Humano, de Roberto Silva Filho, apresenta-se como uma cartografia poética das inconformidades e do desejo. Se a capa do livro já funciona como um mapa afetivo onde palavras dispersas, "saudade", "ausência", "tempo" e "ansiedade", orbitam um núcleo existencial, as páginas internas confirmam a obra como um sismógrafo de tensões íntimas.
A promessa editorial de uma "crescente explosão de sentimentos" cumpre-se não pelo transbordamento desordenado, mas pela justaposição de uma lírica amorosa tradicional a um desencanto histórico agudo.A arquitetura do livro apoia-se em poemas que flutuam entre o testemunho confessional e a crônica do tempo. Em "Margaridas", o eu lírico inaugura uma das veias mais potentes da obra: a fricção entre a delicadeza afetiva e a aspereza político-social. O lirismo recusa o isolamento ao confrontar a oferta de uma flor com a crueza histórica:
“Tu sabes, o país dói de fome / e não posso ficar sorrindo iludido. / Um dia JK construiu Brasília, / hoje cuspimos revolta”.
Essa mesma oscilação entre o refúgio e o desabrigo ecoa em outras composições registradas:
Em "Hospedeira", o sentimento amoroso é traduzido como pouso para uma “vida errante / de bares e canções”, uma âncora fincada em meio à impermanência da boemia.
Já em "Flautas, piano e violas", a tônica desloca-se para a sensorialidade noturna, onde o vinho e o desejo tensionam a fronteira entre a mania de posse e a entrega.
Por outro lado em "Simone", o distanciamento afetivo ganha contornos épicos e universais, evocando caravelas, fados, mistérios e a “sabedoria das águas dos rios”.
Nas composições como "Ontem como hoje" e "Sonata e só...", o cenário ganha contornos de clausura urbana: o eu lírico depara-se com o “calafrio agudo” da saudade ou observa o amor passar do outro lado da janela, colocando-se “atrás das grades, / numa insuportável tarde / muito quente”.
Formalmente, a obra abraça o verso livre e a espontaneidade coloquial. Há, contudo, uma consciente subversão das estruturas clássicas, como o próprio autor sinaliza na nota de rodapé de "Intolerável": “Amo este soneto porque é torto a partir das rimas, porque nem soneto é, na realidade”.
O grande mérito de Roberto Silva Filho em Humano é a recusa ao hermetismo erudito. O poeta opta por uma dicção direta, que dialoga com a tradição da poesia confessional contemporânea sem abdicar de um romantismo melancólico que remonta ao século XIX brasileiro. Todavia, reduzir o livro a um compêndio de desilusões amorosas seria ignorar a sua linha de fratura mais interessante: a indissociabilidade entre o drama individual e o drama coletivo.
O poema "Indigesta" aprofunda esse corte analítico ao amalgamar a hesitação pessoal à memória política nacional. Nele, a crise de um relacionamento caminha lado a lado com a “história presidencial / deste país todo afogado”, culminando na imagem irônica do jovem que, apalermado, erguia o dedo celebrando o governo Sarney.
O amor em Humano não flutua em um vácuo idílico; ele é datado, rói o estômago e cobra seu preço em meio a inflações, revoltas e desesperanças históricas.Sob a perspectiva estética, a repetição de determinados motivos - a noite, a faca, o vinho, os rios e o mar - pode flertar, em alguns momentos, com lugares-comuns da lírica sentimental já consolidada. Poemas como "Sem toque" correm o risco de mimetizar a melancolia urbana de praças soturnas e "estátuas frias" de forma convencional. No entanto, o que poderia soar como desgaste formal é salvo pela vulnerabilidade crua da voz lírica.
O poema homônimo "Humano" sintetiza essa busca ao clamar pelo “livre acesso ao corpo” e pelas “realizações sensuais e humanas” contra o aprisionamento do conformismo.Mais do que técnica pura, o autor persegue o rastro da vivência. Em um mercado literário contemporâneo que frequentemente se refugia no distanciamento irônico ou no esteticismo asséptico, a obra de Roberto Silva Filho assume o risco de ser vulnerável, entregando uma escrita que vale pela sua autenticidade visceral e pela sua capacidade de converter o desterro cotidiano em comunhão com o leitor.
Humano não é um livro para ser lido com a distância fria dos escalpelos críticos; é um território para ser habitado. Roberto Silva Filho escreve de peito aberto, talhando as palavras como quem abre frestas nas paredes de uma casa antiga para deixar entrar o vento áspero do mundo. Seus poemas nascem da urgente certeza de que a poesia ainda é o último refúgio para aquilo que a velocidade dos dias teima em soterrar: o direito à melancolia, o espanto diante da perda e a teimosia do afeto.
Há nos versos deste livro uma geografia líquida e mutável que transparece nas imagens das páginas de "Poeminha doido da grande distância". O eu lírico caminha pelos trilhos do mundo sob o risco permanente de esbarrar em astros, enquanto chove o suco doce de abricó e piquia de seu Pará natal, logo antes de se afogar nas águas densas do Rio Negro.
