O Cacau Cor de Rosa: quando a arte amazônica transforma um fruto em símbolo de memória, identidade e criação


“O fruto não guarda apenas o açúcar da terra; guarda o pigmento dos séculos, a saliva do rio e o mistério de quem ousou olhar para a floresta e ver nela um poema em constante germinação.”

Há mostras artísticas que se limitam a organizar objetos sobre a frieza de paredes brancas. Outras, mais raras, conseguem erguer o contorno sensível de uma autoria. E existem aquelas, verdadeiramente viscerais, que possuem a virtude de desvelar a alma de um território inteiro. 

"O Cacau Cor de Rosa", exposição coletiva sob a refinada e perspicaz curadoria de Margot Paiva, inscreve-se com altivez nessa última e luminosa categoria.

Reunindo três das vozes mais contundentes e poeticamente maduras das artes visuais radicadas em Porto Velho - Flávio Dutka, Homero Rodrigues e Bruno Souza -, a mostra toma como faísca criativa um enigma vivo do ecossistema equatorial: o cacau Ruby. Trata-se de uma variedade botânica rara, cuja pigmentação suavemente rosada rompe de forma surpreendente com o imaginário telúrico e acastanhado habitualmente associado ao fruto amazônico. Dessa fenda cromática, nasce um organismo expositivo vertiginoso sobre metamorfose, pertencimento e a inagotável potência estética do Norte.Mais do que um pretexto temático ou um ornamento botânico, o cacau cor de rosa converte-se em metáfora viva:

Metáfora da Amazônia profunda, que recusa o estereótipo e insiste em surpreender o olhar cansado;

Metáfora do ato criativo, que desorganiza a matéria bruta para reinventar o mundo;

Metáfora de uma produção visual que brota nas margens geográficas, longe dos eixos hegemônicos, mas que alcança ressonância universal pela precisão e densidade de sua linguagem.

A Poética da Curadoria: Uma Floresta de Linguagens

Sob a sensibilidade aguçada de Margot Paiva, a curadoria recusa a tentação de uniformizar estilos ou impor uma narrativa rígida. Ao contrário: a exposição celebra o atrito fecundo e a diversidade das matérias. Não há concorrência entre os suportes, mas uma sinfonia de texturas em que a tinta, a madeira e a terra entretecem uma tapeçaria conceitual única.

Cada artista percorre caminhos formais absolutamente próprios, mas todos convergem inexoravelmente para a mesma matriz existencial: a floresta não como mero cenário idílico ou paisagem estática, mas como matriz estética, afetiva, espiritual e política. A curadoria orquestra um percurso imersivo em que o espectador deixa de ser mero observador passivo para se tornar visitante de um ecossistema poético.

Flávio Dutka: O Alquimista dos Sonhos e das Cartografias Impossíveis

Fonte: Obras de Flávio Dutka (2026). Fotografia do autor.

Adentrar o núcleo das obras de Flávio Dutka é penetrar em um laboratório ontológico onde a ciência rigorosa, a memória ancestral e a ilusão poética se fundem. 

Dutka opera como um naturalista de mundos ocultos, auscultando a pulsação secreta dos reinos vegetais e animais. Em suas telas de densa elaboração pictórica, entrecruzam-se coleópteros metálicos, anatomias florais, sementes em estado de transe, coordenadas geográficas, manuscritos e diagramas botânicos. Suas superfícies evocam páginas ampliadas de um códex esquecido ou de um caderno de campo resgatado após séculos de submersão sob a umidade da mata.

Nada em sua obra é meramente ilustrativo - tudo é invenção radical. O artista constrói ecossistemas visuais nos quais a natureza é observada com o rigor de um microscópio e, no mesmo gesto, transfigurada em mitologia. Seus besouros carregam runas, suas flores guardam sussurros e suas escritas cifradas convocam línguas extintas - ou talvez ainda não nascidas.

Navegando nessa fronteira porosa entre o figurativo e o abstrato, as telas de Dutka parecem vivas. Diante delas, o tempo suspende o próprio fluxo e a matéria abdica de suas fronteiras rígidas. O que testemunhamos não é a arte em repouso, mas um organismo em pleno estado de vigília e transmutação. 

Atuando como um anatomista da alma, o artista desenha a cartografia de uma reintegração ancestral: em sua simbiose estética, a carne humana é poeira cósmica, a mata é o nosso próprio corpo e o eterno retorno se consolida como a única lei soberana.

Na série concebida para esta mostra, Dutka toma o cacau cor-de-rosa como um organismo místico e pulsante. O fruto deixa de ser matéria agrícola para se tornar o núcleo de uma cosmogonia visual em que a botânica se converte em poesia. 

É uma pintura que recusa o consumo apressado: exige a demora do olhar, revelando-se em camadas sucessivas de luz, veladura e mistério.

