07 Apr
07Apr

LiterArte, Amazônia reúne arte, literatura e educação. Trabalhar leitura de imagem e escrita crítica com obras amazônicas é uma forma de valorizar repertórios locais, problematizar estereótipos e desenvolver habilidades de autoria. Este artigo propõe 12 obras de arte da Amazônia, ou fortemente conectadas à região, com sugestões práticas para observar, interpretar, pesquisar e escrever. A seleção combina produções contemporâneas e tradições visuais que circulam em museus, livros, murais, mídias digitais e espaços comunitários.

Antes da lista, vale firmar um combinado metodológico. Leitura de imagem não é “adivinhar” o que o artista quis dizer, é construir sentidos a partir de evidências visuais, contexto e argumentação. Escrita crítica não é “falar bem” ou “falar mal”, é sustentar uma tese com análise, referências e escolhas de linguagem. Para apoiar esse processo, use três camadas em cada atividade: descrição (o que vejo), interpretação (o que pode significar) e contextualização (o que a pesquisa e o debate ampliam).

A seguir, cada item traz: um retrato da obra e do contexto, perguntas de leitura de imagem, caminhos de pesquisa e propostas de escrita, com foco em sala de aula, clubes de leitura, oficinas de escrita, projetos interdisciplinares e iniciação científica.

1) Murais e pinturas de rua de Manaus, arte urbana como narrativa da cidade amazônica

Em Manaus, Belém e outras capitais, a arte urbana ocupa paredes e viadutos com figuras de fauna, retratos, grafismos e cenas do cotidiano ribeirinho e periférico. Mesmo quando não se tem um “título” único, o mural funciona como obra pública, acessível, situada. É excelente para leitura de imagem por exigir atenção ao entorno, ao suporte e ao público. A imagem fala com a cidade e a cidade reescreve a imagem com desgaste, pichações, anúncios e circulação.

  • Leitura de imagem, o que observar: escala, cores dominantes, contraste, figura e fundo, referências à floresta, ao rio, ao trabalho, à indústria e ao porto. Note se há elementos de denúncia, celebração, memória ou futurismo.
  • Perguntas disparadoras: quem é o sujeito representado, quem olha para ele. Que Amazônia aparece, natureza intocada, cidade industrial, território indígena, periferia, mistura. O mural convida a contemplar, protestar, ensinar ou vender uma ideia.
  • Pesquisa e contexto: registre local, data aproximada, artista ou coletivo (quando houver assinatura), e compare com fotos históricas do bairro. Investigue políticas de cidade, turismo e apagamentos, o que é permitido, o que é removido.
  • Proposta de escrita crítica: escreva uma resenha curta do mural como se fosse uma exposição a céu aberto. Estruture em tese (o que o mural faz), evidências visuais (3 detalhes), contexto (1 parágrafo) e avaliação argumentada (o que ele provoca, para quem).
  • Atividade de autoria: crie uma legenda curatorial de 120 a 180 palavras para rede social institucional, com linguagem acessível e sem simplificar o tema. Depois, reescreva a mesma legenda em registro acadêmico, explicitando conceitos e referências.

2) Cerâmica marajoara, grafismos, narrativas e hipóteses sobre o passado

A cerâmica marajoara, associada à ilha de Marajó, é uma das tradições arqueológicas mais reconhecidas no Brasil. Vasos, urnas funerárias, estatuetas e pratos trazem grafismos complexos e soluções formais sofisticadas. Para leitura de imagem, ela ensina composição, repetição, simetria, ritmo, abstração e figuração. Para escrita crítica, serve para discutir patrimônio, museus, apropriação e a diferença entre “arte”, “artefato” e “objeto ritual”.

  • Leitura de imagem, o que observar: padrões geométricos, zoomorfismos, linhas de contorno, preenchimentos, organização em faixas, e como a forma do objeto define a leitura do desenho.
  • Perguntas disparadoras: o que muda quando um grafismo está num vaso e não numa folha de papel. Como o uso do objeto interfere no sentido, doméstico, ritual, funerário. Quais hipóteses são possíveis sem romantizar o passado.
  • Pesquisa e contexto: diferencie o que é produção arqueológica antiga, o que é releitura contemporânea, e o que é souvenir. Procure textos sobre coleções em museus, debates de repatriação e ética da exposição.
  • Proposta de escrita crítica: escreva um ensaio de 600 a 900 palavras respondendo: “A cerâmica marajoara é arte?”. Traga pelo menos duas definições de arte (de autores ou de documentos curatoriais) e confronte com a materialidade do objeto.
  • Atividade de observação: faça um “mapa de grafismos”, desenhe à mão três padrões que você identificou e descreva, em texto, como cada padrão organiza o olhar e produz sensação de movimento.

