Cadernos da Pandemia: Flávio Dutka (Parte 2)

O conjunto de  obras de Flavio Dutka, em "Cadernos da Pandemia - (Parte 2) ", não se limitam a retratar um período de crise sanitária; pois elas mergulham nas profundezas do "estado de exceção ontológico", revelando a estrutura subjacente de um mundo em suspensão. Dutka metaboliza a pandemia, convertendo-a em matéria simbólica, criando uma cosmologia de corpos em dissolução, paisagens psíquicas e cores que pulsam como forças vitais. Em cada obra, há uma tensão vibrante entre o visível e o invisível, o individual e o coletivo, operando no limiar das experiências humanas.

DUTKA,Flávio.A Memória(O lapso),Tinta spray,marcador s/papel canson,2020

"A Memória (O Lapso)" encarna o conceito de "carne do mundo" de Merleau-Ponty, apresentando um corpo que é puro tecido sensível, atravessado por linhas que se assemelham a sinapses. O lapso não é apenas esquecimento, mas a potência de reorganização do vivido. Formalmente, o artista constrói uma topologia da lembrança, onde o vermelho é pulsação e o azul, profundidade. Ecos de Paul Klee emergem, mas aqui a linha não apenas passeia, ela reconstrói, refletindo a fratura temporal da pandemia que o corpo tenta recompor.

DUTKA,Flavio. A Teia (Da Ignorância),29x42 ,spray,tinta acrílica,marcador s/papel canson, 2020.

"A Teia (Da Ignorância)" materializa a ignorância como uma estrutura translúcida, uma rede de filamentos brancos que envolvem o corpo permeável. Ignorar torna-se uma estratégia de sobrevivência frente ao excesso informacional. Agamben diria que a pandemia instaurou uma zona de indistinção entre saber e não saber, e Dutka a visualiza através de uma luz porosa e uma teia ambígua, que aprisiona e sustenta simultaneamente. Ressonâncias com Eva Hesse e Roberto Matta emergem na organicidade e no surrealismo biomórfico da obra.

DUTKA,Flávio.O Passeio na Ágora, 40x40,tinta acrílica,spray,marcador s/tela,2020

"O Passeio na Ágora" desloca o espaço público para um território mítico. Uma figura branca caminha entre espectros e coelhos em uma floresta ritualística. A pandemia transformou o encontro em risco, o outro em ameaça. Bachelard discute a casa como abrigo, mas Dutka move esse refúgio para a floresta, um espaço de diálogo silencioso. Os coelhos simbolizam fertilidade e renascimento, contrastando com as presenças espectrais, em uma reflexão sobre a sociabilidade interrompida e sua lenta reconfiguração, com ecos de Odilon Redon e Leonora Carrington.

DUTKA,Flávio. Aquários - As Ideias Líquidas, 29x42, tinta acrílica,spray,marcador s/papel canson, 2020

"Aquários – As Ideias Líquidas" mergulha no pensamento como matéria fluida. Uma figura verde, cercada por frascos, flores e ornamentos, atua como uma alquimista do intelecto. Deleuze descreve o pensamento como rizoma, e Dutka o visualiza como líquido: ideias que se dissolvem, conceitos que evaporam, pensamentos que se condensam. Formalmente, a obra ecoa a miniatura persa, a ornamentação bizantina e a exuberância cromática de Gustav Klimt, celebrando a fertilidade intelectual que emerge da suspensão.

DUTKA, Flávio. As Plêiades,       42 x59, Técnica mista s/tela, 2021.

"As Plêiades" evocam a constelação mítica, recriando o mito como metáfora da coletividade. Figuras monumentais em púrpura e azul mostram que, mesmo distantes, permanecemos ligados por forças invisíveis. 

É uma cosmologia do humano, onde cada figura é uma estrela e o campo se torna cosmos. Formalmente, a verticalidade remete a Giacometti e a atmosfera cromática a Mark Rothko, celebrando a interdependência e a constelação afetiva.


DUTKA,Flávio. Escafandro,Tinta acrílica s/tela. 2022.