Homero Rodrigues: Quando a Madeira Aprende a Respirar e a Navegar

Fonte:Obras de Homero Rodrigues (2026). Fotografia de Flávio Dutka.

Se a pintura de Dutka explora a profundidade do plano pictórico como um território de revelações, Homero Rodrigues devolve à madeira o seu sopro vital primogênito. 

Diante de suas esculturas, o espectador testemunha o milagre de uma matéria rígida que recupera a flexibilidade do vento e a fluidez das águas.Suas peças impressionam tanto pelo domínio virtuoso do entalhe quanto pela leveza poética que emanam. Cada tronco, cada noz e cada fibra parecem ter sido escutados antes de serem esculpidos. 

Há uma sensação sutil de que o artista não impõe uma forma à madeira, mas apenas retira os excessos para libertar a figura que ali já dormia há séculos.Destacam-se na exposição obras de porte monumental que estabelecem um diálogo direto com a arquitetura vernácula da Amazônia, com o traço das embarcações ribeirinhas e com a ancestralidade do homem que habita a beira do rio. 

Em uma das criações mais arrebatadoras, pequeninas casas em palafita emergem incrustadas no ventre de uma estrutura esculpida que evoca simultaneamente uma folha vegetal, a carcaça protetora de um fruto e a proa de uma piroga. É a síntese perfeita da existência ribeirinha: a casa que flutua, o corpo que navega e o abrigo que brota da própria árvore.

Em outros momentos, figuras humanas estilizadas e casais entrelaçados em nós orgânicos revelam um escultor atento às dobras do afeto, ao sagrado cotidiano e à identidade cultural do Norte. A escultura de Homero Rodrigues não busca a simples representação formal; busca o arrepio, o espanto e a comoção. É impossível não sentir a pulsação viva de suas linhas, que parecem continuar se expandindo e respirando no espaço da galeria.

Bruno Souza: A Terra que Adquire Voz, Riso e Memória

Fonte: Obras de Bruno Souza (2026). Fotografia de Flávio Dutka.

Enquanto a madeira de Homero se ergue na verticalidade do espaço e as tintas de Dutka dilatan os horizontes da visão, Bruno Souza convida o público a um regresso às origens mais profundas da matéria: a argila, a terracota, a carne da terra.

Suas esculturas em cerâmica possuem uma humanidade vibrante, direta e comovente. As figuras moldadas por Bruno sorriem, trabalham, descansam e olham de volta para o espectador com uma dignidade profunda. Não são personagens abstratos; são os rostos, as mãos calejadas e os corpos dos homens e mulheres que fazem da floresta o seu lar e o seu sustento.

A escultura inspirada no trabalhador do cacau traduz esse espírito de forma exemplar. Nela, um ribeirinho de olhar sereno e expressivo sustenta o fruto rosado entre as mãos espalmadas. O gesto não é de mera colheita comercial; é uma oferenda ritual. Ele nos entrega não apenas um produto da terra, mas a síntese de uma cultura, de uma memória de resistência e de uma dignidade ancestral.

Bruno molda a vida cotidiana com uma delicadeza tocante. Suas figuras preservam o movimento do corpo em trabalho, o humor sutil da convivência comunitária e um calor afetivo singular. Há uma brasilidade pulsante e sem artifícios em sua obra. Ao trabalhar com a matéria mais antiga da civilização - o barro -, o artista realiza uma alquimia poética: em suas mãos, a argila deixa de ser solo bruto para se tornar literatura esculpida, crônica social e canto de amor à sua gente.

O Diálogo das Matérias: Três Linguagens, Uma Só Amazônia

Embora operem em campos plásticos tão distintos - a minúcia da pintura cartográfica, o ritmo orgânico da escultura em madeira e o calor tátil da terracota -, Flávio Dutka, Homero Rodrigues e Bruno Souza compartilham uma espinha dorsal comum: o compromisso de fazer da Amazônia um centro de pensamento filosófico e poético.

Suas obras recusam categoricamente o exotismo fácil, as visões folclóricas de souvenir e as paisagens romantizadas para consumo externo. O que se apresenta nesta Mostra é uma Amazônia vivida por dentro, suada, pensada, sentida nas entranhas e rearticulada como alta arte contemporânea.

A curadoria de Margot Paiva evidencia essa teia com sabedoria singular. O percurso da galeria é desenhado como uma experiência de ressonâncias:

  • As superfícies pintadas de Dutka parecem espelhar os sulcos das esculturas em madeira de Homero;
  • As curvas da madeira de Homero imitam a fluidez da água e preparam o olhar para a maleabilidade da argila de Bruno;
  • As figuras de terra de Bruno humanizam a botânica, fechando um ciclo perfeito entre o vegetal, o mineral e o humano.

É o encontro.

