30 Jul
30Jul

aqui nesse deserto canto para as pedras

e elas respondem: gargalham rompem-

se dão piruetas no ar brincam de ser

pássaros nuvens águas de rio e mar:

não há flauta nem assovio para chamar

o vento: não há ira nem lira nem lorota

que rochas não são líricas por natureza

e sua prosa não frequenta a missa

das onze nem a rosa da rosa da rosa:

mas é fina a sua crosta e se alguma cor

as atravessa ah é tudo festa e cada uma

mostra a sua nudez sem vergonha de ser

pedra: aqui nesse deserto canto tanto

silêncio que se abre a fresta do mistério

de não ser e tudo afora vira vento vira

gigante e moinho de invento ao mesmo

tempo: aí me canso e entro fora de mim

(filósofos e putas chamam isso de Antro)


Este poema de Carlos Moreira é uma belíssima meditação sobre a criação poética, a matéria, o absurdo e a própria existência. Ele tensiona, o tempo todo, a rigidez mineral das pedras com a fluidez e a imaginação do poeta.

1. A Transmutação da Matéria (A Pedra Vitalizada)

O poema começa com uma aparente contradição: o "canto para as pedras" no deserto não encontra a aridez estéril, mas a vivacidade:

As pedras "gargalham", "rompem-se", "dão piruetas", brincando de ser elementos fluídos: pássaros, nuvens, águas de rio e mar.

Há aqui uma dessacralização da dureza mineral. A pedra deixa de ser mero obstáculo ou símbolo de rigidez para se tornar pura metamorfose e fantasia.

2. A Recusa do Lirismo Tradicional

O poeta marca uma ruptura frontal com a poesia acadêmica, piegas ou convencional:

"não há ira nem lira nem lorota / que rochas não são líricas por natureza / e sua prosa não frequenta a missa / das onze nem a rosa da rosa da rosa"

A negação da "lira" e da "lorota": Ele rejeita o lirismo clássico e sentimentalista. A matéria bruta da vida não precisa de floreios.

A negação da "missa das onze": Recusa a convenção social, a moral comportada e a religiosidade burocrática.

"A rosa da rosa da rosa": Uma alusão crítica (e bem-humorada) às tautologias poéticas clássicas (como o famoso verso de Gertrude Stein, "A rose is a rose is a rose"). As pedras não jogam esse jogo conceitual e sutil; elas são concretas.

3. Vulnerabilidade e Epifania ("A Fresta do Mistério")

Apesar da dureza, há uma brecha:


"mas é fina a sua crosta e se alguma cor / as atravessa ah é tudo festa...
"

A pedra se desnudará quando a luz/cor a atravessa: a revelação de sua essência interior sem pudores ("sem vergonha de ser pedra").

É nesse canto do silêncio no deserto que surge o ápice metafísico: "abre a fresta do mistério de não ser". O vazio/silêncio expõe a finitude e a dissolução do Eu.

A referência Quixotesca: "vira vento vira / gigante e moinho de invento ao mesmo tempo". A imaginação transforma a matéria mineral em moinhos e gigantes, evocando a loucura criativa de Dom Quixote, onde o real e o inventado fundem-se no deserto da mente.

4. A Fuga para o "Antro" (Encerramento Existencial)

O desfecho do poema traz um curto-circuito de cansaço e transcendência:

"aí me canso e entro fora de mim / (filósofos e putas chamam isso de Antro)""Entro fora de mim": Um oximoro poderoso que retrata a despersonalização, o transe ou o êxtase do ato poético/pensante.

O Antro: O poeta aproxima a alta filosofia da margem humana ("filósofos e putas"). O "Antro" é tanto o lugar do pensamento profundo e obscuro (a caverna platônica, o inconsciente) quanto o lugar do corpo, do desejo e do refúgio físico. A verdade não está no altar nem nas academias, mas nesse espaço visceral e marginal.

Resumo das Formas e Ritmo

O poema utiliza enjambements contínuos (frases que quebram de um verso para o outro sem pontuação rígida), o que cria um ritmo acelerado, quase um fluxo de consciência que mimetiza o próprio movimento das pedras "girando e dando piruetas" no ar.

Aprofundando a leitura, há três camadas subterrâneas nesse poema que tornam a estrutura dele ainda mais interessante: a sonoridade, a geometria do deserto e a provocação estética.

1. O Jogo Sonoro e a Rima Antilírica - Apesar de dizer que "não há ira nem lira nem lorota", o poema é extremamente trabalhado no som. Ele faz o que a crítica chama de ironia formal: usa o ritmo e a rima justamente para gozar do lirismo tradicional.

Aliterações e Trava-Línguas: Há um choque do som do /r/ e do /p/ na primeira parte:

gargalham rompem-se / dão piruetas no ar / brincam de ser pássaros...

O som é seco, duro, estalado - mimetiza o estalar e o chocalhar de pedras rolando umas nas outras.

Jogos de Palavras Rápida: A sequência "ira nem lira nem lorota" funciona quase como uma cantiga infantil ou uma trava-língua debochada, esvaziando o tom solene do poema.

