
Fonte: DUTKA,Flávio. 2008
Uma obra poderosa que opera em múltiplas camadas de ressignificação histórica. Ao inverter a lógica de uma das imagens mais icônicas do Barroco europeu, Flávio Dutka não apenas cita a história da arte, mas realiza um ato de "decolonização" visual.
Nesta obra, Flávio Dutka opera uma subversão radical da iconografia cristã ocidental. Ao apropriar-se da estrutura compositiva de A Incredulidade de São Tomé (1601-1602), de Caravaggio, o artista desloca o eixo da dúvida e da fé para o terreno do conflito colonial. Aqui, o papel do "incrédulo" é assumido pela figura indígena, enquanto o corpo que carrega a chaga pertence ao colonizador.
A obra funciona como uma ponte visual para as teses de Tzevetan Todorov em A Conquista da América. O "Outro" não é mais apenas um objeto de estudo ou de catequização, mas o sujeito ativo que, pelo toque, busca a prova material da humanidade — ou da mortalidade — daquele que se impõe como civilizador. Se em Caravaggio o toque de Tomé buscava confirmar a divindade ressuscitada, em Dutka o toque do indígena busca desmascarar a mística do invasor. É um encontro de alteridades mediado pela ferida.
A desconstrução de Dutka sugere que a história da América não é feita de um "descobrimento", mas de uma verificação tátil e dolorosa da realidade do Outro. A ciência, a arte e a cultura indígena convergem neste ponto de contato: o dedo que penetra a carne é o instrumento de uma investigação antropológica reversa. Encontramos nessa obra uma:
a) A Inversão Iconográfica (O Diálogo com Caravaggio) - Enquanto a obra original de Caravaggio foca na prova da fé, Dutka foca na prova da existência. Ao colocar o invasor na posição de Jesus, Dutka ironiza a pretensão messiânica e "salvadora" das missões colonizadoras. Por outro lado, na obra de Dutka, o indígena assume o papel do empírico, daquele que precisa do contato físico para entender a natureza do invasor. Isso reflete relatos históricos de indígenas que afogavam europeus para ver se eram deuses ou seres mortais.
b) Tratamento Cromático e Atmosfera - A paleta de cores é dominada por tons terrosos, ocres e avermelhados, que remetem tanto à terra quanto ao sangue. O uso de verdes azulados e sombrios nas figuras e nas sombras cria uma tensão dramática. Diferente do chiaroscuro nítido de Caravaggio, Dutka utiliza uma técnica de sobreposição e fragmentação (quase como uma decomposição da imagem), o que sugere que essa memória histórica é turva, construída por camadas de violência e apagamento.
c) Linhas de Força e Desconstrução - A obra não busca o realismo acadêmico, mas a expressividade gestual. As linhas pretas, que parecem arranhaduras ou ranhuras sobre a tela, conferem uma sensação de urgência e violência. A anatomia é simplificada e "reconstruída" através de planos, o que moderniza o tema e reforça a ideia de uma história que está sendo constantemente reescrita.
d) O Significado do "Toque" (A Perspectiva de Todorov) - O ponto focal da obra é o dedo que penetra a ferida. Sob a ótica de Todorov, esse gesto simboliza a dificuldade de reconhecer o Outro como igual. O gesto é de curiosidade científica e desconfiança política. A ferida exposta é a porta de entrada para a compreensão da América: um continente que foi compreendido através da dor e da violação.
Para além do tema óbvio, há escolhas formais que tornam esta peça um tratado sobre o "confronto" entre o Velho e o Novo Mundo: Dutka não retrata os corpos de forma naturalista. Há uma geometrização da anatomia (o indígena como cientista). As figuras indígenas possuem uma solidez quase cúbica, com contornos bem definidos por linhas pretas incisivas.
No centro da obra, o olhar analítico, a figura que observa o toque não tem um olhar de adoração (como em Caravaggio), mas um olhar de escrutínio. A cabeça levemente inclinada e a testa franzida sugerem o rigor do observador. Ao dar peso e contorno firme ao indígena, o artista o retira do lugar de "fantasmagoria" ou "selvagem idealizado" e o coloca como uma presença física e intelectual inegável, ou seja, a forma como resistência.
A técnica de Dutka nesta obra lembra um palimpsesto (um pergaminho que foi raspado e reescrito). Podemos chamá-la de “memória escavada” devido a fragmentação. As linhas verticais e as manchas que sugerem que a imagem está sendo vista através do tempo, como se estivéssemos olhando para uma pintura mural desgastada. Essa estética reforça a tese de Todorov: a conquista é uma história de sobreposições, onde uma cultura tenta apagar a outra, mas a de baixo (a matriz indígena) teima em transparecer através das fissuras da "civilização" imposta.
