
Falar de Rubens Vaz Cavalcante - professor, poeta, músico e compositor - popularmente conhecido como Binho, é mergulhar em uma produção que pulsa a identidade rondoniense através de uma sensibilidade muito particular. Ele é uma figura central na cena cultural de Porto Velho, unindo a precisão acadêmica do professor à liberdade lírica do poeta. Sua obra costuma transitar entre a exaltação da natureza amazônica e a reflexão sobre a condição humana no "beiradão".
A obra poética de Binho se articula como um corpo híbrido, feito de restos urbanos, fragmentos de canções, imagens de infância e ruídos de rock. Sua poesia dialoga muitas vezes com a tradição da poesia marginal, não apenas pela recusa a formalismos, mas pela escolha consciente de falar das bordas: das ruas, dos afetos quebrados, das pequenas epifanias que nascem do improviso. Há em seus versos uma ética da proximidade — o poeta escreve como quem conversa, provoca, cutuca, compartilha.
Ao mesmo tempo, sua produção revela uma forte inclinação visual. Os poemas de Binho parecem desenhados: há ritmo gráfico, cortes abruptos, silêncios que funcionam como espaços brancos de uma página que respira. Ele compreende a palavra como imagem e a imagem como palavra, criando uma poética que se expande para além do texto, aproximando-se da colagem, do cartaz, do grafite, do hipertexto.
Sua poesia é profundamente contemporânea porque nasce do entre-lugar: entre o analógico e o digital, entre o livro e a tela, entre o verso e o riff. Binho escreve como quem escuta — e sua escuta é múltipla. Ele incorpora referências da cultura pop, do rock’n’roll, da literatura brasileira e latino-americana, criando uma tessitura que é ao mesmo tempo íntima e coletiva.
Seus poemas carregam a vibração de quem viveu a cidade, a música, o corpo e a palavra como territórios de invenção.Assim, a poesia de Binho não se limita a representar o mundo: ela o reconfigura. É uma escrita que se move, que se contamina, que se deixa atravessar.
Uma poesia que nasce da margem, mas que não se contenta em permanecer nela — prefere transformá-la em centro, em palco, em voz. É nesse gesto de deslocamento que sua obra encontra força: Binho faz da poesia um lugar de resistência sensível, onde o cotidiano se torna matéria de arte e a palavra, sempre inquieta, encontra novas formas de existir.
1. Temática e Estilo: A Voz do Rio e da Cidade
A poesia de Binho não é apenas contemplativa; ela é vivencial. Como morador de Porto Velho, ele utiliza elementos do cotidiano amazônico não como exoterismo, mas como alicerce de sua linguagem.
Identidade Regional: Suas obras frequentemente exploram a relação entre o homem e o Rio Madeira, as memórias da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e o cotidiano das populações ribeirinhas.
Lirismo e Técnica: Há um equilíbrio entre o verso livre e uma estrutura rítmica que remete à musicalidade, algo muito presente nas parcerias que ele estabelece com compositores e artistas visuais locais.
2. Obras em Destaque
Embora muito de seu trabalho circule em antologias, projetos culturais e letras de música, algumas frentes são essenciais para compreendê-lo:
Antologias e Coletâneas: Binho é presença constante em publicações que buscam mapear a literatura produzida no Norte, sendo muitas vezes o elo entre a geração mais experiente de escritores e os novos talentos.
Parcerias Musicais: É impossível dissociar a poesia de Binho da música rondoniense. Ele possui letras que se tornaram hinos informais da região, interpretadas por diversos artistas locais, onde a letra carrega o peso de uma crônica social e poética.
Atuação Educacional: Como professor, sua "obra" também se estende à formação de novos leitores e escritores, levando a literatura regional para dentro da sala de aula e combatendo o apagamento da história local.
3. O Legado na Cultura Local
Binho é reconhecido por ser um intelectual acessível. Ele não escreve de uma "torre de marfim"; sua poesia é feita no chão da cidade, nos festivais e nas rodas de conversa.