"O Escafandro" apresenta uma figura luminosa submersa em energia, respirando luz. O escafandro é o dispositivo que permite o mergulho no desconhecido. Merleau-Ponty fala do corpo em devir, e Dutka leva essa ideia ao extremo: o corpo mergulha em si mesmo, na sua própria luz, tornando o isolamento uma introspecção radical. Com ressonâncias na bioluminescência de Yves Klein e na fluidez de Lygia Clark, a obra é uma ode ao pensamento profundo em época pandêmica.

DUTKA,Flávio. A Dança, Tinta acrílica s/tela, 2020

"Dança"  é puro fluxo, pulsação e caos. A ausência de título reflete um excesso. Deleuze chamaria isso de "corpo sem órgãos", uma entidade que escapa à organização. É o inconsciente pandêmico, o turbilhão emocional que não se deixa domesticar. Formalmente, há ecos do expressionismo abstrato de Gorky e Pollock, mas com uma organicidade mais narrativa, representando o núcleo bruto da série.

DUTKA,Flávio. O Portão, Tinta acrílica s/tela, 2020


"O Portão" marca o limiar entre o dentro e o fora. Duas figuras diante de um lago dourado, sob uma árvore em flor, indicam passagem e rito de transição. Bachelard afirma que todo limiar é poético, e Dutka transforma essa ideia em imagem: o lago como espelho, a árvore como promessa, o encontro como metamorfose. Com ecos de xilogravuras japonesas e simbolismo de Ferdinand Hodler, a obra anuncia o fim do confinamento como entrada em um novo mundo.

"Cadernos da Pandemia" é uma cosmologia fôlego, uma mitologia contemporânea. Dutka constrói um universo onde o corpo é símbolo, a paisagem é estado psíquico e a cor é força vital. A pandemia não é apenas tema, mas matéria ontológica que o artista transfigura, oferecendo portais que nos permitem reencontrar o mundo com olhos renovados e sensíveis.


Análise sociológica e filosófica desse ecossistema visual de Flavio Dutka.

1. "Aquários – As Ideias Líquidas" e a Sociologia de Zygmunt Bauman


Se Gilles Deleuze nos fornece a chave do pensamento rizomático e fluido, Bauman nos dá a chave da condição humana contemporânea.Na tela Aquários - As ideias líquidas , vemos uma figura majestosa e introspectiva envolta em verdes profundos e ornamentações que mimetizam o fluxo aquático, cercada por peixes e elementos florais. Relacioná-la a Bauman transforma o aquário em uma metáfora perfeita para a "Modernidade Líquida":

A Fluidez dos Vínculos e do Saber: Para Bauman, as estruturas sociais, os relacionamentos e as certezas perderam a rigidez, liquefazendo-se antes que tivessem tempo de se solidificar. No aquário de Dutka, o conhecimento e a própria identidade da personagem não estão fixados; eles flutuam. A figura tenta "escrever" ou segurar uma fita (um pergaminho de ideias), mas está imersa em um meio onde tudo ondula e escorre.

O Aquário como Isolamento e Proteção: O aquário é um ecossistema artificialmente fechado. Durante a pandemia, nossas casas tornaram-se esses aquários biológicos e digitais. Bauman discute exaustivamente como a sociedade moderna busca segurança em ambientes controlados, ao mesmo tempo em que sofre com a fragilidade das conexões humanas geradas por esse isolamento. A personagem de verde é uma "alquimista", mas também uma prisioneira de sua própria lucidez fluida - ela habita um espaço onde o mundo exterior (o fundo escuro à esquerda, com a árvore avermelhada) e o interior aquático travam um diálogo silencioso.

A Dissolução do Tempo: O tempo na pandemia perdeu sua estrutura linear e rígida, tornando-se "tempo líquido". Na obra, a coexistência de elementos decorativos bizantinos/klimtianos com a fauna marinha suspende a cronologia histórica. O saber ali gerado não busca a solidez dos dogmas passados, mas aceita a mutabilidade do presente.

2. Ampliando a Análise do Conjunto: A Dialética do Confinamento e do Cosmos

Ao observarmos os Cadernos da Pandemia nessa parte como um todo coletivo, percebemos que Dutka operou uma verdadeira alquimia psicológica do trauma. Enquanto o mundo vivia o pânico estatístico, o isolamento físico e o colapso informacional, o artista converteu o claustro em expansão cósmica.Podemos dividir a dinâmica desse conjunto em três grandes eixos poéticos:


A) O Corpo Permeável e Sintomático

Em obras como A Memória (O lapso) e A Teia (Da Ignorância) o corpo humano deixa de ter contornos anatômicos rígidos (outra forte conexão com a liquefação das certezas).

