01 Apr
01Apr

Compartilhado com: PúblicoCarlos Moreira   é um escritor que me fascina pela densidade e pela beleza de seus textos. Seus livros repousam em minha casa como tesouros silenciosos, e cada leitura é um mergulho profundo em mares de pensamento e emoção. Em cada página, encontro espelhos e abismos, encontro vida e mistério , encontro angústia e vida — e é nesse encontro que descubro também um pouco mais de mim.Falar sobre "Seol", de Carlos Moreira, é mergulhar em uma obra que foge do óbvio na literatura brasileira contemporânea.

 Publicado pela editora Lavra, o livro é um exercício potente de estilo e reflexão existencial.

Autor : Carlos Moreira

Editora:  Lavra Editora  (Mogi das Cruzes, SP), 2021

Gênero:  Poesia brasileira / Prosa poética existencial

Prefácio: Alberto Lins Caldas

O título já entrega a atmosfera: Seol (ou Sheol), no contexto bíblico, refere-se ao lugar dos mortos, à morada do silêncio ou ao abismo. Carlos Moreira não usa isso apenas como metáfora, mas como a própria fundação do mundo que ele constrói.

Pontos Altos da Obra

1. Linguagem Lapidada: Moreira tem um cuidado quase artesanal com as palavras. A prosa é densa, poética e exige atenção. Ele não entrega tudo mastigado, preferindo criar imagens sensoriais que evocam  o peso do silêncio e a aspereza do clima.

2. O Peso do Sagrado e do Profano: O livro dialoga constantemente com temas teológicos e filosóficos. Ele explora a finitude humana e a busca por sentido em um lugar onde a esperança é um artigo de luxo. É uma leitura "pesada" no sentido de profundidade, ideal para quem gosta de autores como Cormac McCarthy ou Raduan Nassar.

3. O que esperar da experiência?

• Ritmo: Lento e contemplativo.

• Temática: Solidão, memória, morte e a persistência da existência.

• Dificuldade: Média/Alta. 

O vocabulário e a estrutura narrativa exigem um leitor disposto a montar o quebra-cabeça emocional da trama.Resumo da ópera: "Seol" é uma obra visceral. Carlos Moreira consegue transformar o "vazio" em algo palpável, entregando uma das experiências mais introspectivas da literatura nacional recente.

Seol não é apenas um livro de poesias convencional, mas, como define Alberto Lins Caldas no prefácio, um "corpo vivo" e uma "rede complexa de pensamento". A obra se posiciona em um lugar de enfrentamento ao horror e à finitude.

Numa análise mais aprofundada dos temas e da estrutura dos textos:

1. A Poética do "Sentir-Viver"

O livro rejeita a ideia de poesia como mero exercício estético ou "verso" decorativo. O texto busca o que chama de sentir-viver, uma experiência radical onde o corpo e o poema se fundem.

• O Horror como Investigação: A obra investiga o horror de existir e de ser destroçado, buscando iluminar a "treva que deseja ser sempre tudo".

• O Corpo em Luta: Há uma insistência na presença física. O corpo é descrito como "estorvo", mas também como o lugar onde o mundo se torna maior.

2. Temas Recorrentes nos Poemas

• A Monotonia e o Caos: Por exemplo, no texto "ritmo de outono: número 28", o autor explora a tensão entre a repetição vazia da vida e os fragmentos de caos que se infiltram no cotidiano.

• O "Nunca Mais": A repetição da expressão "nunca mais" ecoa o corvo de Poe, mas aqui aplicada à perda da unicidade dos momentos e à voracidade da morte que devora a vida.

• A Existência como Resistência: Em um dos textos mais potentes, Carlos Moreira define o ato de viver como uma tarefa árdua: "estar só e continuar existindo".

• O Cotidiano Metafísico: Atividades banais como "escovar os dentes" ou "cortar as unhas" são colocadas ao lado de conceitos abissais. Viver é descrito como ser um "pequeno pedaço de tudo entre fatias de nada".

