
CRUZ,Geraldo. Escultura, Técnica Papietagem,2026
As mãos de Geraldo Cruz não apenas moldam a matéria; elas despertam o silêncio contido no papel e no ferro. Nesta nova coleção, a papietagem deixa de ser um mero fazer artesanal para se converter em pele epistêmica - uma epiderme áspera, salpicada de tempo, que resguarda a memória do gesto e a urgência do movimento. O efêmero se faz casca; a fragilidade do papel, sob o império da técnica, transmuta-se em osso e resistência. Suas esculturas parecem nascer de um sopro que ainda não terminou de se formar, carregando uma vibração que atravessa o papel endurecido, como se cada camada guardasse o calor das mãos que a geraram. O metal, rígido, tenta conter o gesto, mas não consegue: as linhas se curvam, se inclinam, lançam-se para fora, como se o corpo que sustentam estivesse sempre prestes a escapar.
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CRUZ,Geraldo. Escultura, Técnica Papietagem,2026
Nas obras registradas em cor púrpura, o artista engaja o espectador em uma tensão geométrica absoluta.
O artista engaja o espectador em uma tensão geométrica absoluta. Uma figura de pigmentação purpúrea e salpicados cinzentos ergue-se, apoiada em uma haste que corta o espaço como um remo ou uma alavanca arcaica. Há uma força ancestral nesse corpo que parece empurrar a própria gravidade.O enquadramento reticular da estrutura metálica branca evoca os limites impostos pelo mundo - as regras, as gaiolas invisíveis do cotidiano.
É o diálogo vivo com a geometria tensionada de Amílcar de Castro e Franz Weissmann. No entanto, a silhueta de papel rasga essa rigidez; ela corre à beira de um tronco ou vaso moldado na base, provando que a vida sempre encontra um vetor de fuga. Esse enquadramento geométrico sugere uma contenção, uma tentativa de aprisionar o movimento, enquanto as formas anatômicas estilizadas e alongadas o libertam em pura energia de deslocamento.

CRUZ, Geraldo. Acervo Particular, 2026.
Ao transitarmos para as esculturas de tonalidades gélidas e azuladas, capturadas (assim como em sua contraparte a dinâmica se torna puramente oceânica e coreográfica.
A dinâmica se torna puramente oceânica e coreográfica. O ferro aqui não delimita barreiras quadradas; ele se retorce em espirais, ondas e turbilhões. O espaço negativo deixa de ser vácuo e passa a ser força motriz, um vento denso que esculpe o contorno das figuras.Como observado na escultura a criatura projeta-se para a frente em um esforço hercúleo, puxando os fios de sua própria rede cósmica. A textura pontilhada da papietagem confere à peça uma vibração cinética instantânea: o observador quase pode ouvir o estalar da estrutura.
Na extremidade desse turbilhão metálico, repousa uma forma côncava, uma espécie de concha, barco ou útero de papel e pigmento. É a organicidade emocional de Louise Bourgeois materializada na oficina do cotidiano. O corpo esculpido está irremediavelmente ligado a essa matriz, oscilando entre o desejo de partir e a necessidade de ancorar.
As linhas metálicas funcionam como esqueleto e desenho simultâneo, delimitando trajetórias e expandindo o plano tridimensional. O movimento não é apenas sugerido - ele se insinua na irregularidade da superfície, na maneira como o acabamento cromático salpicado se espalha sem pedir permissão. Tudo ali parece em estado de emergência. O vazio entre as hastes não é ausência: é espaço respirável, um intervalo ativo que tensiona e permite ao olhar completar aquilo que a matéria apenas inicia. Cada figura carrega uma tensão silenciosa, como se lutasse contra o próprio ar, como se empurrasse o mundo para abrir caminho.
“Geraldo Cruz opera no limiar daquilo que Rosalind Krauss definiu como 'escultura expandida'. Sua arte não se encerra no volume que ocupa; ela reverbera nas sombras que projeta na parede texturizada da oficina, fundindo-se com as ferramentas, com o ferro bruto e com o pó de papel que flutua no ar.”
Existe uma fisicalidade honesta, uma poética popular que afasta Cruz do distanciamento asséptico de Antony Gormley ou da frieza industrial de Richard Serra. Suas peças carregam o cheiro da cola, o peso do alicate, o erro transformado em acerto durante o improviso. O contraste entre a rigidez do metal e a fragilidade do papel traduz a dualidade central de sua obra: o equilíbrio entre a força e a delicadeza, o abraço indissociável entre o suporte e o gesto. Cada respingo de tinta sobre o fundo escuro do papel endurecido funciona como uma constelação particular: o microcorpo humano espelhando o macrocosmo.
A papietagem transforma o corpo em vestígio - não de algo que foi, mas de algo que está acontecendo. As esculturas não se fecham em si mesmas; elas se abrem, se estendem e se projetam para além do espaço que ocupam, fazendo do ambiente parte essencial de sua anatomia.
No conjunto, as obras formam uma coreografia suspensa. São gestos interrompidos, movimentos que permanecem vibrando mesmo quando a matéria já se estabilizou.Contemplar esta coleção é aceitar um convite ao movimento interior. As figuras de Geraldo Cruz não repousam; elas habitam o exato milissegundo em que o músculo decide agir e a alma decide voar.
Há uma força que não se vê, mas que se sente - uma energia que atravessa o metal, o papel, a cor, e que transforma cada peça em um organismo em contínua expansão. É nesse diálogo profundo entre leveza e estrutura, entre fragilidade e impulso, que a escultura encontra sua voz: uma voz que não fala, mas pulsa; que não descreve, mas insiste; que não representa, mas existe.