3) Arte gráfica e pinturas corporais indígenas, imagem como conhecimento e posição política

Pinturas corporais e grafismos indígenas, presentes em múltiplos povos da Amazônia, articulam estética, identidade, proteção, cosmologia e relações sociais. Em contextos contemporâneos, esses grafismos também aparecem em suportes como tela, papel, tecido, murais e publicações. Para a educação, é um campo potente, desde que trabalhado com responsabilidade, evitando generalizações e buscando fontes produzidas por artistas e pesquisadores indígenas.

  • Leitura de imagem, o que observar: repetição e variação, módulos, cores e materiais (urucum, jenipapo, carvão, pigmentos industrializados), e a relação entre corpo, território e padrão gráfico.
  • Perguntas disparadoras: o grafismo é “decoração” ou linguagem. O que muda quando um padrão sai do corpo e vai para a tela. Quem tem direito de usar, ensinar e reproduzir esses grafismos.
  • Pesquisa e contexto: priorize livros, catálogos e entrevistas com artistas indígenas. Explique o povo específico, o lugar, e o contexto da obra. Discuta direitos culturais e consentimento.
  • Proposta de escrita crítica: produza uma análise comparativa entre duas imagens, uma em suporte corporal e outra em suporte de galeria ou publicação. Defenda uma tese sobre continuidade e transformação, sem transformar cultura viva em “passado”.
  • Atividade de linguagem: elabore um glossário mínimo com 8 termos, por exemplo, grafismo, cosmologia, território, autoria coletiva, tradução visual. Use cada termo em uma frase analítica.

4) Exploração da obra de Flávio Dutka – Amazônia, matéria, gesto e imaginação visual

Flávio Dutka, artista visual ligado à Amazônia, desenvolve uma produção marcada pela experimentação de materiais, pela força do gesto e pela construção de atmosferas que evocam rios, florestas, memórias e tensões do território. Suas obras frequentemente combinam textura, cor e ritmo, criando superfícies que parecem pulsar como organismos vivos. Há uma fusão entre o abstrato e o orgânico: manchas, linhas, fragmentos e camadas que sugerem correntezas, raízes, sedimentos, movimentos de crescimento e erosão. É excelente para leitura de imagem com foco sensorial e material: como a obra se constrói, que energia transmite, que relação estabelece entre natureza e imaginação.

  • Leitura de imagem, o que observar: texturas, camadas de cor, gestualidade, contrastes entre densidade e vazio, presença de formas que lembram elementos naturais sem representá‑los literalmente. Observar como o olhar percorre a superfície, onde há repouso, onde há tensão, e como a matéria parece se mover.
  • Perguntas disparadoras: a obra sugere paisagem ou pura abstração. Que sensações corporais ela provoca — fluxo, peso, leveza, turbulência. Que relação existe entre o gesto do artista e a ideia de Amazônia. A imagem parece celebrar, questionar ou transformar o imaginário amazônico. Há sinais de conflito, de vitalidade, de metamorfose.
  • Pesquisa e contexto: pesquise sobre a trajetória de Flávio Dutka, sua relação com a região, seus materiais e processos. Investigue como artistas amazônicos lidam com temas como território, identidade, natureza e modernidade. Diferencie o que é leitura sensível da obra e o que é informação histórica ou biográfica.
  • Proposta de escrita crítica: escreva um ensaio breve em que você descreve a materialidade da obra e, ao mesmo tempo, interpreta o que ela diz sobre a Amazônia contemporânea. Conclua com uma frase‑tese que sintetize o papel da obra: revelar, tensionar ou reinventar o imaginário amazônico.
  • Atividade interdisciplinar: em Artes e Geografia, crie um quadro com três colunas: “elementos visuais percebidos”, “associações com fenômenos naturais ou culturais da Amazônia”, “interpretações possíveis sobre território e identidade”.

