
Fonte: DUTKA, Flávio. Melancolia às 18' / 2025
A obra Melancolia às 18', de Flávio Dutka, é uma peça que utiliza o contraste e a textura para evocar um estado emocional específico, típico do entardecer. A transição do dia para a noite aqui não é apenas um fenômeno astronômico, mas uma metáfora para a introspecção.
1. Análise de Elementos Visuais e Detalhes
Paleta de Cores e Contraste: A obra é dominada pelo claro-escuro (chiaroscuro). O uso de pretos profundos e brancos acinzentados, com toques sutis de amarelo e verde na base, cria um "vazio iluminado". O céu carregado sugere uma atmosfera pesada, enquanto a linha do horizonte permanece como o último ponto de clareza.
Textura e Suporte: É evidente a textura da tela ou do papel rugoso. Dutka parece utilizar técnicas de grattage (do francês gratter - que significa "raspar") ou pinceladas secas que deixam falhas intencionais, conferindo um aspecto "ruidoso" ou desgastado à imagem, como se fosse uma memória antiga ou uma fotografia analógica deteriorada.
Composição Vertical x Horizontal: Os troncos secos e esguios à esquerda quebram a horizontalidade do horizonte e da água. Essas linhas verticais funcionam como "sentinelas" da solidão, reforçando o sentimento de isolamento que o título sugere.
2. Conexões com a História da Arte
A estética de Dutka nesta peça dialoga com diferentes períodos e estilos:
O Romantismo de Caspar David Friedrich
A obra remete diretamente ao Romantismo Alemão, especialmente às paisagens de Friedrich (como em Abadia no Carvalho). A natureza não é apenas cenário, mas o espelho da alma humana. Os galhos secos contra um céu crepuscular simbolizam a finitude e a pequenez do homem diante do infinito.
O Expressionismo e a Gravura
O traço possui uma força gráfica que lembra a Xilogravura Expressionista. Há uma crueza na forma como o preto é aplicado, priorizando a emoção bruta em vez do realismo fotográfico. Lembra o trabalho de artistas como Edvard Munch, onde o ambiente parece "gritar" ou "silenciar" intensamente junto com o observador.
O Informalismo e o Abstracionismo Sensível
Pela forma como a tinta é arrastada e as texturas são exploradas, a obra se aproxima do Informalismo. O foco está na matéria e no gesto. A paisagem é quase uma desculpa para explorar a mancha e o peso do pigmento sobre a superfície.
3. A Psicologia do Título:
"Melancolia às 18" O título é cirúrgico. As 18' representam a "hora da ave-maria" ou o crepúsculo, um período de transição que historicamente está ligado à nostalgia e à reflexão.
Destaque: A melancolia aqui não é necessariamente tristeza, mas um estado de suspensão. A obra captura o momento exato em que a luz morre e o silêncio assume o controle da paisagem.
A obra de Flávio Dutka é propositadamente ambígua, permitindo que a percepção do espectador mude a narrativa.
Observe:

1. A Resistência: Galhos Secos como Linhas de Defesa
Acima, mencionamos a fragilidade, mas a leitura em si da referida obra adiciona a camada da força. Embora as árvores pareçam "mortas" ou desprovidas de folhas (símbolos de vida e crescimento), suas estruturas verticais permanecem firmes contra a escuridão avassaladora do céu. Elas agem como sentinelas.
Conexão Visual: O traço preto e áspero nelas não é flácido; ele tem uma tensão gráfica. Elas "seguram" a composição enquanto o céu parece derreter em nuvens pesadas e a água se dissolve em camadas horizontais.
Conexão Artística: Essa ideia da "árvore seca como símbolo de resistência" remete não só ao Romantismo, mas também a movimentos mais modernos de gravura e expressionismo, onde a estrutura esquelética da natureza representa a resiliência do espírito humano diante da adversidade (por exemplo, nas obras de Arthur Luiz Piza ou Goeldi no Brasil).
