14 May
14May

NENEVÉ, Miguel; SIEPAMANN, Rose. Você já ouviu a coruja piar? São Paulo: Editora Baraúna, 2010. 79 p.Edição bilíngue (português–inglês).

Capa:Fotografia de Andrei Luiz Nenevé

Ilustrações/Drawings: Kim Siepamann e  Anil Roberts

O Convite do Silêncio 

Há um Brasil que não grita; ele sussurra. É um país feito de águas que guardam segredos antigos e de poeira que se levanta sob o peso de passos cansados, mas resilientes. Entre as páginas de "Você já ouviu a coruja piar?", a literatura deixa de ser apenas palavra para se tornar escuta. Ouvir a coruja não é um exercício da orelha, mas um sobressalto da alma. É perceber que, por trás do ruído frenético das máquinas e do brilho opaco das vaidades humanas, existe uma chama que agoniza no fogão a lenha, um benzedor que lê o alfabeto do vento e uma menina cujas mãos desenham milagres no invisível. Miguel Nenevé e Rose Siepamann nos convidam a um mergulho em águas profundas, onde o par de óculos da alma precisa estar nítido para enxergar o Cuidador dos Rios. Aqui, o tempo não corre — ele flui, ele pia, ele espera.

Prepare-se para despir-se das certezas da razão e calçar as sandálias do mistério, pois a coruja acaba de anunciar: o sagrado e o cotidiano, enfim, sentaram-se à mesma mesa.

O LIVRO

O livro "Você já ouviu a coruja piar?", escrito a quatro mãos por Miguel Nenevé e Rose Siepamann, é uma coletânea de contos bilíngue (Português/Inglês) que funciona como um inventário de sensibilidades. A obra não se limita a narrar fatos; ela mapeia o deslocamento do sujeito brasileiro entre dois mundos: o Brasil profundo, místico e rural, e a modernidade urbana, impessoal e ruidosa. 

A coletânea se destaca pela coerência temática, apesar da diversidade de vozes. Os sete contos dialogam entre si, formando um arco que vai: 

  • da desigualdade social (Por um par de óculos),
  • à corrupção do poder (Sua Excelência, Senhor Felizbino Gomes),
  • à espiritualidade popular (Pedro Luz e A menina Milagreira),
  • à sabedoria ancestral da floresta (O Cuidador dos Rios),
  • à resistência feminina (Chama Agonizante),
  • e culmina na reflexão existencial urbana (Você já ouviu a coruja piar?).

A estrutura do livro é composta por narrativas que variam em tom e cenário: 

Os contos de NenevéPor um par de óculos, Sua Excelência, Senhor Felizbino Gomes, Pedro Luz, o homem que ouvia sussurros, A menina Milagreira e Você já ouviu a coruja piar? - revelam personagens que vivem entre o ordinário e o extraordinário, sempre marcados por tensões internas: a busca por reconhecimento, o peso do passado, a corrupção do poder, a fé popular e a solidão urbana. 

Por outro lado, os contos de Rose Siepamann  -O Cuidador dos Rios e Chama Agonizante - mergulham na sensibilidade feminina, na espiritualidade da floresta, na oralidade amazônica e na força silenciosa das mulheres e dos povos ribeirinhos.

O livro é enriquecido por ilustrações simbólicas que servem como portais visuais para as metáforas do texto, reforçando o caráter artístico e meditativo da edição. 

 A Escuta como Resistência 

A principal força de "Você já ouviu a coruja piar?" reside na sua capacidade de transformar o ato de ouvir em uma ferramenta política e filosófica. Em um mundo contemporâneo saturado de ruídos e imagens rápidas, os autores propõem uma "literatura de desaceleração". 

1. A Dualidade Campo-Cidade: A obra estabelece um diálogo tenso e rico entre o regional e o universal. Enquanto os contos rurais (como A menina Milagreira e Pedro Luz) celebram o saber intuitivo, as ervas e o "sussurro do vento", os contos urbanos expõem a alienação do homem moderno. Essa transição reflete a própria alma brasileira: um pé na tradição mística e outro na urgência do progresso técnico. 