• A Violência e a Desconstrução (Lições para Estripar um Homem).A série de "lições" apresenta uma linguagem crua e violenta para falar da desumanização.

• A Morte da Palavra: A "quarta lição" foca no silenciamento: estripa-se a palavra para tirar do homem o que o torna humano.

• A Purificação pelo Sangue: A "sexta lição" evoca uma imagem ritualística onde uma vila inteira deve mergulhar no "vermelho" e caminhar em silêncio, sugerindo uma culpa ou perda coletiva.

3. O Contexto Político e Social 

Diferente de obras puramente abstratas, Seol se ancora no seu tempo. O prefácio menciona que os "rios de vida e linguagem" da obra buscam ser ouvidos em um contexto de "momento fascista do mundo e ditatorial do Brasil". 

O livro se propõe a ser uma "arma" e um instrumento de luta para aqueles que criam em meio ao horror. 𝐕𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐦𝐞𝐫𝐠𝐮𝐥𝐡𝐚𝐫 𝐧𝐚 𝐚𝐧á𝐥𝐢𝐬𝐞 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐝𝐞𝐭𝐚𝐥𝐡𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐞𝐬𝐬𝐚𝐬 𝐬𝐞𝐪𝐮ê𝐧𝐜𝐢𝐚𝐬, 𝐞𝐬𝐩𝐞𝐜𝐢𝐚𝐥𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐨 𝐢𝐦𝐩𝐚𝐜𝐭𝐨 𝐝𝐚𝐬 "𝐥𝐢çõ𝐞𝐬" 𝐞 𝐚 𝐟𝐢𝐥𝐨𝐬𝐨𝐟𝐢𝐚 𝐝𝐚 𝐞𝐱𝐢𝐬𝐭ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐩𝐫𝐞𝐬𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐧𝐨 𝐥𝐢𝐯𝐫𝐨:

1. Análise  "Lições para estripar um homem"

Essa sequência de poemas usa a metáfora da anatomia e da tortura para falar da desconstrução do ser. Carlos Moreira utiliza uma linguagem de impacto para descrever a perda da humanidade:

• Primeira lição- destruir o nome: poema mostra como a violência começa pelo discurso: destruir reputação, espalhar medo, fabricar narrativas.

• Segunda lição- medir com instrumentos de desprezo: uma crítica feroz à forma como sociedades julgam e descartam pessoas, transformando-as em “menos que humanas”

• Terceira lição- ninguém é destruído sozinho:  mostra que a violência simbólica é coletiva e sistêmica: ao destruir um indivíduo, destrói-se uma rede inteira de significados.

• A Palavra como Órgão Vital: Na "quarta lição", o autor sugere que a essência humana não reside na carne, mas na fala. Ao estripar a "palavra do homem", o sujeito perde seu valor, tornando-se algo que a pele aceita passivamente, como se a faca fosse "bem-vinda".

• O Calabouço do Esquecimento: A "quinta lição" trata do descarte absoluto. Os restos (carcaças de sonhos e pedaços de loucos) são lançados em um fosso para que nenhum "vivo reflexo de seus olhos" possa brotar novamente, indicando uma tentativa de apagar a memória e a individualidade.

• A Culpa Coletiva: A "sexta lição" expande o horror para a comunidade. A vila inteira deve manchar-se de vermelho e caminhar em silêncio rumo às suas próprias "covas", sugerindo que ninguém sai ileso da violência sistêmica.

• A Inutilidade do Mal: A "última lição" traz uma reviravolta poética: se o homem possuir uma "flauta de pedra" ou uma "lira afiada" (metáforas para a arte e a resistência espiritual), o ato de estripá-lo torna-se inútil. Ele se multiplica e atinge o "maior o outro lado", mostrando que a expressão criativa vence a morte física.

