"Prece" de Flávio Dutka
DUTKA,Flávio. Prece, 2018. Coleção particular

“Prece” é um instante suspenso entre o humano e o infinito. Um corpo inclina-se diante da paisagem, e o gesto que se desenha é quase um sopro, mãos que oferecem, que pedem, que reconhecem. O horizonte se dissolve em tons de terra e ouro, como se o tempo tivesse parado para ouvir o murmúrio da alma. Não há templo, nem altar, apenas o silêncio da natureza e o eco da existência. 

A figura parece feita de memória e vento, envolta em linhas que misturam o orgânico e o mecânico, o ancestral e o contemporâneo. As flechas repousam como vestígios de luta e sobrevivência, enquanto o pequeno recipiente nas mãos guarda o mistério da entrega. É um gesto de humildade diante da vastidão, um diálogo entre o corpo e o cosmos. 

A paisagem é despojada, quase árida, mas nela pulsa uma força invisível, o reconhecimento da fragilidade e da beleza do viver. Dutka transforma o ato da oração em imagem, e a imagem em pensamento. “Prece” é o instante em que o ser humano se curva não por submissão, mas por consciência: tudo o que existe é efêmero, tudo o que é sólido desmancha no ar. 

No espaço entre o gesto e o horizonte, o artista nos convida à contemplação. A prece não é súplica, é comunhão. É o encontro entre o que somos e o que nos ultrapassa. É o silêncio que se torna luz. 

Análise Simbólica dos Elementos da obra “Prece” 

Na obra “Prece”, o visível e o invisível dançam em um instante suspenso, onde cada elemento participa de uma coreografia silenciosa entre a fragilidade humana e a imensidão do mundo

No centro emocional dessa tela, a figura inclinada na canoa faz de seu próprio corpo a primeira palavra: um contorno que se dobra não por submissão, mas por uma profunda reverência e humildade diante do mistério. É um corpo que carrega o peso físico e histórico de tantas agruras e colonizações, misturando exaustão e recolhimento espiritual, mas que ainda assim escolhe a abertura e a comunhão. 

Nas suas mãos estendidas, o pequeno recipiente torna-se o coração simbólico do quadro, um elo ancestral que suspende simultaneamente o que se entrega, o que se pede e o que se aceita. É uma força quase inacreditável aquela que emana do ato de saudar e agradecer ao Criador pelo que resta, mesmo quando o entorno evoca a dor e a terra arrasada. 

Ao lado da figura, as flechas e instrumentos de subsistência repousam na madeira da embarcação como testemunhas mudas de uma longa história de luta, caminhos percorridos e resistência. Elas lembram que a vida destes povos é tecida pelo instinto de sobrevivência e pela memória dos antepassados, navegando agora por águas turvas e sob um horizonte obscurecido que reflete um futuro roubado pelo avanço predatório do homem. 

A paisagem, despojada e reduzida a linhas essenciais, transforma-se em um espaço ritualístico onde o desmatamento e a fumaça dão o tom de uma melancolia do antropoceno. À esquerda, as silhuetas das árvores secas e retorcidas erguem-se como monumentos ao tempo que passou e às perdas sofridas, mostrando uma natureza ferida que contrasta com a floresta viva idealizada, mas que também atua como espelho da própria alma que resiste. 

Entre esses elementos, destaca-se a presença da onça (à direita, na canoa, entre as folhas), animal que, no imaginário ancestral, encarna a força, a astúcia e o domínio sobre a floresta. Aqui, porém, ela surge abatida, transformada em alimento, numa inversão simbólica que revela o colapso das relações naturais. O predador, outrora soberano, converte-se em sustento, e essa transfiguração ecoa como um lamento silencioso sobre a ruptura entre o humano e o sagrado selvagem. A onça, que deveria rugir na mata, repousa agora na canoa como oferenda involuntária, testemunhando a violência do desequilíbrio ecológico e espiritual. Sua presença morta não é apenas trágica: é ritualística, é denúncia, é a materialização de um mundo que perdeu sua ordem e sua reciprocidade. 