Preservação da Memória: Suas obras funcionam como um arquivo afetivo de Porto Velho, registrando cheiros, cores e o linguajar próprio da nossa região.
Resistência Cultural: Em tempos de rápida urbanização e perda de referências históricas, a escrita de Binho atua como um ponto de resistência, reafirmando que a Amazônia tem voz própria e erudita. Entretando, Binho não é somente “um poeta” - Rubens Vaz Cavalcante (Binho), é um acadêmico rigoroso, um tradutor e um crítico que pensa a Amazônia dentro de um contexto global e comparado.
Podemos dividir essa produção em três frentes principais para entender melhor o "DNA" da obra dele:
Binho demonstra um interesse profundo pela interdisciplinaridade. Ele não vê a poesia como algo estático na página, mas como algo que dialoga com outras artes.
"Arabescos Aéreos" (2003): Uma obra central onde o título já sugere a leveza e o desenho da palavra no espaço.
"O Menino e o Rio" (2017): Um livro que carrega o simbolismo da infância e da geografia amazônica, reforçando a conexão afetiva com o território.
Muitos dos artigos (como os publicados nas revistas Labirinto e E-Hum) mostram que Binho se dedica a entender o que significa produzir cultura na Região Norte. Por exemplo, em a "Lira Caboverdiana", é fascinante notar seu interesse pela literatura de Cabo Verde, o que sugere uma busca por conexões entre as identidades pós-coloniais e as semelhanças entre o "beiradão" amazônico e a insularidade africana. Por outro lado em "Norte da Produção Cultural", ele investiga a música e a literatura não como folclore, mas como produção intelectual contemporânea de alto nível.
Além disso, há um papel especial em sua obra - a ponte entre autores e o público.
Formação de Leitores: Seus trabalhos em congressos e simpósios sobre políticas de leitura reforçam que, para ele, a literatura é uma ferramenta de emancipação social e educação.
Sua escrita, frequentemente associada à cena artística de Porto Velho, evidencia um diálogo constante com as transformações sociais e culturais da região, especialmente no que diz respeito às experiências urbanas e às manifestações da juventude local.Além de sua dimensão lírica, é possível observar em sua atuação um interesse pela análise e pela valorização da literatura e da produção cultural amazônica.
Nesse sentido, sua contribuição ultrapassa o campo da criação artística, alcançando também o âmbito da reflexão, ao propor leituras sobre identidade, memória e pertencimento. Assim, sua trajetória pode ser compreendida como um ponto de convergência entre a sensibilidade do artista e o olhar analítico do intelectual.
Ao integrar essas duas perspectivas, Binho colabora para a construção e interpretação da identidade cultural de Rondônia, evidenciando como a experiência estética e a reflexão crítica podem se complementar na compreensão das dinâmicas regionais.
É uma trajetória que une a lira (a música/poesia) ao lápis (a crítica/ensino). Para quem estuda ou aprecia a cultura de Rondônia, Rubens Vaz Cavalcante é, simultaneamente, o objeto de estudo e o próprio analista da nossa identidade.
Entender Binho nessas duas frentes é compreender como a sensibilidade artística e o rigor intelectual se alimentam. Ele não separa o "sentir" do poeta do "analisar" do professor; pelo contrário, um dá profundidade ao outro. Há um equilíbrio nessas vertentes:
Na vertente criativa, a escrita dele é marcada por uma identidade telúrica (ligada à terra) e urbana.
A Poética do Olhar: Como vemos em obras como Arabescos Aéreos e O Menino e o Rio, sua poesia não busca palavras difíceis, mas imagens potentes. Ele escreve sobre o Rio Madeira, o calor de Porto Velho e as memórias da infância como quem pinta um quadro.
