A Imensidão Suspensa no Cuniã - Flávio Dutka

Há um azul que não cabe apenas no olhar; precisa derramar-se. Em O céu de Rondônia inteiro no Lago chamado Cuniã, Flávio Dutka desacelera o tempo para capturar a vastidão amazônica em um gesto de intimidade. Na tela de apenas 20x30 cm, a imensidão do Norte não se mede por escala, mas pela profundidade do silêncio que sua cor evoca.

O azul denso e absoluto, suporte e mistério, atua como espelho e atmosfera. Não se distingue onde termina o reflexo das águas profundas do Cuniã e onde começa o firmamento rondoniense. Entre a fluidez da tinta acrílica e a precisão gráfica do marcador, o artista traça ramos e ramificações que cruzam a composição como veias de luz e memória. 

Os pontilhados de amarelo, verde e branco não são meros detalhes da flora; são pulsações de vida, constelações vegetais emergindo do abismo azul.Dutka transforma a contemplação da natureza em um ato lírico. Ele nos convida a erguer a cabeça, ou a olhar para o fundo do lago, e encontrar no encontro do traço firme com o tom vívido uma poética do pertencimento. O céu inteiro cabe aqui, retido na delicadeza de um instante que recusa desaparecer.

OS ELEMENTOS

DUTKA,Flávio.O céu de Rondônia inteiroNo Lago chamado Cuniã,Tinta acrílica e marcador sobre tela,20x30 cm, 2026


A composição de Flávio Dutka constrói uma narrativa poética e espiritual por meio de um vocabulário visual mínimo, porém denso de significados.Os principais elementos gráficos e suas cargas simbólicas:  

A) O céu azul

Unificação do cosmos e da água: O fundo azul vibrante e homogêneo anula a linha do horizonte. Ele simboliza ao mesmo tempo o céu aberto de Rondônia e a superfície do Lago Cuniã. O azul funciona como matriz da vida, um espaço sagrado e infinito onde terra, água e ar se tornam uma coisa só.

Transcendência e calmaria: A ausência de nuvens ou gradientes acentua o caráter contemplativo da obra, evocando um estado de imobilidade e presença absoluta.

B) Os Galhos Superiores (A Estrutura e o Passado)

Ancoragem e travessia: Os galhos secos, delineados com precisão pelo marcador no topo da tela, funcionam como uma moldura natural. Eles simbolizam a memória e a passagem do tempo , cortando o azul como marcas do passado que observam o presente.

Geometria orgânica: Suas linhas firmes trazem equilíbrio estrutural à composição, ancorando o olhar do espectador no topo antes de deixá-lo mergulhar na imensidão.

C) As Ramificações e Florações (A Vida em Germinação)

Constelações terrestres: As pequenas pinceladas pontilhadas em tons de amarelo, verde e branco lembram pequenos pontos de luz. Elas representam a resiliência e a fertilidade da flora amazônica, transformando a vegetação em verdadeiras "estrelas" que brotam do azul.

O ciclo da renovação: Em contraste com a estrutura rígida dos galhos do topo, os tufos de folhas e flores no canto inferior esquerdo e direito representam o nascimento, a pulsação constante da natureza rondoniense que se recusa a ser estática.

D) A Dualidade Técnico-Material (Acrílica x Marcador)

Matéria e Traço: A fluidez expansiva da tinta acrílica representa a natureza indomável e vasta  (o elemento aquoso e atmosférico), enquanto o marcador traz a intervenção consciente do artista , o desejo humano de mapear, desenhar e dar contorno à beleza ao seu redor.


A obra de Flávio Dutka geralmente conversa diretamente com diversas correntes e nomes da arte contemporânea, tanto no cenário brasileiro quanto no internacional, operando no cruzamento entre a arte ingênua/naïf reconfigurada, a paisagem figurativa contemporânea e a ilustração gráfica.

