
Imagem: criada por IA
Às margens do Rio Madeira, onde as águas correm lentas e carregam histórias de séculos, existe um lugar onde a memória da Amazônia se faz festa, cor e som: o distrito de Nazaré, em Porto Velho, Rondônia. É aqui, há mais de 60 anos, que nasce e se renova o Festival Folclórico de Nazaré, joia viva do Baixo Madeira, reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado, um tesouro não guardado em vitrines, mas cantado, dançado e vivido por cada pessoa que nele participa.
Tudo começou com o sonho e a dedicação de um homem: o professor Manoel Maciel Nunes. Para ele, educação e cultura eram laços inseparáveis, raízes que sustentam a identidade de um povo. Foi ele quem idealizou as primeiras manifestações, unindo teatro, música, circo e dança, chamando jovens e adultos para construir, juntos, um espaço onde o saber da floresta e do rio fosse honrado. Sua obra transformou Nazaré em um polo cultural de referência, e quando ele partiu, a missão de guardar essa herança passou para as mãos de quem levava seu nome e seu amor pela terra: seus filhos Timaia, Tânia,Taiguara, Teimar e Túlio.
Eles fundaram e fortaleceram o Grupo Minhas Raízes, guardião fiel das melodias, dos passos e das histórias que definem o modo de vida ribeirinho, um nome que hoje ressoa em todo o estado como sinônimo de preservação e orgulho. Todos os anos, no mês de julho, quando o calor da Amazônia se mistura com a alegria coletiva, o distrito se enche de vida.
Cada passo, cada giro, cada batida no tambor carrega um pedaço da vida do Baixo Madeira. A Dança do Seringandô é a expressão mais autêntica desse vínculo: nascida nas rotinas dos trabalhadores da seringa, seus movimentos imitam o balanço das árvores, o caminhar nas trilhas da floresta e o ritmo das águas que levam a produção até os centros. É uma dança que fala de trabalho, de resistência e de harmonia com o ambiente.
A Quadrilha Tradicional chega com toda a cor e alegria das festas juninas, adaptada ao jeito amazônico: os pares vestem roupas de chita, as cantigas misturam versos conhecidos com referências ao rio e à floresta, e a brincadeira reúne gerações, como se cada passo fosse um abraço na tradição nordestina que aqui encontrou nova casa.
Já o Carimbó, trazido do Pará, ganha em Nazaré uma identidade própria: mais leve, mais próximo do balanço das canoas, com melodias que se espalham pelo ar como o vento que percorre os igarapés.
E o Boi Curumim, com sua figura imponente e sua história de vida e renascimento, encanta a todos: crianças que correm ao redor, adultos que lembram de suas próprias infâncias, todos envolvidos numa narrativa que mistura fantasia, fé e amor à terra.
Depois da partida do professor Maciel, foram seus filhos que assumiram a missão de manter acesa a chama da cultura. Criaram o Grupo Minhas Raízes, que hoje é muito mais que um conjunto artístico: é uma escola, um centro de memória, um coração que pulsa pela preservação. Seus integrantes são moradores da própria comunidade, de todas as idades, que aprendem desde cedo as canções antigas, os passos das danças e as histórias que os antepassados contavam.
Eles não apenas apresentam no festival: realizam oficinas, ensinam crianças, registram histórias orais e levam a cultura de Nazaré para outras cidades e estados. Cada apresentação é um ato de amor: ao cantar, ao dançar, eles dizem ao mundo: “nós existimos, nós temos história, nós temos raízes”. É graças a esse trabalho que o que começou como um sonho de um professor se tornou um patrimônio de todo um povo.