É essa capacidade de entrelaçar a imensidão do cosmos e a densidade mística da floresta à pequenez de uma mesa de bar que confere ao livro sua atmosfera única de permanente travessia.O romantismo de Humano não se traduz em ingenuidade ou idílio; ele é uma trincheira. Quando o poeta constata que o romantismo morreu e, no verso seguinte, promete comprar uma flor enquanto o país dói de fome, ele está nos dizendo que o belo é a nossa última revolta. Cada página torna-se, assim, uma tentativa de salvar um nome, um aroma esquecido ou o vislumbre de um corpo do completo naufrágio do tempo.
Ler esta obra é aceitar o convite para nos olharmos no espelho trincado da nossa própria fragilidade e descobrir que, apesar de todas as feridas, ainda nos é permitido florescer.
Existe uma tensão espacial fascinante e quase claustrofóbica que tensiona o livro de ponta a ponta. O eu lírico de Roberto Silva Filho move-se constantemente entre dois extremos territoriais:
Silva Filho faz da imperfeição um manifesto técnico e humanista. Quando ele assume que ama um soneto "porque é torto a partir das rimas, / porque nem soneto é, na realidade" (em Intolerável), o poeta está assinando o seu pacto com o leitor.Essa escolha revela que, para ele, a vida humana não cabe na simetria perfeita do decassílabo ou da rima rica. O erro, o desalinho, o "torto" são as verdadeiras marcas da nossa passagem pelo mundo. Ele prefere a rima áspera e a métrica quebrada porque elas mimetizam com muito mais precisão o tropeço das nossas próprias pernas pelos "trilhos do mundo".
O tempo em Humano não é o elemento filosófico abstrato dos relógios; ele é físico, pesado e, muitas vezes, cruel. Ele se apresenta na dualidade esmagadora do cotidiano, como se lê em "Ontem como hoje": "Ontem, quando acordei, / senti o calafrio agudo, / de sempre, no peito. / (Ontem como hoje)".O tempo da rotina corrói o amor, agindo como um "voraz carrasco" que assassina os sentimentos logo ao anoitecer. A memória, portanto, surge na poesia não como um exercício passivo de nostalgia, mas como um esforço desesperado de retomada uma tentativa de resgatar "as horas tomadas de tanta saudade" e salvá-las da obsolescência.
Olhar para as entranhas de Humano é compreender que Roberto Silva Filho opera uma alquimia rara: ele transforma a solidez do desespero em matéria leve, quase aérea. Seus versos são feitos de carne que sangra, mas que também sabe celebrar o milagre do instante.
Há uma fúria mansa em sua escrita, um desejo indomável de tocar o absoluto enquanto os pés afundam na lama do cotidiano político e amoroso.Ele nos estende a mão a partir do abismo. Suas palavras são como o suco selvagem de abricó que cai do céu lírico do Pará para adoçar a boca amarga de quem chora a solidão em uma mesa de bar qualquer. O poeta sabe que somos poeira cósmica jogada contra grades quentes de ferro; sabe que somos estátuas frias em praças soturnas ansiando pelo incêndio de um toque.
Dizer mais sobre este livro é reconhecer que ele não se fecha na última página. Humano continua ecoando em nós como aquela sonata ouvida ao longe em uma tarde de calor: uma música triste, belamente torta, que nos relembra que a nossa maior riqueza é, precisamente, a nossa incurável capacidade de sentir.
Fechar as páginas de Humano não é interromper uma leitura, é deixar que a poeira de uma longa viagem finalmente assente no chão da memória. Roberto Silva Filho nos conduz por um labirinto onde cada poema funciona como uma lâmpada acesa na penumbra de uma tarde insuportavelmente quente.
Ao final, o que nos resta nas mãos não é apenas um livro de versos, mas o rastro tátil de um homem que teve a coragem de não esconder as suas fissuras.Passamos pelos trilhos do mundo, provamos o suco selvagem de abricó que cai de céus distantes, afundamos nos mistérios do Rio Negro e nos postamos, imóveis, atrás das grades de janelas que vigiam a solidão das praças soturnas.
Vimos o romantismo ser declarado morto e renascer logo no verso seguinte, teimoso e insubmisso, sob a forma de uma flor comprada às pressas enquanto o país dói de fome. A escrita de Silva Filho cumpre o seu rito: ela rasga o véu do cotidiano político e amoroso para nos lembrar de que a nossa carne é feita tanto de lamento quanto de desejo.Os versos tortos, as rimas intencionalmente desalinhadas e a recusa ao rigor asséptico das formas perfeitas revelam-se, agora, como a única linguagem possível para traduzir o que somos.
Ao fechar este volume, o eco das flautas, dos pianos e das violas permanece vibrando no silêncio do quarto. Roberto Silva Filho nos devolve à nossa própria crueza, despidos de certezas, mas reconciliados com a nossa incompletude. Saímos desta leitura com a certeza de que a vulnerabilidade não é uma fraqueza, mas o nosso último manifesto de resistência.
Ser humano, afinal, é carregar o peso do tempo no peito e, ainda assim, guardar o espaço exato para a audácia de florescer.