A Musicalidade: Binho é um poeta "de estudo e de ouvido". Muita de sua produção lírica foi feita para ser cantada ou declamada. Ele entende que a poesia na Amazônia tem uma raiz oral muito forte, ligada ao ritmo das águas e ao cotidiano das ruas.
Sensibilidade Transgressora: Em diversos poemas ele mostra que o poeta lírico também é um cronista da modernidade, misturando a tradição regional com as influências globais (como a poesia marginal, o rock) que moldaram sua geração.
Como professor e acadêmico (R. V. Cavalcante), assume o papel de mapeador da cultura. Ele não apenas produz arte, ele explica por que a arte da nossa região é fundamental.
O Defensor da "Voz do Norte": Seus artigos, como Norte da produção cultural na região norte, combatem a ideia de que a Amazônia só produz "folclore". Ele analisa a poesia e a música rondonienses com o mesmo rigor que se analisa um clássico europeu, elevando o status da nossa produção local.
Comparatista Global: Um dos pontos mais interessantes de sua trajetória acadêmica é a capacidade de dialogar com o mundo. Ao estudar a Lira Caboverdiana ele coloca Porto Velho em um circuito internacional de trocas literárias. Para ele, a literatura local só é plenamente compreendida quando vista em relação ao "outro".
Analista Técnico: Ele mergulha na estrutura das obras. É um pesquisador atento à técnica, à forma e à maneira como a linguagem pode ser manipulada para criar novos sentidos.
Binho — Rubens Vaz Cavalcante — Além das conexões com parece carregar uma espécie de ponte invisível entre os artistas de Rondônia. Ele observa a imagem, a escultura, o gesto plástico do outro, e dali extrai não apenas formas, mas pulsações. O que para muitos é matéria, para ele é verbo. O que nasce em barro, tinta ou madeira, em suas mãos se converte em poema. Há algo de ritual nessa travessia: Binho recolhe o silêncio das obras, escuta o que elas murmuram, e devolve ao mundo uma palavra que não explica — revela.
Seus versos não descrevem; eles prolongam a criação alheia, como se cada artista rondoniense encontrasse nele um eco, uma continuação, um sopro que transforma arte visual em linguagem sensível. Assim, sua poesia não está ao lado das imagens, mas dentro delas. Ele as habita, as traduz, as amplia. E, nesse movimento, costura uma rede afetiva que une os criadores do estado: cada obra é um corpo, cada poema é sua respiração ..
O que une o poeta ao pesquisador é o compromisso com o outro.
Em resumo: O Binho poeta sente o rio; o Binho pesquisador explica a correnteza. Ambos são essenciais para que a cultura de Rondônia seja, ao mesmo tempo, sentida no coração e respeitada na academia.
Logo,
BINHO - é um Alquimista do Cotidiano - Nas entrelinhas de seus textos, percebe-se uma alquimia sagrada: a capacidade de transformar o ferro da rotina no ouro do encantamento. Binho olha para o que é comum e enxerga o extraordinário. Um encontro, um café compartilhado ou um olhar trocado tornam-se, em sua prosa, eventos cósmicos. Ele é o cronista da alma miúda que sonha grande. Sua obra é um convite para que cada leitor ou ouvinte reconheça a sua própria poesia interna. Não há distância entre o autor e a obra, pois Binho é o seu próprio poema mais bonito — um homem feito de rimas vivas e de uma fé inabalável na potência do encontro humano.
Seu legado não se resume ao papel; ele se manifesta na celebração. Binho entende que a poesia é um banquete que só faz sentido se for compartilhado. Seus saraus e suas andanças são rituais de humanização. Ali, a palavra é pão, é vinho e é cura.
Ler Binho, ou ouvi-lo, é lembrar que ainda somos capazes de nos emocionar com a simplicidade. É entender que a beleza não está no que é caro, mas no que é caro ao coração. Ele permanece como esse sentinela da sensibilidade, lembrando-nos, a cada estrofe, que enquanto houver um poeta caminhando, a esperança nunca perderá o seu lugar na estrada.