2. A Dialética do "Estar Só"

Nos textos das páginas 146 e 147, Moreira explora a sobrevivência interior:• Existência sem Espelho: O autor descreve o desafio de ser "vivo" sem a confirmação do olhar do outro ou o reflexo de um espelho. É uma existência crua, baseada apenas na memória do corpo e no "movimento fluxo" do pensamento.

• A Poética do Cotidiano: Viver é equilibrar-se entre o veneno e a liberdade, realizando atos banais (escovar dentes, cortar unhas) enquanto se atravessa o "território do impossível".

• O "Pedaço de Tudo": A conclusão desse trecho é poderosa: o indivíduo é definido como um "pequeno pedaço de tudo entre fatias de nada", alguém que continua fluindo mesmo sob a dúvida e os argumentos em contrário.3. O Confronto com a Ironia e o TempoNo poema sobre a "ironia dos deuses", percebe-se um tom de lamento e falha:

• O Alvo Perdido: O texto descreve uma batalha perdida há décadas, onde "não sabíamos armar as espingardas" e os disparos eram feitos no escuro.

• A Passagem Inexorável: A imagem das "lebres que passaram muito rápido" simboliza as oportunidades perdidas ou a própria vida que foge antes que se aprenda a lidar com ela. O resultado é apenas o silêncio temporário das corujas, sem uma vitória real.

Por outro lado , o poema das páginas 111 e 112, que se desenvolve em torno do refrão "chegaremos às estrelas amor", é uma das peças mais densas e paradoxais de Seol. Ele abandona a crueza física das "lições de estripar" para focar em uma jornada metafísica que mistura esperança, condenação e a falibilidade do caminho.

Numa análise detalhada dos principais eixos desse texto:

1. A Travessia pelo Avesso ("Portais do Inferno")

Diferente de uma jornada espiritual tradicional rumo à luz, a ascensão neste poema é feita através da descida e do erro.

• Caminhos que Enganam: O poema abre e fecha com a afirmação "todos os caminhos enganam". Isso estabelece que o destino (as estrelas) não é alcançado pela retidão, mas pelo extravio.

• Geografia do Abismo: A chegada às estrelas ocorre por "escadas invertidas", "ângulos oclusos" e "canais subterrâneos". É uma jornada reservada para quem "se perdeu o suficiente para saber que não há o que buscar".

2. O Corpo como Nave e Alimento

Moreira mantém a centralidade do corpo, tema recorrente em toda a obra, como o único meio de processar a realidade:

• O Gesto Final: A redenção ou o contato com o sagrado acontece no "cheiro no modo como um corpo devora outro corpo". É uma imagem de comunhão violenta e visceral.

• A Matéria Amputada: Chega-se ao destino "mesmo carregados de pedras mesmo amputados de sonhos". A bagagem da viagem não é a virtude, mas a própria cicatriz da existência.

3. O Paradoxo da Linguagem e do Canto

O final do poema (pág. 111-112) traz uma bela contradição sobre a expressão artística:

• "Eu não sei cantar você dizia e cantava": Esta linha sugere que a verdadeira arte em Seol surge da impossibilidade. O canto não vem da técnica, mas da necessidade de "juntar os lábios do abismo".

• A Dança sobre Fogueiras: A imagem de alguém que "chorava e dançava sobre as fogueiras para encantar o fogo" reforça a ideia de que a beleza no livro nasce diretamente do sofrimento e do horror.

4. A Terceira Margem e a Matéria Escura

A conclusão do poema (pág. 112) é marcadamente pessimista, mas criativa:• A Luz que já Morreu: O autor levanta a hipótese de que, ao chegarmos às estrelas, a origem da luz já tenha morrido, restando apenas a "matéria escura".

• A Fuga Criativa: Diante do vazio, a solução proposta é "cortaremos então a tela e fugiremos pela terceira margem que nascerá de nós". Isso indica que, quando todos os caminhos falham, o indivíduo deve criar sua própria dimensão de existência, uma saída que não existia antes do ato de resistência.