2. O Deserto como Folha em Branco - Na literatura, o deserto raramente é só um lugar físico; ele costuma ser a metáfora para o vazio criativo ou para a página em branco.

Cantar no deserto é o ato de escrever onde ninguém está ouvindo - apenas a matéria bruta (o papel, a pedra).

O "silêncio" não é ausência de som, mas uma força ativa: é um silêncio tão denso que racha a matéria ("canto tanto silêncio que se abre a fresta"). A poesia aqui surge da rachadura, da fresta, não da harmonia.

3. A Trincheira do "Antro": A Ironia FinalA escolha dos dois personagens do parêntese final - filósofos e putas - é genial por juntar os dois extremos da experiência humana:

  • O poeta rejeita a "igreja" (missa das onze) e a "poesia cor-de-rosa" (rosa da rosa da rosa), mas encontra a revelação no Antro.
  • O "Antro" é a caverna de Platão pelo avesso: em vez de sair da caverna para achar a luz, o poeta cansa da luz do deserto e entra para dentro do Antro - um mergulho no inconsciente, na carne e no esgotamento mental.


Uma Iluminação Biográfica/Intertextual

A expressão "rosa da rosa da rosa" não ironiza apenas Gertrude Stein ("A rose is a rose..."), mas dialoga com a própria tradição da poesia em língua portuguesa (de Camões a Carlos Drummond de Andrade) que usava a rosa como símbolo de perfeição abstrata. Para Carlos Moreira, a pedra é o oposto da rosa: ela é imperfeita, bruta, não tem vergonha da sua nudez e não serve para ornamentos de sala.

1. O Diálogo com João Cabral de Melo Neto ("A Educação pela Pedra")

É impossível ler a pedra na poesia brasileira sem trombar com João Cabral. No entanto, embora ambos usem a pedra para fugir do lirismo sentimental ("nem ira nem lira nem lorota"), Carlos Moreira e João Cabral usam a matéria mineral de formas quase opostas:

AspectoJoão Cabral de Melo Neto (A Educação pela Pedra)Carlos Moreira (aqui nesse deserto...)
A Natureza da PedraMestra/Escola: Seca, ríspida, que ensina a contenção, a economia de palavras e a razão.Brincallona/Mágica: Dá piruetas, gargalha, quer ser pássaro, nuvem e água.
O Tom PoéticoRacional e Construtivo: Poesia matemática, arquitetônica, quase sem emoção aparente.Surreal e Vitalista: Poesia de transe, mutação, onde a pedra perde o peso e ganha vida.
A Relação com o 'Eu'A pedra educa o 'Eu' para fora da subjetividade.O 'Eu' se cansa do delírio da pedra e entra "fora de si" (o Antro).

O Ponto de Encontro: Ambos concordam que a pedra é anti-acadêmica — ela não frequenta a "missa das onze" nem se rende ao floreio fácil ("rosa da rosa da rosa"). Mas enquanto Cabral quer a pedra rígida para esculpir o rigor do verso, Moreira quer a pedra liquefeita, capaz de transmutar a aridez do deserto em festa.

2. A Ilusão Quixotesca: "Gigante e Moinho de Invento"

O trecho "vira vento vira / gigante e moinho de invento ao mesmo tempo" é uma alusão direta ao Capítulo VIII de Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes (a famosa cena em que o cavaleiro investe contra moinhos de vento achando que são gigantes).A sacada de Moreira nessa imagem é brilhante por alguns motivos:

  • A Fusão da Matéria e do Mito: Na mente de Quixote, o moinho era um gigante. Na mente do poeta no deserto, a pedra (o real seco) vira vento, vira gigante e vira o próprio moinho. É o poder da imaginação que recria a realidade.
  • A Troca de Papéis: O moinho de Cervantes era movido pelo vento para moer grãos. Aqui, o moinho é de "invento" (de invenção, da capacidade fabuladora da poesia). O vento deixa de ser uma força natural e passa a ser o sopro do delírio criativo.
  • A Loucura Lúcida: Assim como Dom Quixote precisa da "loucura" para enxergar cavalaria onde só há aridez, o poeta precisa desse delírio no deserto para quebrar a casca dura do mundo.

Ao juntar Quixote com o encerramento do poema, Moreira nos mostra que esse delírio cobra um preço: ver gigantes em moinhos e ouvir gargalhadas em pedras cansa a mente - e é esse esgotamento da ilusão que o faz ceder e "entrar fora de si" rumo ao Antro.


No fim das contas, a pedra de Moreira recusa a finura das estufas e o incenso das naves sagradas para abraçar a poeira nua do mundo. Ela não é monumento nem oração; é matéria viva que canta quando o silêncio atinge a sua voltagem mais alta. Entre o delírio quixotesco dos moinhos de vento e o cansaço inevitável do pensamento, o poeta nos lembra de que a verdadeira revelação não habita nos altares do lirismo comportado, mas no abismo visceral do Antro — lá onde a filosofia e o desejo se encontram, nus, para encarar o mistério de apenas ser.

                                                                      *por Soniamar Salin



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