O encontro entre artistas que aprenderam a escutar a floresta antes de representá-la.O encontro entre técnicas distintas que se complementam sem perder suas identidades.O encontro entre tradição e contemporaneidade.

A curadoria de Margot Paiva alcança um feito raro: construir uma exposição em que cada obra mantém sua autonomia, mas todas pertencem a um mesmo organismo poético.

Como o próprio cacau, cuja casca protege um interior inesperado, O Cacau Cor de Rosa revela que a arte amazônica continua guardando tesouros capazes de surpreender até os olhares mais experientes.E talvez seja justamente essa a maior qualidade desta mostra: lembrar que a floresta não produz apenas frutos.

Ela produz artistas. 

Produz pensamento.

 Produz beleza.

E, sobretudo, produz futuro.

O simbolismo do rosa

Talvez o aspecto mais instigante da exposição esteja justamente em seu título. O rosa sempre foi associado, no imaginário ocidental, à delicadeza, à ternura e ao afeto.Entretanto, o Cacau Cor de Rosa subverte essa leitura.

Aqui, o rosa não representa fragilidade.

Representa potência.

Representa raridade.

Representa transformação.

É curioso perceber a escolha da Curadora Margot Paiva por  três artistas homens para trazer essa cor como eixo poético de suas produções. E eles conseguiram com primor! Sem discursos panfletários, a mostra desmonta estereótipos sobre masculinidade ao apresentar uma produção marcada pela sensibilidade, pela delicadeza formal e pela contemplação.A força dessas obras reside justamente em sua capacidade de emocionar. Não há necessidade de gritar. A beleza fala em voz baixa.

A Metamorfose do Olhar: Muito Além do Cacau

Um visitante apressado poderia supor que "O Cacau Cor de Rosa" é uma exposição temática voltada à exaltação de um fruto. Contudo, ao percorrer a galeria, compreende-se que a mostra é, em essência, uma ode aos processos de transformação e à resiliência da beleza.

Da mesma forma que o cacau Ruby surpreende ao revelar sua tez rosada no coração da mata densa, esses três artistas desafiam os estereótipos do circuito de arte. Eles demonstram que é possível produzir uma arte rigorosamente contemporânea, sofisticada e universal, sem jamais cortar o cordão umbilical que os une às raízes ribeirinhas e amazônicas.

São obras que abordam a identidade sem cair no dogmatismo; que vocalizam a urgência ambiental sem recorrer ao panfleto simplista; e que encontram a sacralidade estética tanto na microfísica de uma asa de inseto quanto na curva do casco de uma piroga ou nas marcas do tempo no rosto de um agricultor.

O Triunfo da Matéria e do Espírito

Esta exposição consagra e reafirma que a produção artística de Rondônia não é uma nota de rodapé no panorama cultural do país, mas sim um polo emissor de linguagens visuais de altíssimo vigor. 

Durante décadas, a produção artística da Amazônia Ocidental permaneceu à margem dos grandes circuitos culturais brasileiros.

Hoje esse cenário começa a mudar.Artistas como Flávio Dutka, Homero Rodrigues e Bruno Souza demonstram que Rondônia produz uma arte madura, autoral e plenamente inserida nos debates contemporâneos.

A mostra O Cacau Cor de Rosa confirma essa transformação.

Não porque pretenda representar toda a arte amazônica - tarefa impossível -, mas porque evidencia a qualidade de uma geração que faz da identidade regional um ponto de partida para discutir questões universais.

Dutka, Rodrigues e Souza revelam-se mestres na arte de transfigurar o pigmento, o tronco e o barro em pensamento vivo. Ao término dessa jornada expositiva, descobre-se que o verdadeiro protagonista de "O Cacau Cor de Rosa" não é apenas a raridade de um fruto. É, sobretudo, a capacidade infinita da arte de revelar aquilo que a floresta sempre guardou em segredo: a memória que não se apaga, a delicadeza que resiste e a beleza que permanece. 

Nas mãos desses criadores, a Amazônia deixa de ser geografia passiva para se tornar vertigem, matéria, espírito e pura poesia.

É arte que nasce da floresta sem ficar aprisionada nela.

É arte capaz de dialogar com museus, galerias e bienais em qualquer lugar do mundo.

*por Soniamar Salin


Serviço 

  • Exposição: Mostra Coletiva O Cacau Cor de Rosa
  • Artistas: Flavio Dutka, Homero Rodrigues e Bruno Souza
  • Curadoria: Margot Paiva (Sesc-RO)
  • Local: Galeria de Artes Rita Queiróz
  • Período: De 24 de julho a 18 de setembro
  • Horário de visitação: Segunda a sexta-feira, das 9h às 18h; sábados, das 10h às 16h
  • Entrada: Gratuita (Aberta a todos os públicos)
  • Realização: Sistema Fecomércio/Sesc-RO