levou uma proposta centrada na ancestralidade indígena e na singularidade geográfica do estado, marcado pela presença do Equador e pela convivência entre floresta e fronteira. Grafismos inspirados em povos como os Waiãpi e Palikur, além do uso de materiais sustentáveis, destacam a arquitetura como instrumento de resistência, identidade e preservação cultural.

O Amazonas, por sua vez, apresentou uma homenagem poética ao fotógrafo Sebastião Salgado por meio da instalação Casa Terra, inspirada na série Amazônia. O pavilhão combinou materiais naturais, projeções imersivas e sonoridades da floresta para recriar a atmosfera das comunidades retratadas por Salgado. A experiência ressaltou a grandiosidade do bioma, a espiritualidade indígena e a urgência da preservação ambiental, mostrando como a arquitetura pode sensibilizar e provocar reflexão, assim como a obra do artista.
Por fim, o pavilhão da Amazônia ofereceu uma imersão sensorial completa, com sons da mata, aromas naturais e ambientações que remetem ao cotidiano das comunidades ribeirinhas. A proposta evidencia que a arquitetura pode ser ponte entre tradição e tecnologia, mostrando que inovação e preservação não são caminhos opostos, mas complementares.Assim, a Bienal reafirmou que a Amazônia é mais do que um território: é um conjunto de experiências, saberes, estéticas e modos de vida que inspiram novas formas de pensar a arquitetura contemporânea e o futuro sustentável do país.