
DUTKA,Flávio. Releitura Três Graças, 2006.
Na vastidão da memória ocidental, as Três Graças sempre habitaram um altar de mármore inacessível. Rafael, Canova e Botticelli esculpiram-nas e pintaram-nas em tríades simétricas, intocáveis em sua perfeição divina, flutuando em uma harmonia geométrica que afastava a beleza da poeira do mundo real. Eram divindades da alegria, do belo e da harmonia pura, retidas em poses cerimoniais.Mas o traço de Flávio Dutka, visível nessa obra, comete uma heresia afetuosa. Ele retira o mito do Olimpo e o joga no calor da carne.
Nesta releitura contemporânea, as três figuras cegas à dor humana desaparecem. Em seu lugar, restam apenas dois corpos. Mas a terceira presença não foi roubada; ela se faz carne e mistério no espaço exíguo do enlaçamento, na vertigem do próprio abraço. As três graças de Dutka não são seres isolados, mas camadas sobrepostas de afeto, cumplicidade e entrega total.
O artista funde as anatomias: cabeças e ombros oscilam entre a definição e o desvanecimento, transformando o humano em uma geografia aberta, uma rede de relações onde as fronteiras individuais simplesmente desabam.Não há aqui a nudez estéril do academicismo. Os corpos têm volume, têm a rugosidade sagrada da vida, a tensão e o relaxamento de quem confia no peito que acolhe.
É o nu transformado em território vivo.Mais do que isso, Dutka realiza o seu ato mais singular: ele inscreve palavras manuscritas diretamente sobre a epiderme desenhada e nas margens do papel. A caligrafia flui pelas costas e costelas como cicatrizes de ternura. O corpo deixa de ser apenas matéria e torna-se suporte de memórias, um diário aberto onde o verbo se faz pele. São palavras-feito-afeto que testemunham que ninguém caminha só, que carregamos em nós a história de quem amamos.
A linguagem visual de Flávio Dutka é uma busca tátil pela verdade emocional. Através de linhas soltas, hachuras livres e traços que se cruzam e se sobrepõem exaustivamente, o artista não busca o contorno rígido que aprisiona a forma, mas o movimento interno que a liberta. Nanquin, marcador Posca ou pastel seco aglomeram-se na folha, criando sombras densas e texturas quase palpáveis.A inserção de toques sutis de uma cor avermelhada e terrosa tinge o desenho com o calor do sangue e da terra. Não é uma cor decorativa; é o rubor da intimidade, o calor da pele que pulsa e vibra ao toque do outro. O desenho deixa de ser estático e passa a respirar diante do observador.

DUTKA,Flávio. Releitura Três Graças, 2006.
O desenho de Dutka estabelece um coro potente com grandes marcos da história da arte, estendendo pontes que ampliam o seu significado:
Auguste Rodin e o Calor da Carne: Assim como o mestre francês que rompeu as amarras da pose acadêmica em obras como O Beijo, Dutka usa o traço para acumular massa, peso e emoção. Ambos compreendem que o enlace de dois seres é uma força motriz capaz de dissolver os limites físicos da matéria. Os corpos de Dutka parecem buscar aquela mesma vibração orgânica, aquele mesmo instante de entrega esculpido por Rodin.
Egon Schiele e a Linha da Vulnerabilidade: O grafismo expressivo, nervoso e direto de Schiele reverbera na liberdade das hachuras de Dutka. No entanto, enquanto o gênio austríaco despia seus modelos para expor a angústia crua, a solidão e a fratura da condição humana, Dutka subverte essa mesma crueza técnica e a direciona para a ternura, para o amparo e para a solidariedade dos corpos que se encontram.
Pablo Picasso e a Subversão do Clássico: Picasso dedicou grande parte de sua vida a fustigar e reinventar os mitos do passado, inclusive as próprias Três Graças. Dutka partilha desse mesmo ímpeto antropofágico: ele não imita o patrimônio clássico; ele o deforma e o reconstrói para extrair o que há de essencial no mundo contemporâneo. A "graça" já não pode ser apenas uma casca estética; ela precisa ser um ato de partilha.
Alberto Giacometti e a Busca pela Presença: As linhas obsessivas e repetidas de Giacometti, que pareciam tatear o espaço no papel em busca da alma do retratado, encontram eco no emaranhado expressivo de Dutka. O desenho assume-se como um processo contínuo de aparição, onde a forma nunca está totalmente fechada, mas sempre se fazendo na presença do outro.
Embora dialogue com a história universal, o trabalho de Flávio Dutka finca suas raízes na sensibilidade brasileira. A escrita grafada na carne confere à peça uma identidade lírica inédita, transformando a universalidade do mito grego em um manifesto visceral sobre o afeto, a memória e a nossa indestrutível necessidade de conexão.