Na manhã desta sexta-feira, 31 de julho de 2026, às 10h, Bado concedeu uma memorável entrevista ao vivo no programa Frequência Criativa, transmitido pelo portal News Rondônia. Em um diálogo denso e emocionante, o mestre navegou por suas memórias e reflexões sobre a cena cultural:
Em Porto Velho, onde o Sol se deita banhado pelas águas turvas do Rio Madeira e o horizonte sussurra mistérios ancestrais, nasceu em 1964 um menino registrado como Erivaldo de Melo Trindade.
Mas a Amazônia, em sua sabedoria fluvial e silêncios férteis, batizou-o simplesmente de Bado. Na transição para os anos 1980, quando a juventude buscava vozes e os palcos do teatro rondoniense pediam eco, Bado dedilhou suas primeiras cordas para sonorizar os dramas e sonhos da cena local.Não era apenas música; era a gestação de uma identidade.
Bado ergueu a voz no movimento Grito de Cantadores, um levante lírico que deu contorno, alma e orgulho à canção autoral porto-velhense. Dali nasceram as primeiras sementes fonográficas gravadas nos discos coletivos Porto das Esperanças (1992) e Amazônia em Canto (1995), pavimentando um caminho em que o ribeirinho e o urbano se abraçam sob o mesmo acorde.
"A música de Bado não flui apenas como melodia; é curso d’água que carrega o barro, as sementes, as lendas e as memórias da floresta para desaguar nos oceanos do mundo."
Mais do que um trovador das águas, Bado compreendeu que a arte precisa de raízes profundas no saber. Buscou na Universidade Federal de Rondônia (UNIR) a Licenciatura em História (2008), colhendo as chaves para decifrar o tempo e a memória de seu povo. Em 2012, diplomou-se em Música pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e, mais tarde, especializou-se em Educação Musical pelo Instituto Federal do Amazonas (IFAM).
Homem de saberes múltiplos, fez-se mestre. Como professor de música no Centro Municipal de Artes Jorge Andrade, em Porto Velho, Bado não apenas ensina notas e pautas; ele molda a sensibilidade de novas gerações, reafirmando que a educação musical é o verdadeiro farol para a formação de novos artistas e para a salvaguarda do patrimônio imaterial do Norte.
Em mais de quatro décadas de dedicação ininterrupta, sua produção desabrochou em frutos monumentais:
Seu talento extrapolou as fronteiras amazônicas. Bado ecoou seu canto em palcos consagrados do país: na histórica Sala Cecília Meireles (RJ), no Projeto Rumos Itaú Cultural (integrando a Cartografia Musical Brasileira), no Cantorias Amazônicas (CCBB), no Projeto Pixinguinha (Funarte, 2005), na Mostra Itinerante de Artes Integradas do Festcine Amazônia (2010) e no SESC Amazônia das Artes (2014),entre outros.
Em 2021, a consagração definitiva veio com a conquista do emblemático Prêmio Grão de Música (PGM), pela poética e retumbante canção "Mundos". Criado e dirigido pela cantora e compositora paraibana Socorro Lira em 2014, o PGM é um farol que ilumina a verdadeira diversidade da música brasileira, premiando o conjunto da obra de artistas que tecem a cultura longe dos holofotes estritamente comerciais.Ao receber a cobiçada estatueta de bronze - concebida pelo lendário artista visual Elifas Andreato(in memoriam), mestre responsável pelas capas imortais de Chico Buarque, Paulinho da Viola e Clara Nunes -, Bado viu sua trajetória de embaixador cultural rondoniense gravada na história da arte nacional.
Durante a marcante entrevista concedida ao programa Frequência Criativa no portal News Rondônia, Bado teceu reflexões contundentes sobre os rumos e urgências da cena autoral. Com a autoridade de quem atravessou as metatransformações do suporte musical - do lendário disco de vinil ao CD, do Songbook impresso à moderníssima tecnologia phygital do projeto Olhos de Rios —, o mestre rondoniense enfatizou que a criação artística no estado necessita de mecanismos estruturados e permanentes de difusão, lacuna que Rondônia ainda precisa superar em comparação a outros estados do Norte.
Reconhecendo o papel divisor de águas de mecanismos federais como as leis Aldi Blanc e Paulo Gustavo no fomento às produções independentes, Bado foi categórico: "O artista não quer paternalismo; quer possibilidades de difusão das suas obras para consolidar memórias, inclusive para a própria história do Estado."
Projetando o futuro sem desatrelar-se de suas raízes, o compositor anunciou ainda iniciativas que expandem a ponte entre a floresta e o Brasil: o Projeto Estações -Diálogos Musicais, em parceria com o artista tocantinense Lucimar Pereira, que trará um videoclipe em conexão com criadores de diversas regiões; a aguardada retomada do projeto Tom da Palavra, reunindo música e a literatura de poetas locais; e a travessia atlântica do show "Entre Rio e Mar", agendado para o dia 14 de agosto de 2026, às 20h, no Café da Usina, em João Pessoa (PB), estreitando os laços culturais entre a Amazônia e o Nordeste.
Sem jamais interromper sua missão pedagógica no Centro Municipal de Artes Jorge Andrade e nas pesquisas em educação musical, Bado encerrou com um manifesto em prol do patrimônio vivo da terra:
"A música da Amazônia precisa estar viva. A gente precisa manter a Amazônia de pé. Vamos cuidar do nosso quintal, dos nossos rios, das nossas árvores e vamos produzir, pois assim fortalecemos nossa identidade. A cultura se fortalece, o Estado cresce e a nossa arte será reconhecida no mundo."
Portanto, o canto de Bado não pertence apenas ao tempo que passou, nem se limita às margens físicas do Madeira; ele é água viva, em constante movimento. Ao atravessar as eras - do toque sutil da agulha no vinil às conexões imateriais da era phygital -, o artista rondoniense prova que a tradição e o futuro caminham de mãos dadas quando há verdade na poesia.
Bado é a própria personificação da Amazônia que se recusa a ser silenciada ou reduzida a um estereótipo: uma voz firme que ensina, compõe, resiste e floresce.Sua trajetória nos lembra que cuidar do próprio quintal, honrar as árvores e escutar os rios é também um ato universal. Ao conectar a floresta ao Nordeste, as salas de aula aos palcos do mundo e a memória ao fomento cultural, Bado continua a cumprir sua missão mais bonita: a de manter a Amazônia de pé, cantando para que o mundo inteiro possa ouvir e se reconhecer na beleza do seu mar de águas doces.
*Por Soniamar Salin/LiterArte Amazônia