A análise de As Meninas (1973), de Lygia Fagundes Telles, exige do estudante o domínio de uma das técnicas narrativas mais complexas do Modernismo brasileiro (Terceira Geração / Geração de 45).A banca adora este livro porque ele cruza o auge da Ditadura Militar no Brasil (anos de chumbo, pós-AI-5) com as revoluções comportamentais da juventude dos anos 1970. A prova cobrará a capacidade de identificar quem está falando a cada momento e como a micropolítica (os dilemas íntimos) espelha a macropolítica (o cenário de exceção do país).
O aspecto técnico mais importante para a Fuvest é a polifonia (múltiplas vozes). A história não tem um narrador único. Lygia Fagundes Telles utiliza a técnica do fluxo de consciência, onde a narrativa oscila entre a terceira pessoa e a primeira pessoa de três protagonistas diferentes. As transições muitas vezes acontecem sem aviso prévio (no meio de um parágrafo), exigindo que o leitor identifique a dona da voz pelo vocabulário e pelas obsessões mentais de cada uma.
A ação se passa em um curto espaço de tempo no início dos anos 1970, no Pensionato de Freiras Nossa Senhora de Fátima, em São Paulo. Lá vivem três jovens universitárias de origens e personalidades completamente distintas, que funcionam como um mosaico da juventude da época:
O clímax do romance se dá através de duas crises paralelas: a angústia de Lião ao descobrir a prisão de Miguel e a overdose fatal de Ana Clara dentro do quarto de Lorena. O desfecho da obra mostra a dispersão definitiva das três "meninas". Após a morte de Ana Clara, Lorena decide finalmente romper com o pensionato e viajar, enquanto Lião parte para a clandestinidade total na guerrilha. O fim do livro simboliza o encerramento abrupto da juventude e a perda da inocência diante de um país sufocado pela violência.

Para a Fuvest, o Pensionato das Freiras é um espaço ambivalente. Ao mesmo tempo em que funciona como um "útero" protetor para as três jovens, ele é vigiado pelos olhos severos e repressores das freiras (especialmente a Madre Alix). Trata-se de um microcosmo do Brasil sob a Ditadura Militar: um ambiente aparentemente pacífico, ordeiro e religioso, mas onde vigora a censura, o medo, a delação e o silenciamento das liberdades individuais.
Em sintonia com a segunda onda do feminismo mundial dos anos 1970, Lygia coloca o corpo feminino no centro do debate:
Um dos maiores méritos históricos de As Meninas é o seu teor de denúncia corajosa. O livro foi publicado em 1973, no período mais violento da repressão, driblando a censura prévia. A inclusão do depoimento detalhado de um preso político sendo torturado (enviado clandestinamente a Lião) insere o documento histórico e a denúncia da violação dos Direitos Humanos diretamente no tecido ficcional do romance, conferindo à obra um caráter de testemunho urgente.
Devido à sua densidade psicológica e social, As Meninas é um verdadeiro coringa para redações com temas contemporâneos:
Temas sobre Juventude, Identidade e Engajamento: Se a proposta discutir o papel dos jovens na transformação social ou o conflito de gerações, as três personagens servem para ilustrar diferentes respostas juvenis diante de uma crise histórica (o engajamento de Lião, a alienação estética de Lorena e o escape autodestrutivo de Ana Clara).
Temas sobre Amizade, Solidariedade e Empatia em Tempos de Crise: Apesar de pensarem e agirem de formas opostas, as três protagonistas mantêm um profundo laço de sororidade e afeto. O quarto de Lorena funciona como um espaço de acolhimento mútuo. Isso pode ser usado para argumentar sobre a importância da solidariedade afetiva como forma de resistência em contextos de opressão ou esgarçamento social.
Dica de ouro para a Segunda Fase: Atenção redobrada às questões que pedirem para identificar a quem pertence determinado trecho de pensamento. Lembrem-se: se o pensamento envolve citações em latim, luxo, arte e hesitação, a voz é de Lorena; se envolve termos políticos, pragmatismo e preocupação com a segurança, é de Lião; se envolve gírias, fragmentação mental, medo da pobreza e alucinações, é de Ana Clara.