Imagem: Conexão Rondôniaovivo
Na Porto Velho que pulsa entre a imponência dos rios e o mistério da mata, o artista plástico Flavio Dutka abriu sua trajetória em uma entrevista marcante ao Conexão Rondônia ao Vivo. Carregando no sobrenome as raízes da Ucrânia, um sopro do Leste Europeu que encontrou morada e criou raízes profundas no solo nortista , Dutka compartilhou reflexões sobre criação, ancestralidade e o papel vital do fomento cultural na região.
A conversa teve como pano de fundo a atuação do SESC e da Fecomércio, instituições fundamentais para a democratização do acesso às artes e para a criação de vitrines destinadas aos artistas locais. Falou-se, sobretudo, da necessidade de ampliar os espaços de circulação e difusão da produção artística.
É nesse ecossistema de encontros que ganha vida a Mostra Coletiva Cacau Cor de Rosa. Sob a curadoria de Margot Paiva, a exposição reúne a força expressiva das esculturas de Homero Rodrigues, as narrativas visuais de Bruno Souza e as composições marcantes do próprio Dutka, transformando a galeria em território de encontro entre diferentes linguagens da arte rondoniense.
Ao falar de sua produção, Dutka estabelece um divisor de águas conceitual: sua criação não é uma arte para a Amazônia, mas uma arte da Amazônia. A diferença está na origem do olhar. Sua obra nasce do ventre da floresta, de uma pesquisa rigorosa sobre a fauna, a flora, a anatomia dos seres que habitam o bioma e, sobretudo, sobre aquilo que a floresta guarda e silenciosamente ensina.
Sua metodologia também encontra eco na antropofagia do Movimento Modernista de 1922: absorver a bagagem universal da História da Arte, atravessar os mestres do passado, digeri-los e transformá-los em outra coisa - algo que, depois de assimilado, possa revelar uma identidade genuinamente brasileira. Para Dutka, é preciso tempo para que a obra amadureça. O estudo do clássico não aprisiona; ao contrário, oferece o alicerce para que a brasilidade possa emergir com maturidade, riqueza e visceralidade.
Nessa investigação visual, o artista aproxima universos aparentemente distantes. A entomologia, com seu estudo minucioso dos insetos, encontra o simbolismo denso e arquetípico das cartas de Tarô. Entre a precisão científica e o mistério, constrói-se uma ponte. E dessa ponte nasce uma provocação ao olhar do espectador: inverter a lógica habitual, abandonar por um instante o macro e mergulhar no micro.
Para Dutka, o mundo não se revela necessariamente naquilo que se impõe pela grandeza, mas naquilo que quase desaparece. É preciso desacelerar. É preciso olhar novamente. É preciso permitir que a sensibilidade ocupe o lugar da pressa.O invisível, o pequeno detalhe anatomicamente desenhado, o inseto que atravessa despercebido o chão da mata - tudo isso é deslocado para o centro do palco. Aquilo que parecia insignificante ganha escala de universo. A grandeza pode estar justamente na delicadeza de uma minúcia. Para enxergá-la, contudo, não basta a visão física: é necessário colocar também o coração naquilo que se contempla.
Sobre o processo criativo e o desapego da matéria, Dutka revela uma visão quase sagrada da pintura. O artista é dono da obra apenas durante o transe da criação. Depois, quando a peça recebe a assinatura e o último traço é dado, o cordão umbilical se rompe. A obra deixa de pertencer ao criador. Ganha autonomia, ganha asas e passa a existir no mundo, entregue aos olhos e às interpretações de quem a encontra.
Dutka ainda diz não saber exatamente onde quer chegar - e não se preocupa em saber. Sabe apenas que está no caminho certo. Um caminho sem fim, aberto, infinito como a própria floresta. Segue, assim, confiante, contando com o apoio da Magma Produções, responsável pelo acompanhamento de seus projetos, enquanto prepara um novo livro em parceria com o poeta Binho, em produção com Marfiza França.
Há anos, seu olhar e seu trabalho se enraízam nas terras do Baixo Madeira, lugar que ele nos ensina a perceber por outra perspectiva. Ali, para Dutka, não existe pobreza, mas carência — sobretudo de serviços públicos. Faltam professores. Há chamadas, mas poucos conseguem permanecer, porque faltam estrutura, condições e, muitas vezes, pessoas dispostas a vestir a camisa e fazer a diferença.E, ainda assim, em meio às ausências, a arte brota forte. Dutka fala com orgulho de Nazaré, onde um grupo local desenvolveu um trabalho audiovisual que celebra a beleza e a cultura da terra. Fala dos músicos, compositores e pintores que espalham talento pela região. Fala também de Cuniã, onde, ao lado de seus alunos, semeia conhecimento e cria beleza.
Diz ainda, não conseguir se imaginar longe do Baixo Madeira. Há ali uma espécie de pertencimento que ultrapassa a geografia. Uma responsabilidade de fazer - e fazer bem feito. Talvez por isso a lembrança de sua madrinha artística, Rita Queiróz, adquira um significado tão especial. Foi ela quem lhe proporcionou a primeira exposição e, de certo modo, acendeu uma chama que continua se propagando.Dessa memória nasce uma das mensagens mais preciosas deixadas pelo artista: essa corrente do bem precisa crescer.Em um mundo que tantas vezes insiste no individualismo, dividir torna-se um gesto de resistência. Compartilhar conhecimento, abrir caminhos, criar oportunidades, estender a mão.
A arte, afinal, não pertence apenas a quem a faz. Depois de criada, ela se oferece ao mundo. E quanto mais se reparte, mais ela cresce.Em meio a uma produção incessante, movida pelo desejo contínuo de alcançar a “obra definitiva” - talvez já realizada, talvez ainda escondida no próximo gesto, no próximo traço, no próximo pincel -, Flavio Dutka nos entrega uma lição sobre o tempo.Ensina-nos a desacelerar.Ensina-nos que olhar é mais do que enxergar.
E que talvez a Amazônia não precise ser contemplada apenas em sua grandiosidade, mas reaprendida na escala do quase invisível: no inseto que atravessa o chão da mata, na anatomia de uma pequena criatura, na folha, na água, na matéria que insiste em revelar seus segredos.Porque é justamente na pequenez de um detalhe esquecido que, às vezes, repousa a grandeza de todo o universo.
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