A Linha Silenciada: De Pollock à série Sudário de Dutka

Olhar para a série SUDÁRIO, de Flávio Dutka, é adentrar um território onde a pintura não apenas se deposita sobre o suporte, mas o impregna de vestígios, silêncios e assombrações. O termo "sudário" carrega o peso do que resta: o pano que envolveu a ausência, a relíquia que guarda a impressão digital da carne, a memória física da dor e da transcendência. Dutka não pinta a imagem; ele permite que a imagem aconteça por meio do contato, do escorrimento e do depósito do tempo sobre superfícies que parecem peles expostas ao mundo.

O Diálogo Cósmico com Pollock: Da Ação ao Vestígio 

Se Jackson Pollock fez da tela o tablado de uma dança coreografada pelo inconsciente, onde o dripping (o gotejamento) e a action painting celebravam a pura presença do gesto e a energia vital do corpo em movimento, Flávio Dutka, nesta série, opera uma sutil e profunda transmutação dessa herança. Em Pollock, a tinta voa e se liberta da gravidade para registrar o instante absoluto da ação. Em SUDÁRIO, o gesto de Dutka assimila essa liberdade, mas adiciona a ela uma dimensão arqueológica. A tinta escorre, mancha e se acumula não apenas como um grito de energia pura, mas como a busca por uma impressão sagrada e profana. É um Pollock que silenciou o ruído do estúdio para ouvir o eco de uma catedral em ruínas; o gotejar aqui se torna rastro de uma presença que já partiu. 


1. A Face Oculta da Matéria:

 

DUTKA,Flávio.Da série Sudário, tinta a óleo e nanquim s/tela, 
120x 150, 2009 - Acervo particular

Aqui, o tecido vertical evoca a clássica imagem do sudário sagrado. Linhas pretas, densas, escorrem do topo como lágrimas de fuligem ou filamentos de uma mente em suspensão. No centro, uma névoa ocre e rosada amortece o impacto do carvão e do cinza. Há estruturas que lembram costelas, grades, ou os dentes de um tear invisível na parte inferior. O ritmo pollockiano está na imprevisibilidade das linhas finas que riscam o tecido em busca de uma forma que insiste em se camuflar na própria trama do pano. 

2.A Noite Humana e a Fenda de Luz:


DUTKA,Flávio.Da série Sudário, tinta a óleo e nanquim s/tela, 
120x 150, 2009 - Acervo particular

O negrume domina a porção superior, como uma tempestade noturna que engole a paisagem. No entanto, o tecido respira através de pulsações verticais de rosa e vermelho carmim, ladeadas por uma inesperada e fria faixa azul-turquesa na lateral. É uma obra de contrastes tectônicos. As texturas quadriculadas, que parecem carimbos da própria textura têxtil exacerbada, dialogam com respingos livres. Há uma arqueologia da dor e do desejo vibrando sob a noite escura da alma. 

3.A Anatomia do Invisível:


DUTKA,Flávio.Da série Sudário, tinta a óleo e nanquim s/tela, 
120x 150, 2009 - Acervo particular

Uma espinha dorsal de luz e sombra parece estruturar esta peça. Linhas circulares e concêntricas no topo sugerem redemoinhos, turbilhões ou auréolas mecânicas. O rosa pálido e o cinza atmosférico criam uma profundidade gasosa, de onde emergem gotejamentos negros verticais na base — puros e viscerais, remetendo diretamente ao automatismo psíquico do expressionismo abstrato. O corpo não está lá, mas o desenho de sua energia espinal permanece gravado. 

4. A Visceralidade do Sangue e do Giz:


DUTKA,Flávio.Da série Sudário, tinta a óleo e nanquim s/tela, 
120x 150, 2009 - Acervo particular

Aqui a paleta se incendeia em vermelhos profundos, quase arteriais, e marrons que remetem à terra úmida. Sobrepostos a essa massa dramática, grafismos em giz ou tinta branca e azul clara desenham órbitas, setas e geometrias anatômicas. É o labirinto do corpo por dentro. Onde Pollock via o caos cósmico, Dutka parece enxergar o caos biológico e espiritual. O emaranhado de linhas brancas flutua sobre a densidade sangrenta como o sopro de vida sobre a matéria bruta. 

5.O Despertar da Carne Violeta:

DUTKA,Flávio.Da série Sudário, tinta a óleo e nanquim s/tela, 
120x 150, 2009 - Acervo particular

Essa composição mergulha em uma atmosfera predominantemente rosada e violácea. Uma dobra vertical divide o plano, acentuando o caráter de lençol, de mortalha, de vestimenta. No quadrante superior esquerdo, formas geométricas escuras dão peso à obra, enquanto linhas cinzentas irradiam em diagonal como raios de uma luz negra. Um toque solitário e magnético de verde-esmeralda surge no canto inferior, como um broto de vida que teima em nascer do tecido desgastado pela experiência. 

Flávio Dutka, na série SUDÁRIO, recolhe o respingo rebelde de Pollock e o deita na cama da memória. Suas telas não gritam apenas a urgência do momento presente; elas sussurram a beleza trágica e sublime daquilo que resiste ao esquecimento. Cada mancha é um corpo que passou; cada linha, o caminho que a alma fez para tentar escapar do tecido. Logo, Há uma respiração ancestral que vibra sob as camadas de tinta, um murmúrio que se infiltra entre o gesto e o acaso. 

Na série SUDÁRIO, Flavio Dutka convoca o corpo da pintura como território de revelação e ocultamento. O tecido, impregnado de cor e memória, torna-se pele e testemunho. O dripping, o gotejamento que escorre como sangue ritual, é o pulso que marca o tempo da ação. Cada gota é um instante suspenso entre o controle e o abandono, entre o gesto consciente e o delírio da matéria. Dutka, como um médium da superfície, deixa que o acaso conduza o traço: uma coreografia de pigmentos que se expandem, se chocam, se dissolvem. 

Há ecos da action painting de Pollock, mas aqui o gesto não é apenas explosão: é lamento, é vestígio. O artista não pinta sobre o tecido, ele o atravessa. O sudário, símbolo de presença e ausência, carrega o registro do corpo que não está mais ali, mas cuja energia ainda reverbera. As cores - vermelhos, azuis, negros, ocres - se misturam como fluidos vitais, como impressões de um rito pictórico. 

O espaço pictórico é um campo de batalha e de meditação, onde o gesto se torna oração. Cada marca é uma cicatriz, cada mancha um sopro. SUDÁRIO é pintura que respira, que se move entre o espiritual e o visceral. É o testemunho da pintura como corpo vivo: um corpo que sangra, que se dissolve, que insiste em existir.


Conclusão

Flavio Dutka, na série Sudário , usa a linguagem revolucionária de Jackson Pollock – a pintura de ação, o campo total, o uso de materiais livres, a abstração como expressão de energias – mas faz uma releitura profunda e pessoal: transforma a técnica em um instrumento para falar de memória, presença e rastro.O que em Pollock é expressão de energia e movimento universal, em Dutka se torna um registro sensível do que o corpo e a vida deixam para trás. 

O “campo total” de Pollock se transforma aqui em uma espécie de “memória tecida”, onde cada linha, mancha e camada é um vestígio – exatamente o que um sudário representa. É uma série que dialoga com a história da arte, mas que cria uma identidade própria, ligada a questões profundas sobre o ser, o tempo e a lembrança.