5) Fotografia documental de Sebastião Salgado, série Amazônia, imagens, ética e sentido público

O projeto “Amazônia” de Sebastião Salgado reúne fotografias de paisagens, povos indígenas e cenas de vida na floresta, com grande circulação em exposições e livros. É um caso ideal para discutir como a fotografia constrói narrativas, como a estética influencia a recepção e como se pensa ética na representação. A leitura de imagem pode explorar composição, luz, textura, escala e ponto de vista. A escrita crítica pode discutir autoria, circulação e controvérsias.

  • Leitura de imagem, o que observar: uso do preto e branco, contraste, planos e profundidade, recortes do corpo e da paisagem, e a forma como a imagem cria “grandiosidade” ou “intimidade”.
  • Perguntas disparadoras: o que a escolha do preto e branco faz com a ideia de tempo, clássico, intemporal, distante. A imagem aproxima ou exotiza. O que está fora do quadro e por quê.
  • Pesquisa e contexto: identifique a foto específica, local e data quando disponíveis, e leia textos curatoriais e críticas. Compare recepções: imprensa, academia, movimentos indígenas.
  • Proposta de escrita crítica: escreva uma resenha de exposição com foco em ética da imagem. Inclua um parágrafo sobre linguagem fotográfica e outro sobre impacto social, com ressalvas e argumentos.
  • Atividade de reescrita: pegue uma legenda pronta do catálogo e reescreva em duas versões: uma mais descritiva, outra mais problematizadora. Compare quais escolhas mudam o sentido público da foto.

6) Fotografia e audiovisual de Claudia Andujar, Yanomami, imagem como aliança e debate

O trabalho de Claudia Andujar com os Yanomami é central para discutir fotografia, engajamento e direitos. Suas imagens dialogam com campanhas de saúde, denúncias e exposições. Ao mesmo tempo, exigem um debate crítico sobre mediação, autoria, consentimento, e o modo como a fotografia circula. Para leitura de imagem, as fotografias permitem discutir efeitos de luz, cor, flou, movimento e construção de atmosfera. Para escrita crítica, elas pedem precisão e cuidado.

  • Leitura de imagem, o que observar: recortes, proximidade, gestos, uso de cor em algumas séries, granulação, presença de elementos do cotidiano e sinais de ritual.
  • Perguntas disparadoras: que tipo de relação a imagem sugere entre fotógrafa e fotografados. A fotografia registra, interpreta, protege, denuncia. Como se evita o olhar de “coleção” sobre pessoas.
  • Pesquisa e contexto: estude a história das campanhas de saúde, a luta pela Terra Indígena Yanomami e o contexto das exposições. Busque declarações da própria artista e materiais de organizações indígenas quando disponíveis.
  • Proposta de escrita crítica: escreva um texto argumentativo: “Quando a fotografia vira ação política?”. Use ao menos três evidências visuais de uma imagem e conecte com uma informação contextual comprovável.
  • Atividade de ética editorial: simule uma reunião de editoria. Quais imagens você publicaria em um material didático, com quais legendas, e quais você evitaria. Justifique sem moralismo, com critérios claros.

7) Pintura e gravura de Hélio Melo, Acre, floresta, seringais e memória social

Hélio Melo, artista ligado ao Acre, é lembrado por obras que representam o universo dos seringais, do trabalho na floresta e de personagens do cotidiano. Suas imagens frequentemente trazem narrativas visuais, cenas, animais, trilhas, árvores e instrumentos. É ótimo para leitura de imagem com foco narrativo: quem faz o quê, onde, com quais objetos, e qual clima emocional. Também favorece escrita crítica sobre memória, trabalho e representação.

  • Leitura de imagem, o que observar: elementos narrativos, relações de escala entre humano e floresta, gestos de trabalho, presença de fauna, e a organização do espaço pictórico.
  • Perguntas disparadoras: a cena é idealizada ou dura. Quais sinais de esforço, risco, solidariedade ou exploração aparecem. O que a floresta é, casa, ameaça, economia, espírito.
  • Pesquisa e contexto: pesquise sobre a história do ciclo da borracha, seringueiros, movimentos sociais e contexto regional. Diferencie documento histórico de interpretação artística.
  • Proposta de escrita crítica: escreva uma crônica crítica, uma mistura de análise e narrativa, em que você descreve a cena e, ao mesmo tempo, interpreta seus sentidos sociais. Finalize com uma tese em uma frase.
  • Atividade interdisciplinar: em Geografia ou História, faça um quadro com três colunas: “o que a imagem mostra”, “o que a pesquisa confirma”, “o que permanece como hipótese”.