2. O Realismo Poético e Social: Diferente de um realismo cru, os autores utilizam o Realismo Poético. A desigualdade social não é apenas descrita em números, mas na falta de um par de óculos; a corrupção política não é apenas um crime, mas uma forma de loucura e desumanização (Senhor Felizbino). Há uma dignidade conferida aos marginalizados , o pescador, o benzedor, a mulher do fogão à lenha, que raramente se vê na literatura comercial. 

3. Linguagem e Estilo: O estilo é marcado pela fluidez e pela presença da oralidade. Nota-se um esforço consciente em preservar termos regionais e neologismos que dão sabor à leitura. No entanto, o livro exige do leitor uma postura participativa. Não são contos de "ação", mas de "percepção". Quem busca tramas vertiginosas pode se sentir desafiado pelo ritmo contemplativo; contudo, é justamente nessa lentidão que a obra revela sua beleza. 

"Você já ouviu a coruja piar?" é uma obra necessária para quem busca entender as nuances da identidade brasileira para além dos estereótipos. Miguel Nenevé e Rose Siepamann conseguem a proeza de unir a crítica social ferina à ternura espiritual. O livro nos lembra que o "piar da coruja", seja ele o aviso da morte, o chamado da sabedoria ou o grito da consciência, só pode ser ouvido por quem se permite o silêncio. É, em última análise, um manifesto em favor da sensibilidade e da preservação das nossas raízes mais profundas.

ANÁLISE COMPARATIVA DOS 7 CONTOS DO LIVRO

“Você já ouviu a coruja piar?” (Miguel Nenevé & Rose Siepamann)

 Os sete contos formam um conjunto literário coeso, apesar de suas diferenças de cenário, narrador e estilo. A seguir,  uma comparação temática, simbólica e estilística entre eles.

 I - IDENTIDADE E TRANSFORMAÇÃO 

Presente em: 

  • Por um par de óculos
  • Sua Excelência, Senhor Felizbino Gomes
  • Pedro Luz, o homem que ouvia sussurros
  • A menina Milagreira
  • Você já ouviu a coruja piar?

 Comparação 

  1. Ivo (no primeiro conto) busca ascensão social e reconhecimento; sua identidade se constrói pela educação e pela mudança de perspectiva — simbolizada pelos óculos.
  2. Felizbino Gomes, ao contrário, transforma-se negativamente: o poder o corrompe e o afasta de sua humanidade.
  3. Pedro Luz transforma-se pela escuta e pela espiritualidade, tornando-se benzedor e sábio.
  4. Generosa, a menina milagreira, vive uma transformação interna marcada pela vergonha e pela incompreensão social.
  5. O engenheiro da Avenida Paulista vive uma transformação existencial silenciosa, marcada pela introspecção e pela solidão urbana.

Os contos mostram que toda identidade é um processo, mas esse processo pode levar à elevação, à queda, ao silêncio ou ao milagre


II - DESIGUALDADE SOCIAL E PODER 

Presente em: 

  • Por um par de óculos
  • Sua Excelência, Senhor Felizbino Gomes
  • Chama Agonizante

 Comparação 

  1. Em Por um par de óculos, a desigualdade aparece como barreira para o crescimento de Ivo.
  2. Em Felizbino Gomes, o poder político é criticado como instrumento de alienação e vaidade.
  3. Em Chama Agonizante, a desigualdade é silenciosa: Tereza vive a dureza da vida rural, marcada por trabalho exaustivo e invisibilidade feminina.

 Os contos revelam que a desigualdade se manifesta de formas diferentes - na infância, na política e no cotidiano doméstico - mas sempre produz sofrimento e resistência. 

 III - ESPIRITUALIDADE, MISTICISMO E SABEDORIA POPULAR

Presente em: 

  • Pedro Luz, o homem que ouvia sussurros
  • A menina Milagreira
  • O Cuidador dos Rios

 Comparação 

  • Pedro Luz representa a sabedoria intuitiva, aprendida com o vento e com a natureza.
  • Generosa encarna o milagre espontâneo, que desafia a ciência e a religião institucional.
  • O cuidador dos rios simboliza a sabedoria ancestral da floresta, ligada ao mito e ao respeito ecológico.