Em A Memória (O lapso), a figura vestida em vermelhos viscerais e profundos azuis estende a mão para uma rede de conexões. O corpo não termina na pele; ele se prolonga em sinapses e vetores de força. É o corpo que sente o peso do confinamento através do esquecimento e da ressignificação.

Em A Teia (Da Ignorância) a figura torna-se quase espectral, uma estrutura anatômica que se confunde com a própria teia radiante. Aqui, o misticismo e a angústia se fundem: a ignorância ou o excesso de telas/informações nos transforma em seres porosos, cuja sobrevivência depende de filtrar o que nos atravessa.


B) A Natureza como Espaço Ritual e Sobrenatural

Onde a arquitetura urbana falha e se torna perigosa, Dutka evoca o mito e a floresta.

Em O Passeio na Ágora, a "praça pública" (Ágora) - outrora o centro do debate político e humano - é completamente desterritorializada. Ela vira um bosque gótico-simbolista, onde o manto rendado da figura principal e a presença enigmática dos coelhos e vultos brancos sugerem que a sociabilidade foi empurrada para o reino do inconsciente e do sagrado. O encontro com o outro passou a exigir um manto de proteção, uma mediação fantasmagórica.


C) A Transcendência e a Sobrevivência Espiritual

O confinamento gerou o que a psicologia chama de "viagem interior", e Dutka traduz isso visualmente de forma monumental.

Em As Plêiades, as figuras verticais alongadas rompem a claustrofobia das paredes domésticas para alcançar a imensidão celeste. É a resposta estética ao distanciamento social: "estamos longe fisicamente, mas pertencemos à mesma constelação".

Em O Escafandro, o isolamento deixa de ser uma punição e passa a ser uma escolha de exploração abyssal. Vestir o escafandro é aceitar o mergulho na própria interioridade. A iluminação amarela e azul-neon que emana da figura sugere que, no silêncio absoluto do confinamento, o ser humano é capaz de gerar sua própria luz (bioluminescência da alma).

A obra (com ausência de título) não se apresenta como falta, mas como transbordamento.  É o inconsciente pandêmico em sua forma mais crua: um turbilhão emocional que não se domestica, que não se acomoda, que não se deixa reduzir ao que é explicável.Na superfície da obra, as cores se chocam como nervos expostos, as linhas se contorcem como se buscassem saída, e tudo parece vibrar com uma urgência própria. Há ecos do expressionismo abstrato - Gorky, Pollock - mas aqui a violência do gesto se mistura a uma organicidade narrativa, como se a imagem tentasse contar uma história que ainda não sabe, como se estivesse em processo de se descobrir. É o núcleo bruto dessa série, o ponto de ignição, o lugar onde tudo começa a ferver e onde, inevitavelmente, tudo também se desfaz.

Por fim, em  O Portão, a transição é selada. As cores outonais e douradas, o casal que se inclina em uma reverência melancólica ou afetuosa sob a copa florida, e a grade aberta que se confunde com a vegetação rasteira mostram que a saída do isolamento não é um retorno triunfal, mas uma travessia madura. O portão está aberto, o lago reflete o entardecer de uma era e o amanhecer de outra.

ou seja,

O conjunto de Flavio Dutka sobrevive ao período histórico da pandemia porque ele não se apoia na iconografia óbvia (máscaras, hospitais, gráficos). Ao invés disso, o artista cria uma mitologia da resiliência. Através de diálogos formais com Klimt, Klee, Giacometti e Odilon Redon, e conexões teóricas profundas com Agamben, Deleuze e, fundamentalmente, Bauman, Dutka transforma o medo do vírus no deslumbramento diante do mistério da existência. Os Cadernos são, afinal, o registro visual de uma humanidade que, ao ver seu mundo sólido desmoronar, aprendeu a nadar nas águas profundas de sua própria fluidez.


Os Cadernos da Pandemia - Parte 1