BATISTA, Josélia Fontenele; GOMES, Iza Reis; PENHA, Maranei Rohers; SOUSA, Saulo Gomes de. O Mistério da Seca do Rio Madeira. Ilustrações de Flávio Dutka. Porto Velho, RO, 2025.
Nas veias da terra, onde o Rio Madeira desenha o destino, o silêncio da seca fez-se grito na voz dos curumins. Publicado no ano de 2025, em Porto Velho, Rondônia, a obra O Mistério da Seca do Rio Madeira nasce de uma ciranda de mentes sensíveis: Josélia Fontenele Batista, Iza Reis Gomes, Maranei Rohers Penha e Saulo Gomes de Sousa. Juntos, esses quatro autores tecem uma narrativa de esperança que coloca a infância no centro da transformação necessária para curar o mundo.
Na capa do livro, eternizada no arquivo , os traços orgânicos e as pinturas vibrantes de Flávio Dutka já anunciam que a leitura não se dará apenas pelas palavras, mas por uma rica experiência intersemiótica, onde as cores expandem o texto e abrem caminhos para o encantamento e para a interpretação de jovens leitores.
Para ler essa história, é preciso mergulhar nas águas barrentas e sagradas que banham a Vila Aliança, deixando que o verso se confunda com a correnteza de um rio que padece. A trama pulsa diante de um desequilíbrio urgente: as águas estão sumindo, a floresta murcha e o rebojo silencia. É quando Janaina, uma menina sintonizada com os segredos ancestrais de sua avó Maroca, e Cauã, um garoto de passos ágeis e valentia no peito, tornam-se os "curumins escolhidos" pela própria mata.
O chamado se revela após libertarem Raiara, uma arraia encantada presa na armadilha de uma rede esquecida - dolorosa metáfora do descaso humano que ancora a obra em um forte papel pedagógico de educação ambiental.Guiados pela cosmologia indígena e pela tradição oral, os pequenos guardiões de pés descalços iniciam uma expedição sagrada pelo Baixo Madeira, carregando quatro amuletos de poder: um cajado de andiroba, a folha do tempo, o cocar do vento e uma semente de paxiúba.
A linguagem do livro caminha em ritmo cadenciado e musical, inundando as páginas com uma imersão sensorial profunda, onde o som do igarapé e o cheiro da terra molhada saltam do papel. Ao passarem pela comunidade de São Carlos, encontram o jacaré guardião Karu, que os conduz ao místico Lago Cuniã. Lá repousa o cerne do mistério: a majestosa Samaúma, a árvore-mãe que liga o céu à terra, está ferida e triste.
A seca, descobrem os curumins, não é mero capricho do clima, mas a resposta da natureza à ruptura humana, à ganância e ao esquecimento das tradições.O respeito aos anciãos e o conhecimento tradicional florescem quando as crianças usam o cajado de cura. Ao restaurarem a conexão da árvore milenar com o firmamento, a Terra responde com amor. O estalo da primeira gota de chuva que volta a cair não limpa apenas o céu; renova o ciclo eterno da vida. Mais do que papel e tinta, esta obra - enriquecida pelo vocabulário regional que valoriza a identidade local - funciona como uma valiosa ferramenta de mediação pedagógica e consciência ecológica.
O Mistério da Seca do Rio Madeira é um convite para que cada leitor, ao fechar o livro, transforme-se também em um segredista da mata e um eterno guardião dos rios do tempo.
𝗣𝗼𝗻𝘁𝗼𝘀 𝗳𝗼𝗿𝘁𝗲𝘀
• 𝗥𝗲𝗴𝗶𝗼𝗻𝗮𝗹𝗶𝘀𝗺𝗼 𝗲 𝗜𝗱𝗲𝗻𝘁𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲: O livro utiliza um vocabulário rico e fiel à região amazônica (termos como "curumins", "igarapés", "rebojo"), o que fortalece a identidade cultural dos leitores locais e ensina sobre a fauna e flora para leitores de outras regiões.
• 𝗔𝗯𝗼𝗿𝗱𝗮𝗴𝗲𝗺 𝗮𝗺𝗯𝗶𝗲𝗻𝘁𝗮𝗹: A obra cumpre seu papel pedagógico ao tratar de um tema urgente — a seca dos rios e a preservação ambiental — através de uma narrativa lúdica. O "mistério" serve como metáfora para as consequências do descaso humano (como a rede esquecida que prendeu a arraia).
• 𝗦𝗶𝗺𝗯𝗼𝗹𝗶𝘀𝗺𝗼 𝗱𝗮 𝗔𝗻𝗰𝗲𝘀𝘁𝗿𝗮𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲: A figura da Vó Maroca e a importância da Samaúma como elo entre o real e o espiritual destacam o respeito ao conhecimento tradicional e aos anciãos.
• 𝙄𝙢𝙚𝙧𝙨𝙖̃𝙤 𝙎𝙚𝙣𝙨𝙤𝙧𝙞𝙖𝙡: O texto convida o leitor a participar da história por meio de onomatopeias e descrições sensoriais (o som da água, o cheiro da terra molhada), criando uma experiência de leitura imersiva.
Que possamos, assim como Janaina e Cauã, aprender a ouvir os silêncios e os clamores da nossa terra. O Mistério da Seca do Rio Madeira é mais do que uma leitura indispensável; é um chamado para reconectarmos nossas próprias raízes ao coração da floresta. Deixe-se banhar por essa correnteza de sabedoria e descubra, você também, o poder de ser um guardião do amanhã.