Síntese do Poema

Este texto funciona como um hino dos condenados. Ele propõe que o "amor" e as "estrelas" não são prêmios para os bons, mas destinos inevitáveis para aqueles que atravessaram o inferno pessoal e coletivo sem esconder o "monstro" ou disfarçar o "medo".Numa sequência de textos (páginas 116, 117 e 118) o escritor Moreira aprofunda a investigação do livro sobre a dissolução da identidade e a falência da percepção, utilizando uma linguagem que mistura o filosófico com o grotesco.

 Carlos Moreira foca aqui no conceito do "olhar bloqueado" e na inexistência de um "eu" sólido.1. A Fantasmagoria do "Eu"O autor começa questionando a própria presença no "agora". Para ele, o indivíduo é um fantasma que precisa de outro para existir, mas esse "outro" também é inexistente.

• Memória como Origami: A memória não é um registro fiel, mas "dobras malfeitas" no ser.

• A Falta de Âncora: Existe uma angústia por não haver um "olhar que além de mim me ancore". Sem o espelho do outro, o "eu" se estilhaça.

2. O Olhar Bloqueado e a Fragmentação da Realidade

A página 117 introduz a imagem central dessa parte: o olhar bloqueado. Esse olhar é incapaz de compor o mundo de forma íntegra, resultando em uma visão esquartejada.

• A Natureza Decepadada: O observador tenta ver árvores e cães, mas o olhar os "esquarteja enquanto dormem" ou os devolve "decepados ao vento".

• O Muro das Ilusões: O muro branco que surge é descrito como uma "triste ilusão de limites no espaço", comparando a existência a "atores ruins interpretando uma piada bêbada".

3. O Olhar como Pecado e Posse

Na página 118, a análise torna-se mais política e existencial. O autor define o ato de olhar não como contemplação, mas como posse ou submissão.• Pecado Original: O olhar é o "pecado original", o desejo que deveria ser "vigiado e punido".

• A Revolução Impossível: Diante do "muro branco de colunas verdes", Moreira afirma que "não há de acender a revolução", sugerindo uma paralisia causada pela incapacidade de ver o mundo como ele realmente é.

4. A Ironia Final: o "TROLL" da Existência

O texto termina com uma nota de sarcasmo metafísico. O autor reduz toda a complexidade da memória e do ser em si a uma "piada magistral criada por um troll de bigodes longos e olhos míopes". 

Essa imagem desmistifica qualquer pretensão de santidade ou propósito divino, substituindo o criador por uma figura caricata e cega.

Síntese da Linguagem

Neste trecho, a escrita de Moreira é particularmente estilhaçada:• Usa metáforas anatômicas ("cortar a língua em treze ou quatorze partes") para descrever a busca pelo autoconhecimento.

• Mistura o vocabulário cotidiano com termos abstratos para criar um efeito de estranhamento.Você percebe aqui como essa "falta de um eu" dialoga com o título "Seol" (o lugar do silêncio e das sombras. 

A relação entre a "língua cortada" e o silêncio do Seol é o ponto onde a obra de Carlos Moreira se torna mais radical. Em Seol, a linguagem não serve para comunicar, mas para registrar a impossibilidade de dizer.Nessa conexão:


1. A Língua como Mosaico de Estilhaços

Na página 116, o autor descreve o ato de "cortar a língua em treze ou quatorze partes para ver se assim em forma de mosaico ela guarde o que um dia foi espelho".

• A Falha da Unidade: A língua inteira falha em refletir a realidade. Apenas através da sua destruição (o corte) é que se pode tentar captar algum reflexo do que foi perdido.

• A "Mestra" Estrangeira: O autor menciona que fugiu das aulas de alemão porque a língua era uma "invasão alienígena", uma "aranha bárbara que tecia gólens com as palavras". Isso reforça a ideia de que a palavra estruturada é algo externo, artificial e monstruoso que não pertence ao "ser em si".

