Em Contos Crônicos antes da primeira frase, já há um murmúrio, o rumor de uma panela no fogo, o eco de um estádio distante, o arrastar de uma cadeira no bar, o sussurro de uma mãe que já não está. Escobar Franelas escreve como quem recolhe restos de vida no chão da casa e os transforma em matéria de mundo.
Cada conto é uma fresta por onde o cotidiano, esse animal indomável, respira. Aqui, a memória não é fotografia: é ferida aberta, é cheiro de Ki-Suco, é nome que pesa mais que o corpo que o carrega. A violência não chega com estrondo, mas com a delicadeza de um gesto repetido até se tornar destino.
A linguagem, às vezes, tropeça de tão humana; outras vezes, dança como quem tenta escapar de si mesma. Há dias em que o espelho devolve um rosto que não reconhecemos. Há noites em que o banho se torna fronteira entre o sono e o fim. Há manhãs em que o pão e o café são tudo o que resta de uma fé cansada. Franelas escreve para lembrar que a vida é feita de pequenas mortes e pequenas iluminações. Que o riso pode nascer no mesmo lugar onde a dor se esconde. Que o corpo é casa, palco e abismo. Que o Brasil cabe dentro de uma cozinha pobre, de um bar antigo, de uma sala onde um pai insiste em ser chamado de “Sênior”. Que a infância nunca termina: apenas muda de voz.
Este livro não pede leitura — pede convivência. Pede que o leitor se sente à mesa, escute as histórias, aceite o desconforto, reconheça os silêncios. Porque, ao fim, Contos Crônicos não fala apenas dos personagens que o habitam. Fala de nós. Do que fomos, do que fingimos ser, do que ainda tentamos salvar antes que a memória se apague.

Contos Crônicos, de Escobar Franelas, configura-se como uma das obras mais expressivas da literatura brasileira contemporânea ao transformar o cotidiano - doméstico, urbano, íntimo ou simbólico - em campo de tensão estética, crítica social e revelação existencial. A coletânea, embora composta por textos de extensão e estilos variados, apresenta uma unidade profunda: a investigação da condição humana por meio da oralidade, da memória, da violência estrutural, do corpo e da impermanência.
A obra se organiza como um ciclo, no qual cada conto representa uma estação da experiência humana: nascimento, formação, conflito, dissolução e silêncio. O conjunto revela um autor que domina tanto a narrativa longa quanto o microconto, tanto a sátira política quanto a prosa poética, compondo um mosaico que espelha o Brasil íntimo e social.
1. O Cotidiano como Território de Conflito e Revelação: Desde o início, Franelas demonstra que o cotidiano não é banal: é palco de disputas simbólicas, afetivas e ideológicas. Em “Cantoná”, um dos contos centrais da coletânea, o futebol, elemento cultural profundamente brasileiro, torna-se alegoria da masculinidade tóxica, da frustração social e da herança patriarcal. O pai, obcecado pelo jogador Eric Cantona, transforma o próprio filho em extensão de seu ideal de virilidade, revelando como a violência simbólica se infiltra na linguagem, no nome e no corpo.
A narrativa, que começa com humor, evolui para um desconforto crescente, expondo a fragilidade emocional do pai e a opressão doméstica que estrutura a vida familiar. A ironia — como a obsessão pela pronúncia correta de “Cantoná” — convive com cenas de brutalidade, compondo um retrato complexo da masculinidade brasileira.
2. A Oralidade como Forma e como Mundo: A oralidade é o eixo estético da coletânea. Franelas escreve como quem escuta: diálogos vivos, pausas, repetições, marcas regionais e silêncios constroem personagens e atmosferas. Em “Velório”, a narrativa é inteiramente dialogada. A conversa entre familiares transforma lembranças gastronômicas — “tronchinhas”, sagu com Ki-Suco, restos do açougue — em arquivo emocional da infância.
Mas a nostalgia cede lugar à revelação de mágoas profundas, como quando um personagem confessa ter desejado a morte da própria mãe. A memória, aqui, é ambígua: mistura afeto e rancor, ternura e culpa. A oralidade também estrutura “VS. Eu”, ambientado num bar antigo, onde a repetição rítmica da linguagem reproduz o ciclo de bravatas, decadência e autoconfronto que marca a sociabilidade masculina.
3. Corpo, Imagem e Performance: Outra vertente da coletânea explora o corpo como palco de identidade, desejo e transformação. Em “Côncavo e Convexo”, uma mulher diante do espelho encena sua própria imagem. O reflexo torna-se interlocutor, consciência e máscara. O conto discute a tensão entre aparência e essência, entre o que se é e o que se performa para o mundo. Já “Noir” transforma cores em emoções: verde da sedução, azul dos argumentos, carmim da arguição. A narrativa é pictórica, sensual, quase cinematográfica, e revela o fracasso da comunicação amorosa. Em “Copa Copo Corpo”, o corpo se dissolve no álcool enquanto o país vibra com a Copa do Mundo. O copo, o corpo e a copa se entrelaçam foneticamente e simbolicamente, compondo um quadro de solidão em meio à festa coletiva.