1. O Neo-Naïf e a Poética do Cotidiano (Ana Elisa Egreja e Djanira)

  • Diálogo Visual: Dutka resgata a simplificação das formas e o uso de cores puras, características marcantes da arte naïf (como a de Djanira, pintora,desenhista,ilustradora e cenógrafa brasileira em suas fases sobre território), mas com um acabamento técnico rigoroso e conceitual.

  • Aproximação Contemporânea: Lembra a produção de Ana Elisa Egreja, que reorganiza elementos da natureza e de interiores brasileiros com contornos marcados e uma vibração de cor quase gráfica, elevando o cotidiano e a flora local a um status de contemplação poética.

2. A Paisagem Sintética e o Abstracionismo Figurativo (David Hockney e Beatriz Milhazes)

  • Hockney e a Cor Vibrante: A utilização do azul saturado e contínuo para representar o céu/água sem gradientes tradicionais se alinha às paisagens e estudos de luz de David Hockney . Há uma preferência pela síntese e pelo impacto cromático direto sobre a perspectiva clássica.
  • Milhazes e a Sobreposição Gráfica: O uso pontilhado das florações e a precisão do marcador dialogam com o rigor ornamental de Beatriz Milhazes, onde a natureza brasileira é traduzida em padrões, grafismos e ritmos gráficos.

3. Arte Ambiental, Território e Amazônia Contemporânea (Jaider Esbell e Tiago Sant'Ana)

  • Identidade e Território: A escolha de retratar o Lago Cuniã em Rondônia insere Dutka na forte onda da arte contemporânea latino-americana voltada à territorialidade e ecologia. Assim como o saudoso artista Jaider Esbell , Dutka transforma a paisagem amazônica não em um registro documental exótico, mas em uma experiência afetiva, espiritual e viva.

4. O Hibridismo entre Belas Artes e Ilustração Gráfica

  • Técnica Mista: O uso combinado de tinta acrílica e marcador sobre tela aproxima Dutka de artistas contemporâneos que transitam entre a street art, o design e a pintura de cavalete (como Os Gemeos e Speto). O marcador traz o traço rápido e urbano da ilustração, enquanto a acrílica garante o volume e a densidade do espaço pictórico.

Podemos ainda ressaltar nessa obra de Dutka a Composição e o Espaço Negativo, uma vez que há uma  Inversão da Hierarquia Visual,  uma vez que a maior parte do quadro é dominada pelo azul denso, funcionando como um grande espaço negativo. Em vez de preencher a tela com múltiplos elementos, Dutka usa o "vazio" cromático para criar sensação de ar, escala e imensidão. Por outro lado, a  composição é resolvida nas extremidades. A diagonal dos galhos no topo corta o olhar do espectador, enquanto os blocos vegetais nos cantos inferiores sustentam a tela, criando uma moldura invisível que direciona o olhar para o centro azul.

Além disso há uma  Luz do Norte sem Sol Visível, pois embora não haja um disco solar pintado, a iluminação é difusa e intensa. Os toques de amarelo e branco puro nos pontilhados simulam a luz do meio-dia rebatendo na vegetação amazônica, capturando o calor úmido típico da região do Cuniã. Ademais a  escolha de cores saturadas aliada a traços sintéticos gera uma atmosfera de quietude quase meditativa, evocando a sensação de estar sozinho em uma embarcação no meio do lago.

A obra em si revela a maturidade poética de Flávio Dutka ao transformar a imensidão da Amazônia em um gesto delicado de síntese visual. Ao entrelaçar a leveza da acrílica com a precisão do marcador, o artista não apenas retrata uma paisagem, mas constrói uma experiência afetiva de pertencimento, onde a água do lago e o infinito do céu se fundem em um só plano.

Trata-se de um convite à desaceleração e ao silêncio. Em um formato de apenas 20 x 30, Dutka prova que a grandiosidade de um território não exige telas monumentais, mas sim um olhar atento capaz de guardar a luz, a vida e a imensidão do Norte no espaço de uma memória.