
DUTKA,Flávio. Tinta acrílica sobre tela, 50x70, 2026.
Há um segredo antigo guardado na epiderme do amarelo. Não um amarelo qualquer, mas aquele encorpado pelo tempo, temperado pelo sol e marcado pelo traço miúdo das memórias que recusam o esquecimento.
Nesta tela de Flavio Dutka, a natureza não se limita a ser contemplada: ela devora e se deixa devorar. O olhar caminha como um viajante por um gabinete de curiosidades vertiginoso. De um lado, a pimenta - esse rubi da terra - sangra o seu ardor na ponta dos sentidos. Do outro, a borboleta repousa a sua geometria viva, carregando nas asas o enigma dos números e a promessa da metamorfose. São os símbolos de uma brasilidade viva, orgânica, fervilhante.
Mas Dutka não desenha apenas a flora e a fauna; ele desenha a própria engrenagem da percepção. O corte anatômico da garganta exposta desvenda o mistério interior: ali onde o sabor encontra o nervo, a sensação vira verbo. A boca, órgão do consumo e da fala, torna-se o canal por onde a pimenta queima e a poesia ganha voz.
Flutuando sobre a cena, o fantasma de Da Vinci sussurra em caligrafias espelhadas. Linhas técnicas, escritas invertidas e arabescos de um diário secreto nos lembram que a ciência e a arte nasceram do mesmo espanto diante do mundo. Entre o rigor do mapa e a paixão da cor, a obra opera como uma máquina sinestésica: aqui, o texto se lê com os olhos, mas se degusta com a alma. A pintura de Dutka é esse encontro visceral entre o saber e o sentir - um tratado poético onde a linguagem tem gosto de pimenta, e a vida, o peso denso e luminoso da memória.
Além disso, há aspectos técnicos, conceituais e mercadológicos brilhantes que tornam essa peça de Flavio Dutka uma escolha estratégica e impactante para a exposição "O Cacau Cor de Rosa" em que está inserida.
1. O Conceito de Palimpsesto e a Camada Temporal
Essa tela funciona como um palimpsesto visual (um pergaminho antigo onde vários textos foram escritos e apagados por cima uns dos outros):
Camadas Visuais: O fundo não é plano; ele simula a ação do tempo através das bordas queimadas em tom bistre/sépia, lembrando papel envelhecido ou um pergaminho de expedição do século XIX.
Padronagem Histórica: No canto inferior direito, a textura geométrica em tom de ferrugem remete a ladrilhos hidráulicos, azulejaria portuguesa ou rendas tradicionais. Dutka usa isso para "ancorar" o trabalho em uma memória afetiva e arquitetônica brasileira.
2. A Tensão Entre a Razão (Apolo) e o Instinto (Dionísio)
Na crítica de arte, costuma-se analisar a oposição entre o rigor técnico e a paixão sensorial:
O Eixo Apolíneo (A Razão): Representado pela grade branca (linhas de proporção geométrica da Renascença), pela ilustração anatômica fria do sistema digestivo/nervoso e pela escrita técnica espelhada.
O Eixo Dionisíaco (A Sensação/Instinto): Representado pela cor amarela pulsante, o ardor carnal da pimenta vermelha, a liquidez orgânica e o conceito de paladar.
A grande maestria de Dutka nesta tela está em fazer esses dois mundos colidirem: o cérebro que analisa (ciência) e a boca que queima (sensação).
3. A Dimensão Sinestésica no Espaço Expositivo
Em termos de expografia (como a obra conversa com o espaço do SESC e com o visitante):
Provocação dos Sentidos: A maioria das obras de arte apela primariamente para a visão. Dutka consegue ativar a memória gustativa e tátil. Quem olha para essa tela "sente" o calor do sol, o ardido do tempero na língua e a textura da pele do inseto.
