O Fluxo Vital entre a Pedra e o Húmus
A poesia de Nanete Neves, em sua estreia oficial com Água demais mata a planta (Lavra Editora), manifesta-se como um transbordamento que nasce daquilo que é visceral e sensorial. É um canto que brota dos sentidos e das entranhas, uma força que expande suas margens e mistura-se à própria vida. Entre musgos e raízes, a escrita deságua em uma travessia existencial e de autodescoberta, onde a palavra funciona tanto como instrumento quanto como destino.
A maturidade de quem transitou por décadas na literatura e no jornalismo revela-se no abandono do pseudônimo Laura Fuentes; ao assumir a própria voz, a poeta expõe-se com coragem e autenticidade, provando que a poesia não precisa ser hermética para tocar a profundidade do ser real. É uma ética da atenção e do afeto, um gesto de guardar a essência para fazê-la perpetuar.
Essa jornada fragmenta-se e se reconhece em metamorfoses contínuas, desenhando a multiplicidade da identidade feminina. Na busca pelo autoconhecimento, a mulher-poeta espelha suas próprias contradições, definindo-se, no poema “Transparente”, como uma identidade fragmentada - meio gueixa, meio loba, meio boba, inteiro boca. Ser inteiro boca é assumir o manifesto do ventre e da mente, despindo-se pela palavra que transborda em versos verticais.
Essa necessidade de criar é uma biografia poética que retorna à infância em “Poeta por necessidade”, onde a dor amadurece e se transforma em resistência; mesmo que as palavras funcionem como armas, a pequena lata de tinta insiste em espalhar cor. Há uma teimosia inerente a esse fazer literário, pois, como dita em “Teimosia”, mesmo quando falta assunto ou coragem e o lábio resta mudo, o verso sujo insiste em existir.
Essa travessia recusa os extremos nesse entre-lugar, escolhendo os vãos, as bordas e os caminhos da incerteza, enquanto celebra o afeto livre e sem posse, onde amar é um exercício vital e musical que se renova como o vento.Essa voz que nasce íntima logo se desloca para o território do corpo e do desejo na seção Fêmea. O erotismo surge de forma visceral e delicada, uma afirmação da pele como espaço de expressão e encontro.
Em poemas curtos, quase haicais, as gradações do afeto se condensam: o beijo torna-se cósmico e faz as estrelas girarem, o abraço firma-se como promessa e o aperto de mão guarda a dúvida entre a fagulha e o amor. O prazer feminino é celebrado com naturalidade e força em “Molhado demais”, onde o corpo se transforma em verbo através de um jogo sonoro que une a tensão erótica a uma profunda ternura.
O sujeito lírico transita, então, pelas dobras dos Amores, humores e cobiças, onde o sentimento deixa de ser apenas físico e passa a refletir sobre o pacto e a perda. Em “Espaço demais”, o poema desenha visualmente a linha que se estende até romper, mostrando que a liberdade em excesso pode conduzir à separação. Diante da superficialidade de “Apenas sexo”, onde o sentimento se ausenta e resta apenas o eco dos corpos, a voz poética ergue-se em “Indivisível”, inspirada por Clarice Lispector, como um manifesto de integridade emocional que rejeita metades e exige a presença do outro por inteiro.
O amor maduro sobrevive não por idealização, mas por um “Pacto” ético de sobrevivência e cuidado mútuo, onde a verdade é assumida ou a mentira partilhada quando ela falta. E mesmo quando o fim se impõe com lucidez e sem rancor em “Desumano” e “Incompatibilidade”, provando que esquecer é uma tarefa desumana, o afeto ainda é evocado pela delicadeza nostálgica de uma “Memória olfativa”, despertada pelo aroma de ervas brancas que pairam longe.
Por fim, em “Reconciliação”, o amor gasto renasce em uma conversa íntima e teatral à beira do sofá; entre sapatos retirados e promessas de mudança, o reencontro ganha o ritmo de um bolerão.
Contudo, o olhar que investiga o eu não se fecha em si mesmo; ele se expande em direção ao coletivo quando o livro atinge O mundo em desencanto. Ao abandonar o casulo íntimo, a poesia mergulha nas fraturas sociais. Em “Banal”, a violência cotidiana e a apatia social são retratadas de forma seca e direta, onde o tiro que constrange a tarde ecoa como um disparo contra os marginalizados.
Esse desencanto ganha contornos planetários no manifesto ecológico de “Sem floresta, sem futuro”, que entrelaça o fazer poético ao jornalismo para denunciar o fogo que destrói as matas e consome o amanhã. É nesse ponto que a metáfora central do título conduz a obra: o excesso sufoca, o equilíbrio é vital. Em “Água demais mata a planta”, a autora medita sobre os limites humanos, advertindo que tudo o que é demais faz mal, seja o cuidado que sufoca, a paixão que consome ou o poder que corrompe. Até mesmo o que é essencial para a vida pode causar a morte se não houver medida.
Após cruzar as dores do mundo, o ciclo vital ruma para um respiro poético em Prosa ligeira, onde o peso se dissolve em aceitação, ironia e sabedoria cotidiana. A simplicidade terrena ganha a estrutura tradicional de três "Haicai animal" , capturando o instante imponente do galo no muro, a dança do beija-flor e o trabalho da formiga que vai almoçar.
A passagem das estações ganha contornos de entrega em "Haicai de Verão" e "É o Outono" , onde a natureza se oferece em frutos generosos e se desnuvia em encontros cálidos. O lirismo torna-se afiado e conciso em pílulas místicas e eróticas na página seguinte: há o conselho irônico de "Tudo tem conserto", a entrega física que esbarra nos limites de "Dispersão", a crueza lírica de "Incapacidade total" e a audácia intimista de "Teclado" e "Brincar disso", que traduzem o prazer em linguagem moderna.
Essa sabedoria popular é desconstruída nos aforismos e provérbios subvertidos de "Rosário" , lembrando que águas passadas não movem moinhos, mas que após a tempestade a bonança nos cobra a conta.Na calada das memórias, em "Coração agalopado" , resgata-se o torpor de uma véspera de Natal, onde o pensamento voa veloz ao som de uma voz antiga que rompe o isolamento das redes sociais, blindando a saudade no arquivo das lembranças eternas.
Ademais, essa maturidade reconhece, em "A chama emprestada" , que a vida é um fogo provisório; entre os que a assopram e os que a deixam extinguir, resta a velhice de se ir despedindo das coisas aos poucos, aproveitando cada minuto emprestado do infinito. Por fim, a jornada encontra seu fecho definitivo em "Sonho Douro" . Nas marolas eriçadas do remo cortando a água, desenha-se o turbilhão da alma e a coragem da menina que larga uma vida insossa, cruzando o rio rumo aos braços de outro ser. O anel de noivado deixado para trás e guardado pelo barqueiro sela o pacto com o destino.
É o ciclo completo da obra de Nanete Neves: uma escrita enxuta e contundente que transforma o íntimo em universal, mostrando que, depois de todo o desencanto e excesso, a vida sempre insiste em seguir adiante, fluindo livre e em perfeito equilíbrio.
Logo,
Nanete Neves constrói um ciclo vital: descobrir-se, amar, perder, compreender e seguir. A água - símbolo recorrente - representa o fluxo da vida e da emoção: quando em excesso, sufoca; quando em equilíbrio, faz florescer.
![]() | NEVES, Nanete. Água demais mata a planta. 1. ed. São Paulo: Lavra Editora, 2026. |