8) Arte contemporânea de Jaider Esbell, Macuxi, imagem como cosmologia, política e curadoria

Jaider Esbell, artista e curador Macuxi, foi um dos nomes mais influentes da arte indígena contemporânea no Brasil. Suas obras dialogam com narrativas de origem, seres da floresta, crítica ao colonialismo e reconstrução de imaginários. Para leitura de imagem, há camadas de símbolo, cor, figuração e texto. Para escrita crítica, é oportunidade de trabalhar fontes, evitar exotização e reconhecer protagonismo indígena na produção e na curadoria.

  • Leitura de imagem, o que observar: personagens míticos, uso de contorno, padrões, escrita na imagem quando houver, e como a composição constrói confronto ou convite.
  • Perguntas disparadoras: que narrativas a obra disputa. A imagem responde a que história oficial. O que significa ver seres encantados como política visual contemporânea.
  • Pesquisa e contexto: leia entrevistas, textos curatoriais e falas do artista sobre arte indígena contemporânea. Relacione com debates sobre museus, bienais e representatividade.
  • Proposta de escrita crítica: produza uma análise em formato de “texto de parede” de museu, com 250 a 350 palavras, evitando generalizações. Depois, escreva uma versão expandida, 900 a 1100 palavras, incluindo referências e contexto histórico.
  • Atividade de citação: selecione duas citações do artista e use como epígrafe para dois parágrafos analíticos. Explique como a citação orienta, mas não substitui, a leitura da imagem.

9) Denilson Baniwa, intervenções, apropriação crítica e disputa de imagens

Denilson Baniwa trabalha com desenho, performance, intervenção e reinterpretação de ícones da história da arte e do imaginário colonial. Muitas obras deslocam imagens clássicas, mapas, gravuras antigas e símbolos nacionais para evidenciar violência, apagamentos e resistências. Para leitura de imagem, é um exercício de intertextualidade visual: reconhecer referências e entender por que foram reconfiguradas. Para escrita crítica, é campo de argumentação sobre colonialidade e circulação de imagens.

  • Leitura de imagem, o que observar: o que parece “citação” de outra imagem. Quais elementos foram mantidos, cortados, invertidos ou ironizados. Como texto e imagem se combinam.
  • Perguntas disparadoras: a obra é denúncia, humor, duelo, reescrita histórica. Quem é o alvo da crítica. Que efeitos a intervenção produz no espectador.
  • Pesquisa e contexto: identifique a fonte apropriada, por exemplo, uma gravura antiga, uma pintura canônica, um mapa escolar. Pesquise a história dessa imagem original e o que ela representou.
  • Proposta de escrita crítica: escreva um artigo curto em três seções: “imagem original”, “gesto de intervenção” e “o que muda no debate público”. Use comparações objetivas, detalhe por detalhe.
  • Atividade de produção: crie uma “resposta visual” usando colagem ou desenho, mas sem copiar grafismos sagrados ou imagens protegidas. O foco é entender a lógica crítica da intervenção, não repetir conteúdos sensíveis.

10) Marina Zurkow, projeto “Mesocosm”, o peixe-boi e ecologias narrativas

“Mesocosm” é um projeto de animação e arte digital de Marina Zurkow que inclui um capítulo sobre o peixe-boi amazônico. A obra trabalha com ciclos, repetição, microeventos e ecologias em movimento. Para leitura de imagem, o audiovisual permite observar ritmo, loop, camadas e simultaneidade. Para escrita crítica, abre caminho para discutir arte e ciência, temporalidade ecológica e como a animação representa relações entre espécies.

  • Leitura de imagem, o que observar: camadas de ação simultânea, repetição de movimentos, variação ao longo do tempo, e como elementos humanos e não humanos aparecem no mesmo sistema.
  • Perguntas disparadoras: que tipo de narrativa existe quando não há protagonista humano central. O loop sugere equilíbrio, aprisionamento, rotina, ameaça. O que a obra faz sentir sobre o tempo ecológico.
  • Pesquisa e contexto: leia sobre o projeto, a ideia de mesocosmo e informações sobre peixe-boi, rios e impactos ambientais. Diferencie dado científico de metáfora artística.
  • Proposta de escrita crítica: faça uma análise de 800 a 1000 palavras em que você descreve uma sequência de 30 a 60 segundos do vídeo e interpreta como a linguagem da animação constrói pensamento ecológico.
  • Atividade de escrita criativa crítica: escreva um “relatório poético” em primeira pessoa do ponto de vista do peixe-boi, mas inclua pelo menos cinco observações objetivas retiradas da imagem, para manter o vínculo com a leitura visual.

