19 Jul
19Jul

Ser Tão


moço: o mundo começa onde nasce

cada um cada uma de nós: em cada

curva cada encruzilhada em cada berço

seja de ouro ou palha e não sabemos

se é termo a cova dessa caminhada

ou se seguimos luz na luz feito um cego

na noite iluminada: sabemos cada vez

mais que saber é nada se não houver

amor feito uma música que não fosse

tocada cantada encantada e que por

todo canto espalhada feito água 

espelhada feito peixe ninguém tocasse

ninguém ouvisse ninguém olhasse

 ninguém comesse e comendo recuperasse

a força de ser e fosse além de si o tudo

o todo atrás e dentro e além que houvesse:

 moço: ser é grave e basta a si mesmo: bebe 

tua água a mesma que te deu o peixe 

e depois no mais absoluto silêncio 

engole teu luto recomeça a luta e agradece
*


Que poema belo e profundo. "Ser Tão" brinca logo no título com a dualidade do "sertão" (o espaço geográfico, místico e metafísico brasileiro) e o ato de "ser tanto" ou "ser, tão...". 

É um poema  que carrega uma forte influência da dicção de Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas), tanto no vocativo inicial ("moço:") quanto na própria estrutura filosófica da caminhada humana.


1. O Ponto de Partida e o Destino (A Existência)

"moço: o mundo começa onde nasce / cada um cada uma de nós..."

O poema abre desmistificando a ideia de que o mundo é um lugar externo pronto. O mundo é uma experiência subjetiva; ele começa no nascimento de cada indivíduo, seja em um berço "de ouro ou palha". Carlos Moreira  nos coloca diante da nossa própria pequenez e grandiosidade: não sabemos o que vem depois ("se é termo a cova... ou se seguimos luz na luz"). 

A metáfora do "cego na noite iluminada" é belíssima - evoca a nossa cegueira espiritual ou existencial diante de mistérios que são luminosos demais para a nossa compreensão racional.

Abrimos um parênteses aqui, para explicar essa belíssima metáfora: 

Essa imagem criada por Carlos Moreira é uma das construções mais belas e filosóficas do poema. Para compreendê-la em profundidade, precisamos olhar para o paradoxo que ela carrega: um cego imerso em uma noite que, apesar de ser noite, está iluminada.Podemos dividir o significado dessa metáfora em três camadas principais:

1ª. A Insuficiência da Razão Humana

A luz, historicamente, é o símbolo do conhecimento, da razão e da verdade (como no Iluminismo). No entanto, o poema nos coloca na posição de um "cego". O que Carlos Moreira está nos dizendo é que o mistério da vida e da existência é grande demais para a nossa capacidade de compressão. Mesmo que o universo esteja repleto de respostas, mistérios e "luz", a nossa mente humana é limitada (cega). Estamos cercados por uma realidade monumental, mas não temos os "olhos" espirituais ou intelectuais necessários para enxergar a totalidade dela.

2ª. O Excesso que Cega (A Transcendência)

Existe um fenômeno físico e metafórico: o excesso de luz também cega. Se você olhar diretamente para o sol, você não enxerga nada. A "noite iluminada" representa o mistério divino, o sagrado ou o próprio fluxo da existência depois da morte ("se é termo a cova... ou se seguimos"). É uma realidade tão absurdamente vasta e brilhante que nos ultrapassa. Diante do absoluto, nossa única reação possível é a cegueira da humildade. Somos cegos não porque falta luz, mas porque há luz demais.

3ª. A Caminhada pela Fé e Intuição (O "Caminhar às Cegas")

Se estamos caminhando "feito um cego na noite iluminada", significa que não avançamos pela visão racional, mas sim pelo passo, pelo tato, pela confiança.Logo após esse verso, o poeta diz: "sabemos cada vez mais que saber é nada se não houver amor". Isso amarra perfeitamente a metáfora:

Já que somos cegos diante da grandiosidade iluminada do mundo e não podemos "decifrar" a vida pelo intelecto (saber), a única forma de caminhar sem tropeçar é tateando o mundo através do amor.

É uma metáfora sobre a nossa pequenez e, ao mesmo tempo, sobre a beleza de continuar caminhando, aceitando que o mistério não precisa ser totalmente compreendido para ser vivido.

