
DUTKA, Flávio. Da série "Um Lago Chamado Cuniã",tinta acrílica sobre tela ,pastel seco e marcador posca, 25 x 25, 2025.
O Espelho d'Água como Limiar: Uma Leitura de "Um Lago Chamado Cuniã"
Na obra de Flávio Dutka, a paisagem amazônica deixa de ser um cenário estático para se tornar um campo de forças vibráteis. Integrante da série "Um Lago Chamado Cuniã", esta tela atua como uma janela condensada, onde a materialidade da tinta acrílica, a suavidade do pastel seco e a precisão do marcador se fundem para traduzir a complexidade do ecossistema do Baixo Madeira.
A Construção da Atmosfera Dutka opera na fronteira entre a representação e a abstração. O que vemos não é apenas a geografia do lago, mas a anatomia da luz que o habita. A técnica, que remete ao divisionismo contemporâneo, decompõe o pôr do sol (ou o amanhecer) em partículas cromáticas. O amarelo solar, o branco etéreo e as sombras púrpuras não são meras cores; são pulsações térmicas que sugerem a umidade e o calor característicos da região.
O Contraste entre o Orgânico e o GráficoO rigor das silhuetas negras — galhos que se estendem como nervuras sobre a tela — estabelece um contraponto necessário à fluidez do fundo. Esse grafismo, executado com a firmeza do marcador, evoca a tradição da gravura, mas aqui serve para ancorar o espectador. Enquanto o fundo "foge" em direção ao infinito luminoso, os troncos em primeiro plano reafirmam a presença física da floresta, criando uma profundidade de campo que convida ao silêncio e à contemplação.
Esta obra é um exercício de poética do envolvimento. Ao escolher o suporte de pequenas dimensões, o artista exige uma aproximação física: o observador deve inclinar-se sobre o lago para perceber a miríade de pontos que compõem sua superfície.
Essa peça sintetiza temas centrais da produção de Dutka
A Luz como Matéria: A luz não apenas ilumina, ela constrói a forma.
A Memória das Águas: O reflexo no Lago Cuniã funciona como um espelho psicológico, onde a natureza se reconhece e se transmuta.
Hibridismo Técnico: A convivência de materiais industriais e tradicionais reflete a própria Amazônia contemporânea — um território de encontros entre o ancestral e o urbano.
1. Ao Pontilhismo de Georges Seurat e ao Divisionismo - No entanto, enquanto os impressionistas buscavam uma precisão óptica da luz, Dutka utiliza essa técnica para criar uma "vibração" quase elétrica.As camadas de amarelo, branco e tons terrosos não se fundem completamente, forçando o olhar do espectador a realizar a mistura cromática, o que confere ao Lago Cuniã uma luminosidade pulsante e mística.2. Ao Grafismo e a Estética da Xilogravura - As silhuetas negras das árvores e dos galhos secos, desenhadas com marcador, impõem um contraste gráfico rigoroso sobre o fundo pictórico.
Esse traço linear e definido dialoga com a Gravura Japonesa (Ukiyo-e), que influenciou o pós-impressionismo europeu. A forma como os galhos emolduram a cena lembra as composições de Hiroshige ou até mesmo o sintetismo de Van Gogh, onde a linha tem autonomia sobre a cor. Há também um diálogo intrínseco com a xilogravura popular, traduzindo a força da flora amazônica em contornos quase caligráficos.3. A Geometria Orgânica e o Abstracionismo - a obra,embora seja figurativa (identificamos o lago e a mata), ela flerta com a abstração na organização das massas de cor.
A sobreposição de planos horizontais — o céu, a linha do horizonte escura e o reflexo na água — remete à busca pelo sublime nas obras de Mark Rothko. Existe uma preocupação com a "temperatura" da cor que evoca o Abstracionismo Lírico, onde a paisagem é um estado de espírito.
4. Materialidade e Técnica Mista - O uso do pastel seco sobre a acrílica cria texturas aveludadas que contrastam com o brilho e a precisão do marcador Posca. Essa experimentação material é típica do Modernismo Contemporâneo, que quebra a hierarquia entre os materiais "nobres" (tinta a óleo) e os "industriais" ou "escolares" (marcador). O resultado é uma obra que possui uma profundidade física, quase uma tapeçaria visual.
Dutka consegue desregionalizar o olhar sobre a Amazônia sem perder a identidade. Ele não pinta apenas a "natureza", mas a percepção da luz sobre ela.
O Lago Cuniã, nesta tela, deixa de ser apenas uma coordenada geográfica para se tornar um palco de luz e sombra onde a tradição da pintura de paisagem europeia se encontra com a força do grafismo contemporâneo e a alma da floresta.
Em última análise, "Um Lago Chamado Cuniã" não busca documentar a natureza, mas sim capturar o seu instante sagrado. É uma obra que fala sobre a resistência da beleza e a necessidade de um olhar atento para as sutilezas de um bioma que é, ao mesmo tempo, força bruta e delicadeza extrema.
Para além dessa análise técnica e estética, essa obra de Flávio Dutka carrega camadas simbólicas que revelam muito sobre o pensamento do artista e a relação dele com o território.
Aqui estão três pontos fundamentais para aprofundar a compreensão sobre essa tela:
1. A Simbolismo do Cuniã: O Sagrado e o SustentoO Lago Cuniã não é apenas um tema geográfico; na obra de Dutka, ele representa um ecossistema de resistência. Por ser uma Reserva Extrativista (RESEX), o Cuniã é um símbolo de equilíbrio entre o homem e a natureza.
Ao pintar esse lago, o artista não está apenas fazendo uma "paisagem bonita", mas sim um registro afetivo de um local onde a vida segue o ritmo das águas. A luminosidade intensa da tela pode ser lida como a energia vital desse bioma.
2. A "Janela" e a Proporção : O formato quadrado (25x25 cm) e a composição com galhos emoldurando a cena criam um efeito de voyerismo.
Os troncos pretos em primeiro plano funcionam como uma "cortina" natural. O artista nos coloca na posição de quem observa a floresta de dentro para fora, como se estivéssemos escondidos na mata, observando o lago em um momento de intimidade. Isso cria uma conexão direta entre o espectador e o ambiente, removendo a distância de uma "paisagem distante".
3. A Musicalidade Visual: Ao publicar a obra na postagem original Dutka menciona a hashtag #bjork. Isso não é por acaso. O trabalho de Dutka frequentemente estabelece pontes com outras artes.
A repetição dos pontos e o ritmo das linhas dos galhos têm uma qualidade musical. Assim como na música experimental de Björk, onde sons orgânicos se misturam a batidas eletrônicas, aqui os elementos naturais (o lago, os galhos) são construídos com uma técnica "sintética" e vibrante (o marcador Posca e a acrílica). É uma obra que se pode quase "ouvir": o som do vento nos galhos secos e o silêncio da água parada.
4. O Contraste de Temperaturas - Observe como a obra é dividida em zonas de temperatura:O Centro Térmico: Onde o amarelo e o branco explodem, sugerindo um calor quase cegante.
As Zonas de Sombra: O uso de púrpuras e pretos profundos nas bordas e na linha do horizonte.Essa dualidade reflete a própria experiência da Amazônia: a alternância entre a luz solar implacável e a sombra densa e fresca da floresta.
Essa obra, portanto, é um microcosmos (tema recorrente no trabalho de Flávio Dutka) que resume a vastidão da Amazônia em um espaço pequeno, mas carregado de intenção política, estética e sensorial.
Quer conhecer mais de sua obra,acesse:
https://www.facebook.com/flavio.dutk
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