13 Jun
13Jun

A Dialética da Obra de Maria Valéria Rezende e Marilia Kubota

Por entre as frestas do silêncio, o sopro primordial. 

Escrever sobre A Voz dos Ares (Lavra Editora, 2023) exige mais do que o bisturi frio da crítica literária tradicional; evoca a necessidade de uma escrita que respire o mesmo oxigênio sutil dos versos que analisa. Esta obra, fruto do encontro luminoso entre Maria Valéria Rezende - premiada romancista e poeta - e Marilia Kubota - escritora e pesquisadora da cultura japonesa -, desenha-se como uma partitura a quatro mãos, onde a autoria individual dilui-se na névoa fina do diálogo poético.

 Não estamos diante de uma mera coletânea de poemas justapostos, mas sim de uma renga moderna - a tradicional forma japonesa de poesia encadeada, onde cada estrofe recolhe o hálito da anterior para gerar um novo movimento, estendendo o fio invisível da criação coletiva.A poesia aqui desce de seu pedestal de isolamento e faz-se fresta, jogo e comunhão. Duas mulheres, dois horizontes de vivências distintas, unidas pelo mesmo vento que dobra os bambus e agita os canaviais do Brasil profundo.

A Arquitetura Visual e o Espaço do Sagrado

O livro físico, em si, impõe-se como um objeto de meditação. Sob o cuidadoso projeto gráfico de Débora Barbieri, as páginas ganham um respiro cirúrgico: o layout e a escolha tipográfica parecem simular a própria vastidão dos céus. Nada é saturado; o vazio trabalha tanto quanto o preenchido. É nesse espaço aberto que as ilustrações em sumiê de Lúcia Hiratsuka ganham contornos de manifestação espiritual. As pinceladas de tinta preta não tentam traduzir ou ilustrar didaticamente o texto, mas expandem suas ressonâncias, atuando como o eco visual de um sino que acabou de tocar ao longe.

Exegese Fenomenológica dos Haicais 

Ao debruçarmo-nos sobre os poema  da obra, percebemos a precisão com que as autoras capturam o efêmero e o transmutam em permanência através da métrica condensada do haicai.

 O Silêncio e a Dissolução da Presença

num leve sussurro/a voz dos ares calou-se– /por onde andará?


 hálito branco:/cai a voz dos ares/entre almofadas

 No primeiro poema, há uma interrogação metafísica diante do desaparecimento abrupto do intangível (“por onde andará?”). O vento (os "ares") assume uma identidade animista, uma entidade que fala através do sussurro e cujo silenciamento gera uma vacuidade imediata na paisagem. 

A resposta que se aninha na página espelhada opera uma belíssima transposição imagética: o “hálito branco”, metáfora clássica do frio e da condensação da vida que se esvai, traz a voz dos ares para a dimensão doméstica, reconfortante e silenciosa das “almofadas”

Há um contraste tocante entre a imensidão cósmica do céu e o recolhimento íntimo do lar, sugerindo que o que se perde no mundo exterior refugia-se na interioridade do sujeito.

 A Estética do Oculto e o Sagrado Cotidiano

florzinha sem nome – /uma beleza tímida/debaixo do capim   

um malmequer /aos pés do buda:/boas vindas                 

 Aqui manifesta-se com vigor a essência do wabi-sabi : a valorização da beleza imperfeita, humilde e transitória. A “florzinha sem nome”, oculta pela rusticidade do capim, representa a epifania da simplicidade que não clama por atenção, mas que preenche o universo com sua existência discreta.

 No contra-canto da página ao lado, essa mesma simplicidade vegetal encontra o absoluto: o “malmequer” - flor comum, destituída de pompa nobre - é depositado “aos pés do buda”. O gesto minimalista de oferenda transforma o insignificante em um ato de “boas vindas” cósmicas. O sagrado não reside no templo suntuoso, mas no encontro da flor despretensiosa com a iluminação silenciosa da pedra.

A Fragilidade Resiliente e a Velhice Espelhada

como é leve e bela /a rósea flor de cana:/escapou do facão!                                                                       
crisântemos ao vento – /o velho penteia/a cabeça branca

 Estas páginas trabalham a dualidade entre a sobrevivência e a inexorabilidade do tempo. A “rósea flor de cana” que “escapou do facão” introduz uma nota de tensão quase dramática na doçura da paisagem: a beleza que subsiste à violência do corte, o milagre da permanência no ambiente agrícola e histórico brasileiro. 

