Commodity (Série Glycine max) : A Carne da Terra e o Preço do Sagrado
DUTKA,Flávio.Commodity da série Glycine max, 2019,Coleção Particular.

Há um pulsar secreto que move a matéria. O que se oferece aos nossos olhos não é uma geografia estática ou a cópia dócil de uma natureza intocada, mas um acontecimento vivo, febril e urgente. 

Flavio Dutka não se serve das cores; ele habita através delas, convertendo cada tonalidade em um estado sutil de consciência. Sob o batismo de Commodity, pertencente à série Glycine max, a obra revela sua verdadeira e trágica potência: o choque absoluto entre a sacralidade da terra e a profanação do mercado. O artista nos seduz com a beleza do divino para nos desferir o golpe da realidade.

Como uma artéria exposta, uma trilha incandescente de Vermelho serpenteia o espaço pictórico. Ela é o sangue da própria pintura, o fluxo vital da criação, mas é também a cicatriz aberta da devastação. Esse caminho de fogo calmo deixa de ser apenas uma trilha mística e assume a forma da linha de fratura por onde avança a fronteira agrícola; o exato instante em que o gesto se torna irreversível e a terra é cortada. 

Na base dessa artéria, pequenas embarcações vermelhas flutuam sobre o reflexo d'água, não mais apenas almas prontas para um embarque espiritual, mas o eco melancólico do escoamento, o prenúncio das riquezas que deixam o solo para virar ativo financeiro.

A Tensão dos Elementos e o Horizonte de Ouro

Nesse território sob ameaça, os Azuis e os Verdes erguem-se como um sopro, o intervalo respirado entre a violência do trator e a calmaria da memória. Os verdes profundos e as colunas azuis, elétricas e verticais, funcionam como sentinelas que sustentam o espaço entre o que a floresta é e o que ela deixará de ser. 

São tonalidades que não clamam, sussurram; representam o choro líquido e a resistência da biodiversidade que se recusa a ser homogeneizada.A luz que banha a cena abdica de qualquer compromisso com o naturalismo. Ela emana de dentro da própria matéria artística, uma luminosidade mística que se choca contra a ambiguidade dos Amarelos e Ocres que dominam o topo. 

O horizonte dourado, que à primeira vista operava como um ponto de fuga espiritual, revela-se em sua ironia mais ácida: é a cor dos campos maduros da soja (Glycine max) que avançam e engolem o horizonte. O amarelo não é mais apenas a iluminação do espírito, mas o ouro da mercadoria que tudo consome.

O Gotejamento como Sudário do que Vai Sumir

A gestualidade de Dutka  é um rastro de urgência e entrega. Suas pinceladas são livres, rápidas, coreográficas. Mas o relógio da obra reside no dripping: cada linha escura que escorre verticalmente pela tela é um segundo que se materializa. 

Ao permitir que a gravidade participe do processo, o artista torna o tempo visível, tátil e encarnado.Enquanto a tradição da action painting transformava o gesto em explosão pura, Dutka converte o gotejamento em um lamento recolhido. Essas lágrimas de tinta são o testemunho do que já passou. O gesto ritualístico do pintor transforma a tela em um sudário ,o tecido sagrado que guarda os vestígios indeléveis de um corpo que se ausentou. Na pintura, esse corpo é a floresta viva que corre o risco de desaparecer.

O fazer artístico eleva-se à categoria de oração e protesto silencioso. A pintura faz-se altar; a superfície, um território de passagem e despedida. Vemo-nos diante de uma obra que parece perenemente viva, ainda úmida, ainda respirando e retendo o calor do braço do criador. Dutka reinventa o mundo para que possamos habitá-lo com espanto e consciência, lembrando-nos de que, quando o homem contemporâneo olha para o milagre da criação em busca de lucro, ele sangra a própria alma da terra.


OU SEJA,

Há obras que se impõem pelo excesso, pelo grito, pelo assalto imediato aos sentidos. Commodity, pintura que integra a série Glycine max de Flavio Dutka, escolhe o caminho inverso: ela se infiltra. Não chega como impacto, mas como uma inundação lenta: um pensamento que escorre pelas bordas, uma cor que respira no escuro, um silêncio denso que se instala entre o espectador e a tela.

Nesta tela visível , Dutka trabalha a superfície pictórica como quem decanta um estado de alma e de terra. A pintura não descreve a natureza; ela a destila. É como se cada camada de tinta fosse um resíduo de tempo geológico, um depósito de sensações e urgências que se acumulam até formar um corpo próprio, vivo e febril.O gesto aqui é contido, mas jamais domesticado. 

Há uma vibração subterrânea, uma energia elétrica que pulsa sob a pele da obra, como se a matéria estivesse sempre na iminência de transbordar. O artista opera no limite exato entre o controle absoluto e o abandono místico, permitindo que a gravidade participe do processo através de um dripping que escorre como o próprio pranto da paisagem. A matéria encontra seu próprio caminho, como um organismo que cresce e resiste por vontade própria.

A Doçura Ácida do Ouro Verde

A cor, em Commodity, recusa o papel de mero ornamento: ela é atmosfera, é carne, é território. Ela envolve, embala e embriaga o olhar através de contrastes viscerais entre verdes profundos, azuis sentinelas e uma trilha vermelha que rasga o espaço como uma artéria exposta. Há na tela uma doçura ácida, uma suavidade cromática que camufla uma tensão geopolítica e espiritual profunda.O conforto prometido pelo título, a falsa calmaria de uma "comodidade" de mercado, é apenas uma pele superficial. Sob ela, há algo profundamente inquieto que se move. A série Glycine max investiga justamente esse território ambíguo e trágico: o embate entre a beleza sagrada da criação e a frieza da terra reduzida à mercadoria, o brilho dourado do horizonte de soja que avança e a sombra da perda que ele projeta.

O Enigma Habitável

Commodity é o ponto exato em que essa ambiguidade se torna palpável, tátil, quase dolorosa. É uma pintura que seduz pela exuberância da cor, mas captura pelo mistério de suas intenções. Que acolhe as pequenas embarcações em seu leito d'água, mas não entrega o seu destino. Que parece repousar em um idílio tropical, mas vibra na frequência do perigo.

Dutka cria um espaço litúrgico onde o olhar não encontra repouso definitivo, ele circula pela trilha sinuosa, retorna aos escorridos verticais, insiste no horizonte amarelo. A obra não se esgota na primeira mirada; ela se renova e se transmuta a cada aproximação, como um perfume complexo que muda conforme a pele que o recebe.Commodity é, enfim, uma pintura que se oferece como abrigo, mas se revela como enigma e manifesto. Um convite à contemplação lenta, à escuta do que a floresta não diz, ao toque do que o capital não mostra. Uma obra que não quer ser apenas decifrada, exige ser habitada.


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