4. Violência, Fragilidade e Destino: A violência cotidiana aparece de forma abrupta e silenciosa em “Ou se Mata ou se Morre”. Hidônio, exausto e sonolento, é assassinado no banho enquanto a espuma do xampu lhe cobre os olhos. A narrativa transforma gestos banais, levantar-se, urinar, lavar os cabelos, em movimentos carregados de ameaça. A morte, aqui, é extensão natural da rotina, revelando a invisibilidade social de certas vidas.
"Ou se Mata ou se Morre” dialoga com tradições do conto Noir, do realismo brutalista e da literatura existencial contemporânea. Há ecos da secura narrativa de Rubem Fonseca e da violência silenciosa presente em Patrícia Melo, mas Franelas imprime ao texto uma identidade própria ao incorporar oralidade, lentidão psicológica e melancolia cotidiana.
5. Linguagem, Ritual e Delírio: Alguns textos da coletânea exploram a repetição como forma de transe. Em alguns contos, a linguagem se torna mantra, liturgia profana, crítica à religiosidade mecânica e à alienação cotidiana. A repetição musicaliza o texto e transforma o gesto doméstico em ritual existencial. Em “Glossolalia”, Franelas satiriza o discurso político e midiático, imitando o ritmo frenético da televisão e expondo o vazio de sentido que permeia o noticiário. A linguagem caótica funciona como metáfora da confusão coletiva.
6. Natureza, Tempo e Metamorfose: O conto “As Estações” representa o ápice simbólico da coletânea. Nele, uma mulher que planta uma horta passa por uma metamorfose lenta e orgânica, fundindo-se à terra, às folhas e ao ciclo natural. O corpo torna-se vegetal; o humano retorna ao ritmo da natureza. A narrativa abandona o social e mergulha no metafísico, explorando o tempo lento, a morte e a continuidade da vida.
7. O Silêncio Final-Mente e Esquecimento: A coletânea se encerra com “Alzheimer”, um microconto devastador. Em poucas linhas, “pensava que pensava”, Franelas revela o colapso da consciência. O personagem pisa em minhocas “no chão e no ar”, confundindo realidade e imaginação. A linguagem se reduz ao essencial, como se o próprio texto estivesse sendo corroído pelo esquecimento.
Se “As Estações” trata da dissolução do corpo na natureza, “Alzheimer” trata da dissolução da mente no vazio. Juntos, os dois contos fecham o ciclo da existência.
Contos Crônicos é uma obra que articula o íntimo e o social, o trágico e o cômico, o cotidiano e o metafísico. Franelas transforma:
A coletânea começa com vozes — diálogos, conflitos, afetos — e termina com o apagamento dessas vozes. É uma obra sobre a impermanência: tudo nasce, cresce, se desgasta, se transforma e, por fim, se dissolve.
Escobar Franelas emerge como um dos grandes cronistas da alma brasileira contemporânea, capaz de transformar o mínimo em infinito e o cotidiano em revelação.
Ao terminar Contos Crônicos, não é o silêncio que fica, é o murmúrio. Um rumor que continua vibrando no fundo da memória, como se cada conto deixasse uma pequena rachadura por onde a vida insiste em entrar. Escobar Franelas não escreve para concluir: escreve para abrir. Abre feridas, abre janelas, abre lembranças que preferíamos manter trancadas.
E, quando a última página se dobra, percebemos que algo em nós também se deslocou. Os personagens - tão comuns, tão frágeis, tão nossos - permanecem caminhando dentro da gente. O pai que pronuncia “Cantoná” como quem tenta segurar o próprio mundo. Os irmãos que mastigam infância e mágoa no mesmo prato. Hidônio, que cai no chão do banheiro como quem cai da própria vida. A mulher que se olha no espelho e encontra, no reflexo, uma versão de si que talvez nunca tenha existido. A horta que cresce devagar, como cresce o corpo, como cresce o tempo. A mente que se apaga, mas ainda tenta lembrar que pensava.
Franelas nos lembra que o cotidiano é uma máquina de moer e de iluminar. Que a violência pode morar na mesa do jantar. Que a ternura pode surgir no meio da sujeira. Que a memória é um animal indócil, que morde e acaricia ao mesmo tempo. Que o Brasil cabe em uma frase dita no bar, em um nome mal pronunciado, em um pedaço de pão dividido entre irmãos.
Encerrar este livro é aceitar que a vida não cabe inteira em nenhuma narrativa, mas cabe nos fragmentos. Nos restos. Nos gestos mínimos que, quando observados com atenção, revelam tudo o que somos: côncavos e convexos, frágeis e ferozes, ridículos e sublimes. E assim, ao fechar Contos Crônicos, não fechamos um livro. Fechamos um espelho. E nele ainda vemos, por um instante, o reflexo de tudo aquilo que tentamos esquecer — e de tudo aquilo que, apesar de tudo, ainda nos mantém vivos.
FRANELAS, Escobar. Contos Crônicos. 1. ed. Mogi das Cruzes, SP: Lavra Editora, 2024. Capa: Manuel Gonçalves.