2. A Palavra Estripada e o Vazio do Seol

Essa automutilação da língua se conecta diretamente com a "quarta lição para estripar um homem".

• A Perda da Humanidade: "Estripa-se a palavra do homem... o que o torna homem". No contexto do livro, o Seol (a morada dos mortos) é o destino final de quem teve sua palavra retirada.

• O Silêncio que Canta: Na "última lição", o autor revela que, embora a palavra tenha sido cortada, o estripado ainda canta através de uma "flauta de pedra" ou "lira afiada". O silêncio do Seol não é ausência de som, mas uma vibração que "faz arrepiar a terra" e "rompe a corrente do tempo".


3. O Dilema da Comunicação no Horror

O prefácio de Alberto Lins Caldas destaca que Seol exige do leitor um "sentir-viver" porque as palavras comuns não dão conta do "horror de existir".

• Fronteiras Defendidas com Sangue: O poema termina sugerindo que as fronteiras e os mapas são inúteis. O que é "vivo" inunda o mundo com sua presença, mas essa presença ocorre em um lugar onde "não há ninguém aqui: nem o fantasma do eu nem a memória de mim".

• A Inutilidade do Conceito: O texto afirma que "teoria, a filosofia... não podem dizer o poema". A língua cortada é a prova de que o pensamento lógico (o conceito) não consegue conter o "desmundo" ou o "semmundo" que o livro apresenta.

Silêncio como Arma

A dificuldade de comunicação não é um defeito da obra, mas sua mensagem principal: em um "momento fascista" ou de "horror", a língua oficial deve ser cortada para que uma nova forma de expressão, vinda das entranhas e do silêncio abissal, possa nascer.O texto de Alberto Lins Caldas nas páginas iniciais confirma essa atmosfera: Seol é um livro que "𝐫𝐞𝐬𝐩𝐢𝐫𝐚, 𝐞𝐬𝐩𝐞𝐫𝐚, 𝐬𝐚𝐧𝐠𝐫𝐚, 𝐬𝐮𝐚, 𝐬𝐨𝐧𝐡𝐚". Ele não é para ser apenas lido, mas enfrentado como um"corpo em luta".

E, indo além ....

Existe um diálogo profundo e quase fantasmagórico entre a poética de Carlos Moreira e a tradição introspectiva e metafísica de Clarice Lispector, principalmente nesse livro: Seol 

Ambos compartilham o que poderíamos chamar de "escrita do limite". 

Aqui estão os pontos de convergência mais fortes que emergem dos textos:

1. A Náusea e o "Estorvo" de Existir - Em Seol, Moreira escreve sobre o "estorvo chamado corpo" e menciona explicitamente o "tédio a náusea".

• 𝐂𝐨𝐧𝐞𝐱ã𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐂𝐥𝐚𝐫𝐢𝐜𝐞:  Isso remete diretamente a obras como A Paixão Segundo G.H., onde o encontro com o real (a barata) provoca uma náusea que desintegra as certezas do "eu".

• O "Eu" como Coisa: Para ambos, o "eu" não é uma identidade pronta, mas uma "memória de outro corpo" ou um "pequeno pedaço de tudo entre fatias de nada".

2. A Falência da Palavra - A "língua cortada" em Moreira - ele descreve a necessidade de "cortar a língua em treze ou quatorze partes" para tentar ver o que o olhar bloqueado não alcança.

• 𝐂𝐨𝐧𝐞𝐱ã𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐂𝐥𝐚𝐫𝐢𝐜𝐞: Clarice dizia que escrever era "pescar o que não é palavra". Em Moreira, isso se manifesta na ideia de que a palavra estruturada é uma "invasão alienígena".

• O Silêncio: Ambos usam o silêncio não como falta de fala, mas como uma presença densa. No Seol, a palavra estripada dá lugar a uma "flauta de pedra" que faz a terra arrepiar.