Nesse cenário de transição, a paleta de ocres, cinzas e dourados evoca a atmosfera melancólica do entardecer, o momento exato em que o dia se recolhe, o céu se tinge de cinzas e fumaça, e o espírito se abre para a transcendência. Enquanto as tonalidades terrosas remetem à matéria e à raiz com o chão originário, os laivos dourados sugerem o calor de uma luz interior que o colonialismo não pôde apagar. 

Essa dualidade entre o plano físico e o espiritual é reforçada pelas linhas e formas geométricas que atravessam o corpo e o espaço, sugerindo mapas ocultos, estruturas internas e fluxos de uma energia que teima em existir. A obra revela-se, enfim, como um manifesto visual sobre a resiliência ancestral e a dignidade preservada diante do apocalipse ecológico e cultural. É a materialização de uma espiritualidade que não depende da abundância, mas da teimosia poética em manter-se firme enquanto o mundo ao redor desaba. 

Nesse instante de sinceridade absoluta, a prece transborda qualquer dogma e se torna um gesto universal, no qual o ser humano, reconhecendo sua pequenez perante a devastação, descobre a sua mais sublime grandeza. 

A Linha Ancestral e os Ecos do Mundo 

O olhar minucioso de Flávio Dutka não apenas pinta, mas escava o território com o rigor de quem guarda a história na memória e a floresta na própria pele. Formado no tempo e moldado pela vivência profunda entre as águas ribeirinhas e as matas de Rondônia, o artista transforma o nanquim e o bico de pena em instrumentos de uma arqueologia sagrada. Cada ponto, cada linha estruturada com precisão quase cirúrgica na tela “Prece”, deixa de ser mera técnica para tornar-se uma poética intimista de cura e identidade. Ali, a anatomia e o mito se fundem; o dorso tenso, as costas curvas e os músculos alongados do braço indígena - frutos de um estudo rigoroso de miologia que ecoa a precisão clássica de Leonardo da Vinci - dão forma material a uma mística puramente amazônica, onde o desenho europeu se rende à trágica beleza da floresta. 

Essa voz singular, fincada nas raízes da terra, não caminha só, mas tece um diálogo invisível com os grandes altares da história da arte. No arco expressivo daqueles braços que se estendem em cansaço e devoção, ouve-se o eco nítido do drama social de Cândido Portinari; há ali a mesma deformação expressiva que o mestre modernista usava para esculpir a dor dos retirantes, transmutada agora na exaustão de um povo diante do abandono. 

Na sutil geometrização da silhueta e nos contornos retos da canoa, respira-se um parentesco distante com o traço antropofágico de Tarsila do Amaral, embora Dutka dispa sua tela de cores festivas, vestindo-a com uma paleta deliberadamente melancólica e sóbria para responder ao grito da devastação. 

Por outro lado, a atmosfera que envolve a embarcação evoca, ainda, o "Sublime" sombrio do romântico alemão Caspar David Friedrich. Tal como as figuras solitárias de Friedrich que encaravam a imensidão da névoa de costas para o mundo, o indígena de “Prece” naufraga em uma solidão existencial diante da imensidão cinzenta da água e do horizonte asfixiado pela queima, confrontando a pequenez humana perante forças que o superam. Mas nessa pequenez não há derrota. A postura curvada é um clamor silencioso que dialoga com as figuras expressionistas de Käthe Kollwitz, onde os corpos dobrados pela perda e pelo luto guardam uma dignidade espiritual inabalável, usando o ambiente degradado para expurgar e denunciar as dores do território ferido.

 E, Curiosamente, a precisão das linhas que definem o dorso, as costas e a tensão muscular do braço do indígena denotam o rigor técnico e o estudo anatômico clássico que Dutka possui,uma vez que o próprio artista já declarou ter feito exaustivos estudos de miologia (estudo dos músculos) baseados nos desenhos anatômicos de Leonardo da Vinci. Essa fusão de uma técnica precisa de desenho anatômico europeu com a poética trágica e mística da floresta gera o impacto visual único que vemos em "Prece". 

Por fim, ao erguer os olhos para o lado esquerdo da composição, a paisagem toca a carne calcinada da própria história artística do Brasil. Aquelas árvores secas, pretas e retorcidas são os "esqueletos da floresta" que conversam diretamente com o protesto telúrico de Frans Krajcberg. Como o artista polonês que transformava troncos queimados em esculturas que gritavam contra o ecocídio, os traços de Dutka monumentalizam a agressão humana. 