Ao lado, a imagem desloca-se para a correspondência macro-microcosmos: os “crisântemos ao vento” - flor que na tradição oriental carrega fortes conotações de outono, transição e finitude -espelham o ancião que “penteia a cabeça branca”. Os fios de cabelo prateados movem-se na mesma cadência das pétalas fustigadas pelo vento; a velhice humana e o ciclo da natureza fundem-se num gesto de aceitação serena da própria impermanência.

A Dialética dos Espaços e a Poética do Descarte

no meio dos pastos,/na colina, a capelinha /só para as vacas!                                                                        
no meio do lixo,/no carrinho, a guirlanda /só para o papelão!

Um dos momentos mais agudos, irônicos e compassivos do diálogo poético. Ambas as composições operam através de um paralelismo estrutural rigoroso. O primeiro poema traz uma imagem do idílio rural brasileiro, onde o sagrado institucionalizado (a capelinha) perde sua exclusividade humana para ser habitado pela presença pacífica do rebanho (“só para as vacas!”). 

O poema gêmeo faz uma transposição urbana e social brutal, mas imensamente lírica: no cenário da degradação moderna (“no meio do lixo”), o carrinho do catador de recicláveis é coroado por uma “guirlanda”, conferindo uma dignidade inesperada e quase litúrgica ao material rejeitado (“só para o papelão!”). 

O haicai cumpre assim seu papel mais nobre: reconfigurar o olhar sobre as margens da realidade.

 A Generosidade Ancestral da Flora

generoso catolé:/sua palha é agasalho,/seu fruto, alimento


Senhor bananeira/folhas, flores e frutos/para muitas gerações

Esta parelha celebra a interdependência e a gratidão para com o reino vegetal, fundindo o vocabulário botânico regional nordestino (o catolé, palmeira nativa muito presente no imaginário de Maria Valéria) com a universalidade da bananeira. Ambas as plantas são tratadas com uma reverência quase antropomórfica (“senhor bananeira”). 

Elas não são vistas como meros recursos econômicos exploráveis, mas como provedoras compassivas de “agasalho”, “alimento” e sustentação “para muitas gerações”. A linguagem despoja-se de artifícios para pronunciar um canto simples de graças à terra que se doa.

O Sol Peregrino e o Humor Sutil do Verão

  vem voltando o sol – /será que ele vem cansado/do passeio ao Japão?                                                                               

verão fora de época/  três moscas patinam/no copo de guaraná

Encerrando essa mostragem de poemas, o tom lúdico e a leveza cotidiana (o conceito de karumi no haicai tradicional) emergem de forma brilhante. O Sol é imaginado como um viajante transcontinental que cruza o globo para "passear" na terra ancestral do haicai (o Japão) e retorna ao Brasil fadigado da jornada. 

Essa costura poética une geograficamente as duas matrizes culturais das autoras. O encadeamento seguinte ancora-se no mais puro cotidiano brasileiro: um “verão fora de época” onde “três moscas patinam no copo de guaraná”. A escolha do verbo patinam insere uma comicidade delicada e quase cinematográfica na cena ordinária; o guaraná fixa a brasilidade imediata de um instante que, embora prosaico, eterniza-se pela captura lírica da percepção.

 O Tecido Coletivo do Sopro

A tessitura de A Voz dos Ares prova que a poesia não precisa se erguer a partir do isolamento soberbo do ego. No entrelaçamento das dicções de Maria Valéria Rezende e Marilia Kubota, o haicai reencontra sua matriz comunitária ancestral sem perder o sotaque das terras tropicais. É uma obra que exige desaceleração, um antídoto à vertigem dos tempos hiperconectados. 

Ao lermos e relermos estas páginas, somos convidados a sentarmo-nos também à mesa desse diálogo e a perceber os fios invisíveis de beleza que flutuam, silenciosos, por onde quer que andem os ares. Uma joia rara da edição independente e da poesia brasileira contemporânea.

Ficha Técnica da Obra
  • Título: A Voz dos Ares
  • Autoras: Maria Valéria Rezende & Marilia Kubota
  • Editora / Ano: Lavra Editora / 2023
  • Gênero: Poesia (Haicais / Renga) | Extensão: 64 páginas
  • Ilustrações e Sumiê: Lúcia Hiratsuka
  • Projeto Gráfico e Layout: Débora Barbieri
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