3. A Despersonalização (O "Eu" Fantasmagórico)Moreira afirma categoricamente: "não há ninguém aqui: nem o fantasma do eu nem a memória de mim". Ele vê o indivíduo como alguém que precisa de um espelho (o outro) para se ancorar, mas esse espelho está sempre bloqueado.

• 𝐂𝐨𝐧𝐞𝐱ã𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐂𝐥𝐚𝐫𝐢𝐜𝐞: O processo de despersonalização de Clarice ("perder-se é encontrar-se") ecoa na busca de Moreira por um "sentir-viver" que seja mais radical do que o simples "verso". É uma entrega ao horror para descobrir o que resta depois que tudo o que é humano é retirado.4. O Sagrado no GrotescoMoreira fala de chegar às estrelas "pelos portais do inferno" e de um corpo que "devora outro corpo" para inaugurar um gesto luminoso.

• 𝐂𝐨𝐧𝐞𝐱ã𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐂𝐥𝐚𝐫𝐢𝐜𝐞: Essa mistura de sagrado com o visceral (sangue, entranhas, o "vermelho") é a marca de Clarice ao descrever a vida como uma "comunhão" com a matéria bruta do mundo.Enquanto Clarice muitas vezes busca uma "graça" ou uma revelação mística através da dor, Moreira em Seol parece mais ancorado em um pessimismo combativo.

 O prefácio nota que sua obra é uma "arma" para um "momento fascista". Ele é mais cru, mais "estripado" (como dizem suas lições), enquanto Clarice é mais sinuosa.

Ambos investigam o "eu" não como uma biografia, mas como uma ferida aberta.Podemos dizer que a  aproximação entre "Seol" e "Água Viva" é fascinante porque ambos os livros não são "histórias", mas sim fluxos de matéria viva que tentam capturar o "instante-já". Enquanto Clarice Lispector procura a "itidade" (a coisa em si), Carlos Moreira investiga o "ser em si" através de uma lente mais sombria e política.

Dessa relação profunda,temos:

1. A Escrita do "Não-Acontecimento"Em Água Viva, 

Clarice escreve: "Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que pode fazer sentido". Carlos Moreira opera na mesma frequência.

• O Movimento Fluxo: Moreira descreve a existência como um "movimento fluxo ação e pensamento" que continua entre o repouso e o passo.

• A Falta de Sentido: Assim como Clarice mergulha no "atrás do pensamento", Moreira aceita que "todos os caminhos enganam" e que a verdade está no extravio, não na lógica.

2. A Identidade Estilhaçada e o Espelho

O "eu" em ambos os livros é uma construção frágil que se dissolve diante do olhar.• O Olhar que Ancoraria: Moreira escreve que não há ninguém no "agora" porque falta um "olhar que além de mim me ancore".• O Reflexo Proibido: Em Água Viva, o espelho é o perigo da cristalização. Em Seol, o autor fala de uma "língua cortada... em forma de mosaico" que tenta guardar o que um dia foi espelho, mas agora é apenas um olhar bloqueado.

3. A Centralidade do Corpo e o Grotesco

Ambos os autores usam o corpo como o laboratório da alma.

• O Sentir-Viver: O prefácio de Seol destaca que "só o corpo pode fazer o poema se realizar se revolvendo no seu sentir-viver". Isso ecoa o esforço de Clarice para chegar ao estado animal e puramente biológico.

• A Náusea e a Larva: Moreira descreve o corpo como um "estorvo... com o sonho de uma larva dentro". Essa crueza lembra as meditações de Clarice sobre a matéria orgânica e o "vermelho" do sangue, que Moreira também evoca ao dizer que a vila deve "manchar o rio com o vermelho".

4. A Terceira Margem: Criar para Existir

A conclusão do poema de Moreira sobre as estrelas é o ponto máximo de encontro com a filosofia lispectoriana.

• A Fuga pela Tela: Moreira propõe: "cortaremos então a tela e fugiremos pela terceira margem que nascerá de nós".