“Prece” consolida-se, assim, como uma encruzilhada estética perfeita: um espaço onde a denúncia ecológica encontra a tradição renascentista, e onde o sofrimento se converte, pela ponta fina da pena, em um eterno manifesto de resistência e espiritualidade.

 DUTKA, A OBRA “PRECE” E A SIMBIOSE COM O POEMA DE MARCUS M. DANIN   

A relação entre o poema de Marcus Mendonça Danin e a pintura "Prece" de Flávio Dutka é de uma simbiose perfeita. O texto de Danin não é apenas uma descrição da imagem, mas uma extensão lírica e espiritual dela. É como se o poeta traduzisse em palavras as palavras silenciosas que o indígena de Dutka está proferindo em sua canoa. 

Podemos analisar essa belíssima relação através de quatro pontos fundamentais: 

1. A Cuia como Símbolo Central (A Pintura se transforma em Palavra) 

Na imagem o elemento físico mais sagrado é a cuia ou recipiente que o indígena segura com os braços estendidos em direção ao horizonte sombrio. No poema, Danin capta esse detalhe cirúrgico e o expande politicamente: 

"Que a cuia da fartura seja repartida / com todas as tribos das nações famélicas!" 

O gesto que na pintura poderia parecer apenas um clamor solitário por sobrevivência, no poema ganha o status de um manifesto de partilha e coletividade. A cuia vazia da imagem vira a promessa de uma "cuia de fartura" contra a fome e a ganância.  

2. O Clamor pelo Fim da "Terra Calcinada" 

A pintura de Dutka choca pelo cenário de desolação: os troncos retorcidos à esquerda e o céu poluído e escuro. O poema responde diretamente a essa agressão ambiental e visual ao clamar:

  "E a terra calcinada, envenenada, / seja desintoxicada e sua face reviçe e refloreça!" 

Danin usa termos exatos para descrever o fundo da tela ("calcinada", "envenenada"), mas, enquanto a pintura congela o momento da dor e do desastre, o poema introduz o elemento temporal do futuro e do desejo de cura ("refloreça", "desintoxicada"). O poema é o remédio para o mundo doente que Dutka pintou.  

3. A Inversão do Fogo (Do Destrutivo ao Divino) 

A atmosfera marrom, cinzenta e avermelhada da obra de arte sugere o fogo das queimadas e da destruição do "progresso". Danin encerra seu poema ressignificando o elemento do fogo de forma magistral:  

"...o único foco de fogo, seja os raios / espargidos, pelas labaredas perenes do sol..." 

O poeta pede que o fogo destrutivo e criminoso (que gerou as cinzas da pintura) dê lugar ao fogo natural e divino do sol, que traz a vida e aquece o coração. É a resposta poética exata para o horizonte tenebroso desenhado por Dutka.  

4. A Resiliência Transformada em Esperança (O "Céu Tenebroso") 

Como mencionado na  análise, a obra trata da resiliência de quem não tem o futuro que gostaria. O poema de Danin valida essa tristeza profunda, mas recusa-se a deixar que ela seja o fim da história. Ele escreve:

  "Que os olhos desentristeçam, desumedeçam, / e a luz do cometa esperança risque o céu tenebroso da intolerância" 

O "céu tenebroso" é o céu nublado e enfumaçado . A prece do indígena na canoa, na voz de Danin, evoca o retorno das forças ancestrais (Tupinambás, Avás-canoeiros, o Kuarup, Manitu).  

 "A Poesia é mais que necessária" Ao publicar esse poema com os votos de "Feliz Ano Novo", o autor faz um paralelo poderoso. Mudar de ano é um ato de renovação e esperança, exatamente o que a palavra "Prece" significa. 

Enquanto a obra de Flávio Dutka registra a denúncia histórica e o peso do mundo devastado com a precisão cortante de suas linhas, o poema de Marcus Mendonça Danin sopra vida, movimento (as águas da pororoca, a piracema, o vento do norte) e a promessa de que a resiliência indígena triunfará sobre as "leis desumanas".

 Juntas, imagem e texto formam um oráculo de resistência e fé na reconstrução do mundo.



MARCUS M. DANIN   

poema de Marcus Mendonça Danin

Dutka