01 Apr
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Porto Velho: Temática Editora & Cursos, 2025. 

Em um cenário historicamente marcado pela centralização da produção musical no eixo Sul-Sudeste, o Songbook Amazonialidades: nos trilhos das canções (2025), do cantor e compositor rondoniense Bado, surge como uma obra de significativa relevância estética, cultural e pedagógica. Mais do que uma coletânea de partituras, o livro se configura como um gesto de preservação, circulação e legitimação da música amazônica contemporânea. 

Organizado por Benedita Nascimento, Oséias Araújo e pelo próprio Bado (Erivaldo de Melo Trindade), o songbook apresenta transcrições técnicas cuidadosas — melodias, cifras e estruturas harmônicas — que tornam o material acessível tanto a músicos profissionais quanto a estudantes. 

A qualidade editorial, assegurada pela Temática Editora & Cursos, reforça o caráter didático da obra, consolidando-a como instrumento relevante para o ensino de música regional. Do ponto de vista estético, Amazonialidades revela, já em sua materialidade, uma proposta coerente com o universo do artista. 

A capa, construída a partir de colagens de partituras e fotografias, sugere uma curadoria que entrelaça memória e trajetória. O próprio título antecipa o eixo conceitual da obra: a “amazonialidade” como expressão identitária, marcada por vínculos territoriais, afetivos e culturais com a Amazônia. O repertório selecionado confirma essa perspectiva. 

Canções como Porto das Esperanças, Mundos, Rondoniana e Passarada evidenciam uma poética profundamente enraizada na paisagem e nas vivências amazônicas. As composições transitam entre a evocação de pertencimento, a valorização da fauna e dos cenários naturais e o diálogo com experiências coletivas. Nesse sentido, destaca-se também o caráter colaborativo da obra, evidenciado nas parcerias com artistas como Baaribu Nonato, Binho, Ivaneide Bandeira e Luiz Bessa, entre outros nomes relevantes da cena regional. 

Musicalmente, o trabalho de Bado se caracteriza por um hibridismo que articula ritmos regionais, influências afro-indígenas e elementos da Música Popular Brasileira (MPB), combinados a harmonias elaboradas. Tal combinação demonstra a capacidade do compositor de transitar entre diferentes universos musicais sem diluir sua identidade, reforçando a singularidade de sua produção. Nesse contexto, o conceito de “amazonialidade” se apresenta como eixo estruturante da obra. Mais do que um tema, trata-se de uma perspectiva estética que se manifesta na construção de uma poética da paisagem, no entrelaçamento de elementos culturais diversos e na afirmação da Amazônia como sujeito — e não como mero cenário. 

As letras evocam rios, trilhos, memórias e deslocamentos, compondo uma cartografia afetiva que ressignifica o espaço amazônico. Do ponto de vista crítico, o songbook pode ser compreendido como um dispositivo cultural que cumpre funções essenciais. Em primeiro lugar, atua como registro e preservação, ao sistematizar uma produção que, em grande medida, circula pela oralidade. Em segundo, promove a democratização do acesso, ao disponibilizar o repertório a intérpretes, pesquisadores e instituições de ensino. Por fim, contribui para a legitimação estética da música amazônica, ao inseri-la em circuitos editoriais tradicionalmente excludentes. 

Além disso, a publicação assume uma dimensão política relevante. Em um momento em que a Amazônia é frequentemente reduzida a discursos externos ou estereotipados, a obra de Bado reafirma a potência cultural da região a partir de uma perspectiva interna, sensível e autoral. Ao fazê-lo, contribui para a descentralização da produção cultural brasileira e para a valorização de identidades amazônidas. Entretanto, se há um possível limite na obra, ele reside menos em sua proposta e mais nas condições estruturais de circulação: como ocorre com grande parte das produções regionais, seu alcance ainda depende de estratégias mais amplas de difusão. 

Ainda assim, tal questão não compromete o valor do trabalho, mas evidencia desafios persistentes no campo cultural brasileiro. Em síntese Amazonialidades: nos trilhos das canções ultrapassa o formato de songbook para se afirmar como um artefato cultural de grande relevância. 

Ao reunir documentação musical, densidade poética e afirmação identitária, a obra não apenas preserva um repertório significativo Amazonialidades, mas também amplia as possibilidades de escuta e interpretação da música amazônica. Ao final, permanece a sensação de que o livro não se encerra em suas páginas. Suas canções, como rios, continuam a correr — atravessando intérpretes, territórios e sensibilidades. 

Nesse sentido, a obra de Bado não apenas se lê ou se executa: ela se experimenta, se prolonga e se reinventa.

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