Não há festa em Nazaré que não seja também uma festa do paladar. A comida aqui não é apenas alimento: é memória, é partilha, é forma de contar quem se é. Tudo é preparado pelas mãos das mulheres da comunidade, que usam ingredientes que o rio e a floresta oferecem generosamente.Há o peixe fresco, assado na brasa ou cozido com ervas nativas, temperado com o saber de quem sabe reconhecer o melhor sabor em cada espécie. Há o tacacá, o pirão, as frutas como o açaí, o cupuaçu e o bacuri, que chegam à mesa em sucos, doces e sobremesas. Há também bolos e farinhas feitos de mandioca, base da alimentação ribeirinha há séculos.
Sentar-se à mesa no festival é entrar em contato com o modo de vida local: todos comem juntos, compartilham pratos, trocam histórias, e cada sabor revela um pouco da relação íntima que esse povo tem com a natureza. É uma culinária simples, mas rica em significado, que faz do ato de comer um momento de cultura e convívio.
O Festival de Nazaré não se limita às apresentações e às barracas: ele abre as portas para conhecer uma das paisagens mais belas da Amazônia. O turismo ecológico é parte essencial da experiência, e é feito de forma comunitária, com guias que são os próprios moradores, que conhecem cada canto, cada árvore, cada peixe do rio.
Os passeios de barco levam os visitantes por águas calmas, até lagos e igarapés como o famoso Lago Peixe-boi, onde é possível ver de perto a fauna e a flora preservadas, respirar o ar puro da floresta e entender por que o rio é considerado o coração dessa região. As caminhadas por trilhas levam a comunidades vizinhas, a sítios históricos e a locais onde se vê de perto o trabalho com a terra e com os recursos naturais.Mais do que passeios, essas vivências ensinam: mostram como o povo do Baixo Madeira vive em equilíbrio com o ambiente, como usa os recursos sem destruir, como preserva para as gerações futuras.
É um turismo que não apenas encanta os olhos, mas também toca o coração e ensina valores de respeito e cuidado.
O que torna o Festival de Nazaré verdadeiramente único é o jeito como ele é feito: pela comunidade, para a comunidade e para todos que queiram chegar. Não há distância entre quem apresenta e quem assiste: todos fazem parte da mesma roda.
Os visitantes são recebidos como parentes: são convidados para entrar nas casas, para conversar nas calçadas, para ajudar no preparo dos alimentos, para aprender um passo de dança ou uma canção antiga. As crianças brincam juntas, os velhos contam histórias, os jovens trocam ideias, e o tempo parece passar mais devagar, como se o próprio ritmo do rio ditasse o andamento da festa.
É uma experiência de vida: quem vem não apenas assiste a um espetáculo, mas vive um pedaço da cultura amazônica, leva consigo amigos, lembranças e um entendimento mais profundo do que significa pertencer a um lugar.
Todos os anos, no mês de julho, quando o clima é ameno e as águas estão em nível ideal, Nazaré se prepara para receber seus convidados, vindos de Rondônia, de outros Estados e até de fora do país.
O festival é gratuito e aberto ao público, mantido com o apoio da comunidade e de instituições culturais que reconhecem seu valor inestimável. Para quem quer viver essa experiência completa, existem pacotes organizados pela própria comunidade: incluem transporte de barco, hospedagem em casas de famílias locais, alimentação típica e todos os passeios e atividades.
É uma forma segura e respeitosa de participar, garantindo que todo o recurso investido volte diretamente para as pessoas que mantêm a tradição viva.
Mais do que uma festa, o Festival de Nazaré é um ato de resistência e amor. Ele mantém vivos os saberes, os costumes e a identidade dos povos ribeirinhos, mostrando que a cultura não é algo que se guarda, mas algo que se faz, se compartilha e se passa adiante. Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Rondônia, ele é prova de que, quando uma comunidade se une em torno de suas raízes, cria algo que ultrapassa o tempo , algo que, como as águas do Rio Madeira, segue correndo, forte e belo, para sempre.
E, enquanto houver quem cante, quem dance e quem conte essas histórias, Nazaré continuará sendo a voz e a alma do Baixo Madeira