Físico do Público: O uso da escrita espelhada força o visitante da galeria a mudar de postura: a pessoa se aproxima, inclina a cabeça, tenta decifrar a caligrafia com o reflexo do celular ou com o olhar. Isso transforma a observação contemplativa em uma experiência interativa.
4. O Valor de Mercado e Lugar na Arte Brasileira
Dentro do circuito de galerias e colecionismo:
A "Tropicanálise" Contemporânea: O trabalho de Flavio Dutka se insere muito bem em uma vertente forte da arte brasileira contemporânea que revisita a fauna, a flora e os mitos locais, mas sem cair no "folclore ingênuo". Ele usa a erudição europeia (Da Vinci, iluminuras) para consagrar elementos genuinamente nossos (pimenta, borboleta 88, flores tropicais).
A riqueza de Execução (Labor: o fazer artístico): Para colecionadores e instituições , obras com esse nível de virtuosismo no desenho, sobreposição de técnicas (mixed media) e riqueza de detalhes mantêm um valor estético altíssimo, pois exigem um apuro técnico raro que chama a atenção tanto do público leigo quanto da crítica especializada.
OS DETALHES

DUTKA,Flávio. Tinta acrílica sobre tela, 50x70, 2026.
É uma obra fascinante do artista plástico brasileiro Flavio Dutka, conhecida por misturar elementos botânicos, ilustração científica, caligrafia e símbolos regionais/históricos em uma estética de mixed media ou colagem pictórica que lembra um antigo tratado científico ou diário de bordo. Aqui, uma análise detalhada dos elementos visuais, conceituais e estilísticos da tela:
1. Elementos Figurativos e Iconografia - A composição reúne variados elementos figurativos sobre um fundo amarelo vibrante e textura envelhecida:
2. Paleta de Cores e Texturas
3. Conceito e Linguagem Artística
É uma peça riquíssima em detalhes, que equilibra a precisão do desenho científico com a liberdade da expressão poética e abstrata. Uma celebração da natureza, da anatomia dos sentidos e da memória escrita. Essa obra de Flavio Dutka estabelece pontes diretas com grandes momentos da história da arte mundial e movimentos da arte contemporânea. O seu estilo mixed media de "diário anatômico e botânico" dialoga fortemente com diferentes nomes e correntes:
1. Leonardo da Vinci e o Renascimento (Renascimento Científico) A conexão mais direta e evidente nesta tela é com Leonardo da Vinci:
2. Iluminismo e Ilustração Botânica (Sécs. XVIII e XIX) A precisão na representação da borboleta (Diaethria), do besouro e das pimentas evoca a arte dos grandes ilustradores científicos e naturalistas:
3. Jean-Michel Basquiat e a Street Art Contemporânea Na arte contemporânea, a forma como Dutka organiza os elementos conversa com Jean-Michel Basquiat:
4. O Gabinete de Curiosidades e Arte Conceitual Contemporânea A estrutura da tela lembra o conceito dos Gabinete de Curiosidades (Wunderkammer) dos séculos XVI e XVII — salas onde colecionadores reuniam espécimes da natureza, artefatos científicos e ilustrações:
Na Galeria de Arte Rita Queiroz (SESC), esta tela de Flavio Dutka não é apenas uma representação da natureza ou do corpo, mas um convite à presença. Em um mundo saturado por imagens digitais rápidas e superficiais, a obra nos obriga a desacelerar.
Ela exige o olhar atento que decifra a caligrafia espelhada, a sensibilidade que reconhece o sabor da pimenta e a curiosidade intelectual que conecta a anatomia renascentista à identidade tropical.
Dutka entrega mais do que uma pintura: entrega um diário vivo da experiência humana. É uma obra que honra o espaço de formação e difusão cultural do SESC, pois não entrega respostas prontas - em vez disso, instiga perguntas, desperta os sentidos e nos lembra de que a arte, em sua essência mais pura, é o ponto exato onde a razão encontra o afeto.
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