11) Gravuras, mapas e imagens históricas da Amazônia em acervos digitais, leitura crítica de arquivo

Acervos digitais de bibliotecas e museus reúnem mapas, gravuras e ilustrações antigas sobre a Amazônia. Muitas dessas imagens foram produzidas em contextos coloniais e científicos, com objetivos de catalogar, explorar e dominar. Trabalhar esse conjunto como “obra” é essencial para letramento visual crítico: a imagem de arquivo parece neutra, mas constrói um ponto de vista. Para escrita crítica, é chance de discutir fonte, autoria, legenda, circulação e ideologia.

  • Leitura de imagem, o que observar: títulos e legendas, símbolos cartográficos, enquadramentos, figuras humanas em escala com a natureza, e a presença de “tipos” idealizados.
  • Perguntas disparadoras: quem produziu e para quem. O que o mapa ou a gravura quer convencer o leitor a acreditar. Quais ausências são mais marcantes, povos, línguas, rotas próprias, nomes indígenas.
  • Pesquisa e contexto: verifique data, instituição, objetivo da expedição e linguagem do período. Compare com narrativas contemporâneas, inclusive indígenas e ribeirinhas.
  • Proposta de escrita crítica: escreva uma “ficha crítica de documento visual” com seções fixas: descrição, função, público, vieses, e impactos. Finalize com uma mini-tese sobre como o arquivo fabrica uma Amazônia específica.
  • Atividade de relegendagem: reescreva a legenda colonial em linguagem atual, explicitando o ponto de vista, por exemplo, “mapa feito para fins de exploração”. Discuta por que a legenda é parte do sentido da imagem.

12) Arte de fibras e tramas amazônicas, cestarias, tecelagens e a inteligência das mãos

Cestarias indígenas e ribeirinhas, tramas com arumã, tucum, palhas e outras fibras, são obras que combinam técnica, matemática visual, utilidade e beleza. Elas ensinam leitura de imagem por meio de estrutura, padrão, repetição, simetria e variações. Também são um campo fértil para escrita crítica sobre o que a escola chama de “artesanato”, sobre economia local, autoria e saberes transmitidos.

  • Leitura de imagem, o que observar: padrão de trama, alternância de cores, pontos de tensão, bordas, e como a forma tridimensional interfere no desenho que emerge.
  • Perguntas disparadoras: por que a escola separa arte e artesanato. O que se perde quando se ignora técnica e tempo de trabalho. Como a função do objeto não diminui sua potência estética.
  • Pesquisa e contexto: busque informações sobre a comunidade ou povo, materiais, tempo de coleta, preparo e tecimento. Se possível, use entrevistas e registros locais, com consentimento.
  • Proposta de escrita crítica: escreva um texto em forma de perfil, apresentando a obra e o processo, mas inclua análise formal, não só “história de vida”. Defenda uma tese sobre a inteligência visual da trama.
  • Atividade de descrição técnica: descreva a trama como se fosse um manual. Depois, transforme o manual em parágrafo crítico, mostrando que técnica também é linguagem.

13) Ilustração e arte editorial amazônica, capas, quadrinhos e livros como galeria

A produção editorial amazônica, capas de livros, ilustrações, zines, cartazes, quadrinhos e projetos de design com temática regional, oferece obras mais próximas do cotidiano escolar e das bibliotecas. É excelente para leitura de imagem porque cruza texto e visual, e para escrita crítica porque pede análise de projeto gráfico, público-alvo, discurso e mercado. Além disso, ajuda a conectar literatura e artes visuais, eixo central para um site de educação como a LiterArte.

  • Leitura de imagem, o que observar: tipografia, cor, hierarquia visual, relação imagem-texto, símbolos usados para representar Amazônia, e se há estereótipos repetidos.
  • Perguntas disparadoras: a capa promete que tipo de história. A imagem vende uma ideia de região. O projeto visual respeita complexidades ou reduz a Amazônia a “floresta e bicho”.
  • Pesquisa e contexto: identifique ilustrador, editora, ano e circulação. Compare edições diferentes do mesmo livro, se existirem. Observe como o design muda conforme o público e o tempo.
  • Proposta de escrita crítica: escreva uma resenha visual de capa, como se a capa fosse uma obra autônoma. Inclua critérios: coerência com o conteúdo, originalidade, legibilidade, e responsabilidade cultural.
  • Atividade de redesign argumentado: proponha uma nova capa para a mesma obra. Escreva um texto defendendo suas escolhas, cor, símbolos, tipografia, e explicando quais estereótipos você evitou e por quê.

