
A arte de Pim nos convida a um mergulho em um mar onde o tempo não é cronômetro, mas uma onda flexível que modela a alma. Em suas telas, a realidade se dissolve e se reconstrói na fluidez do sonho, onde rostos e relógios se entrelaçam em uma dança de identidades e instantes.
No primeiro ato, contra o abismo de um fundo preto, um turbilhão de humanidade se desenrola. Vários eus se fundem e se sobrepõem, rostos que olham e rostos que sonham, bocas que gritam e bocas que sorriem. Não há uma identidade fixa, mas uma sucessão de momentos que coexistem na mesma carne. E, abraçando essa multiplicidade, o relógio derretido escorre, um manto dourado que ampara e molda cada expressão.
O tempo não está ao lado, ele é a própria textura da existência, a forma como nos sentimos e nos transformamos a cada pulsar do mistério.

Um segundo momento (segunda tela), a verticalidade nos guia para a intimidade de um ser unificado. Um único rosto, de olhos cerrados, mergulha em si mesmo, onde o mundo externo se apaga e apenas a batida do tempo interior ressoa. Aqui, a fusão é total: o rosto é o relógio, os números desenham contornos na pele suave, e o mostrador fluído escorre como matéria líquida, derretendo-se também para fora do corpo.
Em um cenário de luz e tons suaves, a atmosfera é de paz e meditação. A assinatura e a data, “Pim 2026”, cravam o instante da criação, como uma âncora em um mar de eternidade. O tempo que flui, para cima e para baixo, é o tempo que nos forma, o tempo vivido que nos molda.Unindo essas visões, Pim nos apresenta o relógio derretido como o símbolo supremo da subjetividade. Ele não mede o tempo mecânico, mas o tempo da mente humana, o tempo que passa rápido ou devagar dependendo da nossa percepção.
Os rostos, conscientes ou sonhadores, são as testemunhas dessa jornada. Nas cores que vibram e nos tons que acolhem, a mensagem é clara: o tempo é a substância da nossa vida. Não vivemos no tempo, nós somos o tempo. Nossas mudanças, nossas memórias e nossos sonhos são o próprio tempo se desenhando em nós, como linhas de uma poesia visual que nos convida a refletir sobre a condição humana.
E nessa viagem poética, as vozes dos grandes mestres do surrealismo e da modernidade ecoam suavemente. Há a flexibilidade de Dalí e seus relógios que escorrem, a desconstrução de Picasso e suas múltiplas perspectivas, o mistério de Magritte e sua conexão de opostos, e a fluidez de Modigliani e suas linhas curvas e alongadas. Pim acolhe essas influências e as transforma em uma linguagem própria, uma poesia visual que nos convida a ver o que sentimos e a imaginar o que é real. Suas obras são um convite a olhar para dentro de nós mesmos e a perceber que o tempo não é um estranho que nos persegue, mas um companheiro que nos molda e nos revela quem realmente somos.
Olhando ainda mais de perto para essas duas telas, podemos descascar novas camadas de significado que vão além da técnica e entram na psicologia do espaço, no simbolismo das feições e na própria estrutura do que Pim pintou.
As duas telas funcionam quase como um díptico sobre a psicologia humana:
A escolha do formato das telas dita como o tempo se move em cada composição:
Se repararmos na anatomia dos relógios estilizados por Pim:
A boca é um elemento poderosíssimo na arte expressionista e surrealista:
Uma reflexão sobre o "Agora" (2026)A presença da data "2026" na segunda tela não é apenas um registro de autoria, mas ganha um peso conceitual dentro de uma obra que discute a elasticidade do tempo. Ao datar uma pintura que fala sobre o tempo derretido, a artista cria um paradoxo: ela tenta fixar um ano exato (uma métrica rígida do calendário) em uma imagem que diz que o tempo é uma ilusão líquida. É a assinatura de quem sabe que o presente é o único instante que realmente possuímos.
Diante dessas telas, o relógio abdica de sua tirania de engrenagens e ponteiros exatos para se curvar à soberania da nossa própria carne. Pim nos ensina, com a delicadeza de quem dilui certezas em óleo e pigmento, que o tempo não é o carrasco que nos persegue no silêncio do quarto, nem o compasso rígido que dita o ritmo do mundo lá fora; ele é, em sua essência mais pura, a própria matéria de que somos feitos.
Somos a multidão que se digladia no escuro da primeira tela, sobrevivendo às nossas tantas versões que nascem, gritam e morrem a cada segundo. Mas somos também o repouso sagrado da segunda, o instante em que fechamos os olhos, deixamos as horas gotejarem como mel pelas bordas da existência e finalmente nos entregamos à leveza de apenas ser.Ao assinar seu nome e cravar o ano de 2026 na fluidez do agora, a artista não fixa o tempo, mas o liberta. Suas pinceladas são um espelho líquido onde o passado e o futuro se dissolvem, deixando-nos a sós com a única verdade que nos resta: a de que a vida, assim como a arte, é um instante eterno que escorre, eterno e belo, enquanto dura.
A artista que assina como "Pim" é uma pintora e poetisa brasileira Marlene Leandro, natural do estado de São Paulo. Seu trabalho ganhou forte visibilidade nas redes sociais e em fóruns de arte digital por seu estilo único, focado no surrealismo e no expressionismo abstrato.
A identidade visual de Pim é marcada por experimentações intensas de formas e texturas. Ela produz pinturas utilizando óleo sobre tela, misturando massas acrílicas para construir relevos texturizados e dar profundidade física às suas telas. Seus quadros trazem forte influência de mestres do surrealismo como Salvador Dalí e do cubismo de Pablo Picasso. Ela costuma fundir rostos humanos alongados e olhos expressivos a elementos cotidianos ou derretidos, como relógios e coroas.
Marlene Leandro atua principalmente como artista independente e divulga grande parte do seu catálogo e processo criativo em comunidades dedicadas à cultura de arte contemporânea e dark art no Facebook e Instagram, onde o quadro dos relógios viralizou originalmente.Além das artes plásticas, ela também estende sua expressão artística para a literatura, produzindo e compartilhando poesias autorais que dialogam diretamente com a atmosfera abstrata e melancólica de suas telas.