Os três contos mostram que a verdadeira sabedoria não vem do poder ou da ciência, mas da escuta, da natureza e da fé popular.

IV - NATUREZA COMO PERSONAGEM 

Presente em: 

  • O Cuidador dos Rios
  • Pedro Luz
  • Chama Agonizante

 Comparação 

  1. Em O Cuidador dos Rios, a floresta é viva, mítica e sagrada.
  2. Em Pedro Luz, o vento e os pinheiros são mensageiros espirituais.
  3. Em Chama Agonizante, a natureza aparece domesticada — o fogo do fogão — mas ainda assim simbólica e poderosa.

A natureza é ora grandiosa e mítica, ora cotidiana e íntima, mas sempre fonte de sentido e transformação.

 V - TEMPO, MEMÓRIA E CICLO DA VIDA 

Presente em: 

  • Por um par de óculos
  • Chama Agonizante
  • Você já ouviu a coruja piar?

 Comparação 

  1. Ivo revisita o passado para entender sua trajetória.
  2. Tereza revive sua vida enquanto observa a chama agonizante.
  3. O engenheiro reflete sobre o tempo e o sentido da existência diante da solidão urbana.

O tempo é visto como força que molda, desgasta e revela — seja na infância, na velhice ou na vida adulta.

 VI - SILÊNCIO, ESCUTA E INTERIORIZAÇÃO 

Presente em: 

  • Pedro Luz
  • A menina Milagreira
  • Você já ouviu a coruja piar?

 Comparação 

  1. Pedro Luz escuta o que ninguém escuta - os sussurros da natureza.
  2. Generosa guarda silêncio sobre seus milagres, por vergonha e medo.
  3. O engenheiro busca ouvir o “piar da coruja”, metáfora da escuta interior.

 A escuta é apresentada como caminho para a sabedoria, para o milagre e para o autoconhecimento. 

VII - A FORÇA DAS MULHERES 

Presente em: 

  • A menina Milagreira
  • Chama Agonizante

 Comparação 

  1. Generosa representa a espiritualidade feminina, pura e incompreendida.
  2. Tereza representa a resistência feminina, silenciosa e cotidiana.

As mulheres dos contos são fontes de vida, fé e resistência, mesmo quando o mundo tenta silenciá-las.

 CONCLUSÃO COMPARATIVA GERAL

Os sete contos formam um conjunto que dialoga profundamente entre si. Eles constroem uma visão ampla da experiência humana: 

  • o menino que quer ver melhor,
  • o político que perde a visão moral,
  • a mulher cuja chama resiste,
  • o jovem que busca o saber da floresta,
  • o benzedor que escuta o invisível,
  • a menina que cura,
  • o homem urbano que procura sentido.

 A obra inteira é um convite à escuta — escutar o passado, a natureza, o silêncio, o outro e a si mesmo. Assim, o livro responde à pergunta do título: ouvir a coruja piar é ouvir o que está escondido - dentro e fora de nós.

O Eco do Piar 

Ao fechar este livro, o silêncio que resta não é vazio; é preenchido pelo eco de tudo o que aprendemos a ouvir. Percebemos que as fronteiras entre a Vila dos Confins e a Avenida Paulista são menores do que a distância entre o homem e sua própria essência.

 A jornada proposta por Nenevé e Siepamann termina onde começa a nossa: no desafio de manter a chama acesa enquanto a noite avança. 

Fica em nós o olhar de Ivo, que aprendeu a ver; o cansaço sagrado de Tereza, que sustenta o mundo no calor do fogão; e o mistério de Sinciliano, que agora sabe que as águas têm dono e alma. 

A coruja, enfim, não piou para anunciar o fim, mas para despertar o vigia que habita em cada um de nós. Que esta leitura seja mais do que memória. 

Que seja um par de óculos novo para enxergar a beleza no ínfimo e o milagre no cotidiano, pois, no final das contas, a literatura só cumpre seu destino quando nos faz perceber que, mesmo no asfalto mais frio, ainda somos feitos de barro, de rio e de um sopro de eternidade. 

A coruja piou. E agora, você finalmente ouve?

Miguel Nenevé

Nenevé

Rose Siepamann

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