A cor não é apenas decorativa aqui; ela é narrativa, há uma tensão cromática.O Vermelho/Ocre simbolizando a terra, o barro e, inevitavelmente, o sangue. É a cor que une o corpo do colonizador ao solo americano. Já o Ciano/Verde Frio presente nas sombras e em detalhes das vestes (como a gola do invasor) criam um contraste de "corpo estranho". O invasor parece estar em um estado de frieza ou palidez cadavérica, o que acentua a ironia: quem está morrendo ou sendo desmistificado é aquele que se pretendia imortal.
Diferente de pinturas que oferecem uma paisagem ao fundo, Dutka comprime as figuras contra o plano frontal. Não há horizonte. Isso cria uma sensação de confronto inevitável. O espectador é forçado a estar "dentro" do círculo de observação. Estamos tão perto da ferida quanto o indígena. Essa ausência de espaço livre enfatiza que, no momento da conquista, não havia para onde fugir; era um embate direto de alteridades.
Além disso, há um detalhe visual fascinante que é a gola circular (estilo ruffo) do colonizador. Na história da arte, essa gola simboliza status, nobreza e a "ordem" europeia. Na obra de Dutka, ela parece uma armadura de papel que está sendo desconsiderada. Enquanto o colonizador se apresenta com os símbolos de sua "superioridade" vestimentar, o indígena foca no que é essencial e biológico: a carne e a ferida. É o colapso da etiqueta europeia diante da realidade da vida e da morte.
A ideia de "Memória Escavada" citada acima é, talvez, o conceito mais profundo para compreender a técnica de Flávio Dutka nesta obra. Ele não pinta apenas uma cena; ele pinta o processo de esquecimento e resistência da história. Há três pontos fundamentais para aprofundar essa percepção sobre a fragmentação:
1. A Estética da Ruína e o Palimpsesto - O termo palimpsesto refere-se a manuscritos antigos onde o texto original era raspado para dar lugar a um novo, mas os vestígios do antigo permaneciam visíveis sob a superfície. Dutka utiliza as linhas pretas e as manchas de cor de forma que parecem "cicatrizes" na tela. Isso sugere que a história da colonização tentou "raspar" a cultura indígena, mas a essência do "Outro" (como discute Todorov) continua pulsando sob as camadas de verniz europeu. A fragmentação impede que o olho veja uma imagem "limpa". Isso nos obriga a fazer um esforço de reconstrução mental, tal qual um arqueólogo que tenta montar um vaso quebrado.
2. O Tempo Não-Linear (Anacronismo) - Ao usar uma composição do século XVII (Caravaggio) para ilustrar um tema contemporâneo e decolonial, Dutka cria um curto-circuito temporal. A fragmentação da imagem reforça que esse evento (o encontro/confronto) não é algo que "passou". Pela forma como as cores se fundem e se separam — quase como se a pintura estivesse descascando ou derretendo — a obra sugere que a ferida colonial ainda está aberta e em processo de verificação. A memória é fragmentada porque a história oficial é cheia de lacunas.
3. A Desintegração da "Autoridade" - A figura do colonizador (à esquerda) é a que parece mais "desfeita" ou transparente em certas áreas. Ao fragmentar o corpo do invasor, o artista retira dele a solidez da autoridade histórica. O indígena, ao tocar a ferida, parece ser o elemento que dá "peso" à cena. A fragmentação aqui funciona como uma ferramenta de desmistificação: o que parecia sólido e divino (o colonizador) revela-se frágil, carnal e passível de desintegração.
Ou seja,
Essa "Memória Escavada" pode ser descrita como: Uma arqueologia do olhar, onde a pintura não se limita a representar o passado, mas a escavá-lo sob os escombros da iconografia europeia. A fragmentação de Dutka é o eco visual das vozes que foram silenciadas, mas cujas mãos continuam a buscar a verdade na carne da história.
Logo,
Se a obra de Caravaggio era sobre a fé cega que precisa do tato, a de Flávio Dutka é sobre a razão indígena que usa o tato para desarmar a fé imposta. A obra é um convite para entender que a "Ciência e a Arte" (como no título do livro de Gustavo Gurgel do Amaral – Cultura Indígena, Ciência e Arte - Temática Editora de Porto Velho, para o qual a obra como capa foi realizada ) não pertencem apenas ao invasor; elas são ferramentas de leitura do mundo que o indígena usou para entender e sobreviver ao choque da conquista. Essa abordagem faz todo o sentido no contexto do livro de Gustavo Gurgel, pois a Ciência indígena é justamente essa capacidade de ler as fissuras e os sinais da natureza e da história que a "ciência branca" muitas vezes ignora ou simplifica.