• A Criação como Sobrevivência: Para Clarice em Água Viva, a liberdade é a criação instantânea. Para Moreira, essa criação é uma "arma" e um "instrumento" de luta contra o horror e o silêncio ditatorial.

Enquanto Água Viva é uma celebração solitária da existência, Seol é uma comunhão no abismo. Moreira leva o despojamento de Clarice para um território mais violento e coletivo, onde o "eu" não apenas se dissolve, mas é "estripado" para que algo mais autêntico possa cantar.𝐏𝐨𝐝𝐞𝐦𝐨𝐬 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐨𝐥𝐢𝐝𝐚𝐫 𝐒𝐞𝐨𝐥 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐮𝐦𝐚 𝐨𝐛𝐫𝐚 𝐝𝐞 𝐫𝐞𝐬𝐢𝐬𝐭ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐦𝐞𝐭𝐚𝐟í𝐬𝐢𝐜𝐚 𝐞 𝐩𝐨𝐥í𝐭𝐢𝐜𝐚, 𝐨𝐧𝐝𝐞 𝐚 𝐝𝐢𝐬𝐬𝐨𝐥𝐮çã𝐨 𝐝𝐨 "𝐞𝐮" 𝐧ã𝐨 é 𝐮𝐦𝐚 𝐝𝐞𝐫𝐫𝐨𝐭𝐚, 𝐦𝐚𝐬 𝐚 ú𝐧𝐢𝐜𝐚 𝐟𝐨𝐫𝐦𝐚 𝐝𝐞 𝐬𝐨𝐛𝐫𝐞𝐯𝐢𝐯ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐞𝐦 𝐭𝐞𝐦𝐩𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐡𝐨𝐫𝐫𝐨𝐫.

 O Canto que Nasce do Abismo 

Seol, de Carlos Moreira, não é um livro para ser lido com passividade; é uma obra que exige ser "tocada" e enfrentada como um "corpo em luta". Ao mergulhar na tradição da literatura do horror existencial — dialogando com nomes como Melville e Bernhard — Moreira entrega uma poética que se recusa a ser apenas "verso" para tornar-se uma "arma".A obra se destaca por três pilares fundamentais:

• A Desintegração do Eu: A identidade é tratada como um "fantasma" ou "memória de outro corpo", aproximando o autor da densidade de Água Viva de Clarice Lispector.

• O Sagrado no Visceral: Através de suas "lições para estripar um homem", o autor revela que a transcendência (a chegada às estrelas) só é possível através das cicatrizes e da "língua cortada".

• Resistência Política: Em um "momento fascista do mundo", o livro propõe que a criação no horror é a "grande luta" necessária para desvendar o que não podemos ver, mas apenas sentir.

Ao final, Moreira nos deixa com a imagem da "terceira margem": quando todos os caminhos enganam e a luz das estrelas parece ter morrido, resta-nos cortar a tela da realidade e inventar um novo espaço para existir. 

Seol é, portanto, um manifesto para os "condenados" que, apesar de tudo, não aceitam o silêncio e insistem em continuar fluindo, "mesmo na dúvida e apesar dos argumentos em contrário".𝐋𝐞𝐫 𝐂𝐚𝐫𝐥𝐨𝐬 𝐌𝐨𝐫𝐞𝐢𝐫𝐚 é 𝐟𝐚𝐬𝐜𝐢𝐧𝐚𝐧𝐭𝐞, 𝐚𝐥é𝐦 𝐝𝐞 𝐫𝐞𝐯𝐞𝐥𝐚𝐫 𝐜𝐚𝐦𝐚𝐝𝐚𝐬 𝐝𝐨 𝐡𝐮𝐦𝐚𝐧𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐚 𝐠𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐧𝐞𝐦 𝐬𝐞𝐦𝐩𝐫𝐞 𝐨𝐮𝐬𝐚 𝐞𝐧𝐜𝐚𝐫𝐚𝐫. 𝐑𝐞𝐜𝐨𝐦𝐞𝐧𝐝𝐨!

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