ALVES, Eva da Silva. O porco-do-mato e o caçador corajoso. 1. ed. Porto Velho: Temática Editora e Cursoa, 2024. Tradução para o espanhol: Laurent Lopez M.; Tradução para Libras: Nathali Machado; Ilustrações: Edina Costa.
Nos idos de 1950, onde o tempo caminha no ritmo lento das águas do Rio das Onças, o Seringal Conceição floresce em memórias de borracha e suor. Rondônia, em suas páginas esquecidas pelos livros de história, ressurge viva pela pena terna de Eva da Silva Alves.
A floresta não é apenas cenário; é uma presença antiga que respira. Quando o inverno amazônico eleva o nível dos rios, cobrindo o leito com mantas de taropé e vitórias-régias, a mata sussurra seus mistérios aos ouvidos de quem sabe escutar. Mas o homem, por vezes, ensurdece diante da própria ambição.Piraquina e Dionísio, amigos de longas andanças e caçadas, carregavam nos ombros a soberba do domínio. Ignorando o aviso silencioso da panema - a uruca mística que castiga o caçador que abate além da fome -, eles adentraram o Igarapé do Azul.
Desprezaram a chuva imprevista no verão e o bater de asas da nambu azul; desafiaram os sinais claros de uma Mãe Natureza que pedia resguardo. Na calada de uma noite fria e densa, sob o olhar zombeteiro de uma lua alva, a floresta cobrou o seu tributo de silêncio e respeito.O amanhecer não trouxe o sol manso, mas o grito aterrorizante da rasga-mortalha. Rompendo a folhagem com dentes que batiam como se mastigassem ouriços de castanha, surgiu a própria fúria da mata: um porco-do-mato monumental, de olhos vermelhos como pimenta-malagueta e dentes maiores que caroços de ingá.
Diante do bicho que escorria gosma esverdeada e batia a pata esquerda no chão, Dionísio buscou a pólvora. Peteco! Peteco! Peteco! Três vezes a espingarda falhou. O ferro calou-se para que o sobrenatural falasse.No breve e eterno espaço de tempo em que encarou o monstro, a voz esquecida de seu velho pai ecoou na mente de Dionísio: "Respeite a Natureza e ela te respeitará". Mas o pensamento foi interrompido pelo assombro divino.
Diante de seus olhos, o corpo do caçador gelou quando a criatura grotesca transfigurou-se. Operou-se a metamorfose: o porco ruiu e, de uma fenda luminosa, emergiu a figura de uma mulher. Ao redor, o reino verdejante respondeu ao sacrilégio. Pássaros cruzaram os céus; no alto de uma árvore, os olhos amarelados da Mãe da Lua entoaram um canto fúnebre em dueto com o jacurutu, enquanto caborés observavam, indiferentes, formando um círculo avermelhado no topo das copas.
Tomado pelo terror do sagrado, Dionísio desfalceu inerte sobre a lama pisada.Piraquina, que a tudo assistia de outra árvore para onde fugira, abria e fechava os olhos esperando o fim do castigo. Ao ver o compadre desmaiado, reuniu as forças que lhe restavam, apontou para o alto e atirou. O estampido quebrou o transe; o porco-do-mato recuou e dissolveu-se na névoa que se esvaía. O silêncio soberano retomou o seu trono. Da guardiã e da fera, restou apenas o rastro físico da destruição e a lição incurável gravada na alma dos homens: a verdadeira coragem não se molda no cano de uma arma, mas na reverência aos limites da Terra.

A narrativa resgata com maestria a oralidade cabocla, a simplicidade rústica do falar do interior e o realismo mágico que corre nas veias da Amazônia. O ápice do livro transita pelo folclore puro e visceral, onde entidades e fauna se unem em um coro de alerta ecológico.
O traço pictórico e expressivo de Edina Costa dá corpo, textura e impacto a essa paisagem ancestral.Contudo, sob o olhar da crítica, a obra escolhe a linearidade terna do universo infantojuvenil. Os elementos místicos e a metamorfose da fenda luminosa, embora belíssimos, passam como um vento rápido pelas copas das árvores, deixando um gosto de "quero mais" no leitor maduro que busca maior detalhamento dessa rica cosmologia.Ainda assim, o livro se agiganta em seu propósito educativo e inclusivo.
Onde as palavras em português alcançam a alma do leitor brasileiro, as margens se estendem: a obra abraça a acessibilidade em Libras e cruza fronteiras geográficas com a primorosa tradução para o espanhol de Laurent Lopez M., permitindo que os ecos, as visões e os mistérios do Seringal rondoniense ecoem por toda a América Latina.
É um manifesto de amor à floresta, indispensável para escolas e famílias que desejam semear, no peito das novas gerações, o respeito à herança viva da nossa terra.
Pontos Fortes
O principal mérito da obra é preservar a memória cultural da Amazônia rondoniense, mostrando um universo pouco explorado nos livros didáticos. A linguagem é simples, próxima da fala do interior, o que facilita a leitura para crianças e jovens. A mensagem central é muito bem construída: a verdadeira coragem não está em dominar a natureza, mas em respeitá-la e protegê-la. A acessibilidade da obra amplia seu alcance e torna a história inclusiva.
Mesmo com características próprias do seu gênero, é uma obra valiosa e necessária. Cumpre com excelência seu papel educativo e cultural, ensinando valores e aproximando o leitor da realidade da floresta. Recomendada para escolas e famílias.
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