2. A Base: Silhuetas Humanas ou Figuras Míticas?
A base escura é fascinante. Ao olharmos de perto a área verde-escura e preta na margem, a aplicação ruidosa e fragmentada da tinta cria formas que lembram muito silhuetas humanas agachadas ou em fila, ou até mesmo seres míticos que emergem da terra.
A Nova Narrativa: Se aceitarmos essa interpretação (que é muito válida no contexto da arte abstrato-figurativa), a obra muda completamente. Ela deixa de ser apenas uma paisagem vazia sobre a solidão e passa a ser uma cena de:
Um ritual: Figuras reunidas na base das árvores sagradas na hora do crepúsculo.
Uma comunidade: Pessoas que pertencem a essa terra áspera, tão integradas a ela que se confundem com a vegetação.
Os "Invisíveis": Aqueles que sobrevivem na sombra, na base da estrutura social ou natural.
Conclusão Combinada: Uma "Resistência Coletiva"Unindo os seus dois pontos: as árvores são resistentes porque estão enraizadas nessa base onde, talvez, seres vivos (humanos ou espíritos) estão agachados, sustentando-as ou prestando-lhes tributo.
Isso transforma a "Melancolia" do título não em um sentimento passivo, mas na melancolia de uma resistência compartilhada no escuro.
Podemos ainda conectar Flávio Dutka a Henri Cartier-Bresson, especialmente em sua fase na Índia (final da década de 1940), ao que o fotógrafo chamava de "O Instante Decisivo".
Aqui estão os pontos de contato entre essa obra e o olhar de Bresson:
1. A Geometria das Silhuetas
Nas fotografias de Bresson na Índia — como as famosas imagens de mulheres em Srinagar ou de refugiados em acampamentos — as pessoas são frequentemente retratadas como formas escuras e gráficas contra fundos mais claros (montanhas, neblina ou o céu).
Em Melancolia às 18' a base que mostra silhuetas humanas segue essa mesma lógica: não vemos rostos, vemos a postura. Há uma dignidade silenciosa naquelas formas agachadas que espelha o respeito de Bresson pela condição humana em momentos de introspecção ou oração.
2. O Ritmo Visual
Bresson era obcecado pela relação entre as linhas da natureza e a presença humana.
Note como os troncos de Dutka criam um ritmo vertical que "organiza" o caos do céu. Na fotografia de Bresson, muitas vezes uma árvore, uma coluna ou um mastro serve como o eixo que equilibra o peso visual das multidões. Se aquelas formas na base são de fato pessoas, elas dão escala e propósito à paisagem, exatamente como o elemento humano fazia nas composições de Bresson.
3. A Atmosfera de Transição
As fotos de Bresson na Caxemira têm uma qualidade etérea, quase mística, muitas vezes banhadas por uma luz difusa que apaga os detalhes e foca na essência.
Dutka utiliza a técnica da pintura para alcançar esse mesmo efeito de abstração fotográfica. O "ruído" na tela lembra o grão da película de 35mm empurrada ao limite na luz baixa do entardecer.
A Resistência Silenciosa: Se em Bresson a resistência estava na resiliência do povo indiano diante de mudanças históricas, na obra de Dutka ela parece estar na permanência desses seres (humanos ou árvores) diante do fim de mais um dia, na imensidão da margem.
Essa sua leitura transforma a obra de um registro de "paisagem" para um registro de "humanidade integrada à terra". É como se Dutka tivesse "pintado" um instante decisivo que, em vez de ser capturado pela lente, foi construído pela memória e pela emoção.
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Quem é Flávio Dutka? Flávio Dutka é artista visual paranaense radicado em Rondônia, onde desenvolve uma produção marcada pelo diálogo entre memória, cotidiano e identidade amazônica. Formado em História pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), traz para sua obra um olhar atento às narrativas culturais e às camadas simbólicas presentes no território em que vive. Sua pesquisa transita entre pintura, desenho e experimentações contemporâneas, sempre buscando novas formas de traduzir sensações, paisagens e histórias que atravessam sua trajetória. Dutka participou de exposições e projetos culturais no exterior e no Brasil,além de estar presente em diversas exposições no seu Estado consolidando-se como uma voz sensível e singular na cena artística rondoniense.
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