Como transformar os 13 itens em sequência didática, leitura de imagem e escrita crítica em 4 etapas

Para garantir profundidade, organize o trabalho em um ciclo que possa durar de 4 a 8 semanas, ajustando ao nível. A ideia é passar de observação para argumentação, e da argumentação para autoria.

  • Etapa 1, observação guiada: escolha 2 a 3 obras da lista. Faça leitura silenciosa, depois leitura coletiva. Registre no quadro uma coluna de “evidências”, cores, formas, objetos, gestos, materiais.
  • Etapa 2, hipóteses e vocabulário: transforme evidências em hipóteses. Ensine conectivos de argumentação, “isso sugere”, “indica”, “contrasta com”, “reforça”. Crie um banco de palavras para falar de imagem, composição, textura, direção, ritmo, escala.
  • Etapa 3, pesquisa e checagem: cada grupo investiga uma obra, confirma dados básicos e reúne 3 fontes. Ensine a diferença entre opinião e informação verificável, e como citar corretamente.
  • Etapa 4, escrita e reescrita: peça um texto inicial, depois revisão por pares com critérios. Reescreva com base em perguntas: qual é minha tese, quais evidências visuais sustentam, qual contexto é necessário, qual é o meu cuidado ético ao representar pessoas e culturas.

Modelos de texto para treinar escrita crítica, escolha 1 por aula

  • Parágrafo descritivo: 120 a 160 palavras, sem interpretar, apenas descrever com precisão. Ideal para aprender a “ver”.
  • Parágrafo interpretativo: 150 a 200 palavras, com 2 hipóteses e 3 evidências. Ideal para ligar forma e sentido.
  • Resenha crítica: 800 a 1200 palavras, com introdução, tese, análise formal, contexto e avaliação. Ideal para projetos.
  • Comparação: 700 a 1000 palavras, duas obras, um eixo de comparação, por exemplo, cidade e floresta, arquivo e contemporâneo, fotografia e grafismo.
  • Texto curatorial: 250 a 350 palavras, linguagem acessível, objetivo público, foco em orientar o olhar sem fechar sentidos.
  • Relato de pesquisa: 600 a 900 palavras, com metodologia simples, o que foi pesquisado, quais fontes, quais limites, o que a análise indicou.

Critérios de avaliação, o que observar na leitura de imagem e na escrita

  • Precisão descritiva: o texto descreve detalhes que realmente estão na imagem, sem inventar.
  • Coerência argumentativa: há tese e as evidências visuais sustentam a tese.
  • Contexto adequado: informações históricas e culturais aparecem quando necessárias e são verificáveis.
  • Vocabulário visual: uso de termos de composição, técnica e materialidade com sentido.
  • Ética e responsabilidade: especialmente ao tratar de povos indígenas, o texto evita generalizações, respeita autoria e não transforma pessoas em objetos.
  • Reescrita: o aluno ou autor revisa e melhora o texto com base em critérios, mostrando processo.

Fechamento, por que essas obras fortalecem leitura, escrita e pertencimento

Trabalhar 13 obras de arte da Amazônia é mais do que reunir imagens bonitas. É construir competências de leitura visual, ampliar repertório cultural e praticar escrita crítica com rigor e sensibilidade. Ao alternar cerâmica e fotografia, grafismos e arquivo, mural e livro, a turma aprende que a Amazônia não cabe em um único clichê. Ela é território de muitas línguas, técnicas, memórias e disputas. E quando o estudante aprende a ver com atenção, pesquisar com critério e escrever com clareza, ele também aprende a participar do debate público sobre cultura, educação e justiça.


Sebastião Salgado  Claudia Andujar,Pintura e gravura de Hélio Melo, Acre Jaider Esbell, Macuxi, imagem como cosmologia, política e curadoria Denilson Baniwa, intervenções, apropriação crítica Marina Zurkow, projeto “Mesocosm”,Flávio Dutka

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