Fechando a explicação dessa metáfora,seguimos com a análise do poema:

2. A Insuficiência do Intelecto e a Supremacia do Amor

"sabemos cada vez / mais que saber é nada se não houver / amor..."

Há uma virada gnosiológica aqui. O acúmulo de conhecimento ("saber") é esvaziado de sentido se estiver desacompanhado do amor. Mas o poema não fala de um amor romântico ou clichê; fala de um amor que é força vital, comparado a elementos da natureza:

Música não tocada, mas espalhada; Água espelhada; Peixe que alimenta.

É um amor que nutre o ser, permitindo que ele vá "além de si", integrando-se ao "tudo o todo atrás e dentro e além". É o amor como comunhão cósmica e existencial.

3. O Estoicismo Sertanejo (A Conclusão)

"moço: ser é grave e basta a si mesmo..."

O desfecho do poema retorna ao tom de conselho e sabedoria ancestral. A afirmação de que "ser é grave" carrega o peso da responsabilidade sobre a própria vida. Existir não é leve, exige presença.

O final é um eco ressonante de resiliência:

"Bebe tua água...": Aceita a tua realidade e o que a vida te deu."No mais absoluto silêncio / engole teu luto" 

O luto e a dor são inevitáveis na caminhada, e há momentos em que devem ser processados na intimidade do silêncio.

"Recomeça a luta e agradece"

 A tríade final da sobrevivência. A vida exige ação imediata após a dor (recomeçar a luta) acompanhada de uma postura de gratidão pelo próprio fato de existir.


O ritmo do poema é fluido, quase sem pontuação forte até os dois-pontos finais, simulando o fluxo de um rio ou a própria caminhada ininterrupta que ele descreve. As repetições (cada curva cada encruzilhada, ninguém tocasse ninguém ouvisse...) criam um mantra, um tom de pregação ou conselho de um velho sábio do sertão a um jovem viajante.

É uma belíssima meditação sobre a dignidade do existir, a aceitação do mistério e a urgência do amor e da resiliência.


O Tecedor de Abismos e Alvoradas: Carlos Moreira

Há homens que escrevem com tinta; Carlos Moreira escreve com a própria matéria de que são feitas as estradas, as feridas e os milagres. Ele, que já perscrutou as profundezas densas e escatológicas em Seol, sabendo que o silêncio dos mortos também clama, e que desnudou as fragilidades e as potências da carne em Corpo Aberto, deita agora os olhos sobre a imensidão do Ser Tão

Moreira não é um mero observador do mundo; ele é um cartógrafo da alma humana que usa o sertão não como paisagem, mas como espelho do infinito.A prosa de Carlos Moreira, mesmo quando se traveste de verso, caminha com o passo firme do retirante e a leveza do místico. Ele herda de Guimarães Rosa o compasso do "moço:", o chamado que suspende o tempo e exige escuta. Mas Moreira imprime sua própria marca na poeira do caminho: em sua literatura, o corpo é o primeiro território a ser desbravado, e o mistério é a única certeza que nos abraça. 

Em Seol, ele nos ensinou a olhar para o poço escuro da ausência; em Corpo Aberto, mostrou-nos a vulnerabilidade viva. Em Ser Tão, ele une o abismo e a carne numa síntese perfeita de transcendência. A escrita de Carlos é essa água espelhada que ele mesmo evoca: um reflexo que sacia a sede ao mesmo tempo em que revela a profundidade do céu que nos cobre e do chão que nos sustenta. 

Se o "saber é nada", o escritor compreende que a literatura também seria vazia se não fosse esse ato de amor indizível, essa música que reverbera no invisível, esse peixe sagrado que alimenta a fome de absoluto que há em cada um de nós.Ao fim da travessia literária que Carlos Moreira nos propõe, o que resta não é o desespero diante da gravidade do ser, mas uma lucidez mansa e corajosa. 

O autor de Seol e Corpo Aberto sabe que o luto deve ser engolido no recôndito da alma, mas sabe, acima de tudo, que a caneta é uma arma de ressurreição cotidiana. Nas mãos de Carlos, o sertão vira o mundo inteiro, e cada leitor converte-se em um cego iluminado que, finalmente, aprende a caminhar na noite, a recomeçar a luta e a agradecer pelo milagre de, simplesmente, ser.


SEOL
Carlos Moreira

CARDUME
Seol - resenha

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