
A arte de João Zoghbi nasce como o próprio rio Madeira: larga, profunda e desenhada por curvas inesperadas que desafiam a linearidade do olhar geográfico. Natural de Porto Velho, Rondônia, Zoghbi não se limita a representar a Amazônia; ele a transmuta. Suas telas e esculturas não são meros objetos de contemplação estética, mas sim margens sólidas, águas fluidas e memórias sensoriais que escorrem do coração da floresta para o mundo.
É uma obra que pulsa na intersecção entre o homem e a terra, onde o pincel e o formão atuam como extensões de uma natureza que se recusa a ser domesticada.Neste universo, o inacabado surge como essência e manifesto. Zoghbi expõe suas criações como quem revela um coração ainda pulsando, oferecendo ao espectador a beleza do "entre": o espaço entre o rascunho e a finalização. Para o artista, o inacabado não é uma falha técnica ou uma interrupção, mas uma promessa vitalícia. Ele compreende que a arte, tal qual a própria vida amazônica, nunca se conclui verdadeiramente; é uma correnteza que segue seu curso, transformando-se mesmo quando acreditamos ter alcançado a foz.
Ao manter a obra aberta, Zoghbi convida o público a completar o ciclo, transformando a observação em um ato de co-criação.Essa fluidez se materializa em uma Amazônia de forma e cor que transcende o visual. Cada traço de Zoghbi carrega o cheiro úmido da mata, o estalido dos galhos e o calor latente da terra vermelha. Suas esculturas parecem troncos que guardam histórias ancestrais em seus sulcos, enquanto suas pinturas se assemelham a folhas que se abrem ao vento, capturando a luz em sua forma mais crua. Ele não pinta apenas o que a retina alcança, mas o que o corpo sente e o que a própria floresta — essa entidade viva — sente através dele. Há uma simbiose onde a textura da tela se confunde com a textura da casca da árvore.
Entretanto, a obra de Zoghbi não se perde no idílio contemplativo; ela é ancorada pela memória e pela resistência. Ao homenagear figuras como Zumbi, o artista convoca a força dos ancestrais e a densidade histórica das lutas populares na região. Sua arte é um tambor que ecoa o silenciamento das margens e uma flecha que atravessa o tempo para reivindicar o presente. É o lembrete constante de que a Amazônia não é apenas um inventário biológico, mas um território de luta, suor e voz, onde a identidade é forjada no embate entre a preservação e a exploração.A partir desse epicentro, Zoghbi estabelece Porto Velho como o centro do mundo.
De uma cidade frequentemente relegada à dos grandes eixos artísticos, ele lança sua estética para salões internacionais, provando que o local, quando mergulhado na verdade da própria terra, torna-se universal. Como o rio que encontra o oceano sem perder sua essência doce, a arte de Zoghbi transforma a capital rondoniense em um farol de criatividade contemporânea.
Em síntese, João Zoghbi é um artista-rio: nunca o mesmo, sempre em movimento, esculpindo a própria margem enquanto flui.
Sua obra é a floresta que respira através do pigmento, a memória que resiste ao esquecimento e o prisma que refrata a luz amazônica em mil cores vibrantes. Ele nos ensina que a arte não é um ponto final, mas um estado de fluxo permanente — uma vida que insiste em ser pintada, esculpida e, acima de tudo, vivida.

A trajetória de João Zoghbi, com mais de meio século de produção artística, é inseparável da história cultural de Porto Velho e da Amazônia. Sua obra, múltipla em técnicas e suportes — pintura, escultura, desenho, charges e objetos — revela uma busca constante por traduzir a complexidade da vida ribeirinha e amazônica em formas visuais que dialogam tanto com o local quanto com o universal.
A Arte como Processo
Zoghbi desafia a ideia de obra acabada. Ao expor trabalhos inacabados, ele afirma que a arte é movimento, fluxo, como o rio Madeira que atravessa Porto Velho. Essa escolha estética é também filosófica: a identidade amazônica não é estática, mas se constrói continuamente, entre tradições e modernidades.
Amazônia como Símbolo
Sua produção valoriza elementos da cultura regional — desde a culinária presente nas aberturas de suas exposições até os temas que evocam resistência e memória. O artista se coloca como “beradeiro”, homem das margens, e transforma essa posição em estética: suas obras são marginais no melhor sentido, deslocando o olhar para aquilo que costuma ser invisível.
Memória e Consciência
Ao participar de mostras como Uma obra para Zumbi, Zoghbi insere sua arte em debates sobre a luta afro-brasileira e a consciência negra. Sua obra não é apenas contemplativa, mas engajada, lembrando que a arte pode ser instrumento de resistência e de afirmação histórica.
Universalidade e Reconhecimento
Selecionado para o Salão Internacional de Arte Brasileira na Alemanha, Zoghbi mostra que a arte amazônica não é periférica, mas parte de uma rede global. Porto Velho, através de sua obra, torna-se ponto de partida para reflexões que atravessam fronteiras.
A obra de João Zoghbi é como um prisma amazônico: recebe a luz da cultura local e a refrata em múltiplas cores que dialogam com o mundo. É memória e processo, resistência e celebração. É a prova de que a Amazônia não é apenas paisagem, mas também pensamento, estética e filosofia.
Fonte imagens: internet
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