29 May
29May

Beradeiragem: Antologia Poética

Organizadores: Naylane Araújo Matos e Samuel Pessoa da Silva Editora IFRO — 2025.

 Introdução

Beradeiragem: Antologia Poética é uma obra coletiva que reúne vozes contemporâneas da poesia amazônica, especialmente da região de Porto Velho, Rondônia. Organizada por Naylane Araújo Matos e Samuel Pessoa da Silva, a antologia se insere no movimento cultural beradeiro, que reivindica a identidade dos povos que vivem “à beira do rio”, os beradeiros e beradeiras, como forma de resistência política, estética e epistemológica. 

A obra articula poesia, memória, crítica social e afirmação cultural, propondo uma leitura da Amazônia que rompe com os estereótipos coloniais e com a visão exotizante historicamente construída sobre o território. 

A capa, assinada por Flávio Dutka, apresenta a imagem de um homem em uma canoa navegando entre árvores altas, sintetizando visualmente o espírito da obra: a travessia entre rio e floresta, entre ancestralidade e contemporaneidade, entre resistência e criação artística.


Ela dialoga diretamente com o poema “BÉRA.disse”, no qual o homem da canoa , o próprio “béra”, se desloca entre as raízes da floresta. A cena da capa parece quase uma tradução pictórica do poema de Samuel Pessoa (p. 59), que retrata o ribeirinho cortando o rio em sua canoa, exatamente como na imagem.

No poema “homem-rio” (p. 35), de Matheus Faustino, o eu lírico se funde ao rio, como se fosse parte dele. A figura solitária na água, presente na capa, ecoa essa fusão simbólica entre corpo e correnteza.

Já em “Poema na beira” (p. 38), de Poeta Mado, a vida e a cultura que brotam das margens — esse espaço liminar entre floresta e rio, reforçam o mesmo cenário visual sugerido pela capa.

Nos poemas “Espelho d’água I e II” (p. 32–33), de Nilza Menezes, a reflexão da floresta na superfície líquida dialoga com a ideia de espelho, memória e profundidade, ampliando o sentido da imagem da capa.

Por fim, em “Beradeiragem” (p. 88), de Naylane Araújo, poema que dá nome à antologia , encontramos a síntese do conceito visual e simbólico da capa: movimento, ritmo e identidade da beira, elementos que atravessam tanto a imagem quanto os textos.


2. Desenvolvimento

2.1. Resenha Descritiva 

A antologia reúne autores e autoras de diferentes gerações e estilos, compondo um panorama plural da poesia amazônica atual. Entre os nomes presentes estão Basinho, Poeta Mado, Binho, Nilza Menezes, Matheus Faustino, Amanara Brandão, Jamile Soares, Bira Loureiro,Samuel Pessoa,Célia Marques,Negra Mari, Andressa Silva, Patthy pds, Bera Akilas,Jhuja Andrade, Gabriela Saturnino, Marcela Bomfim, Asafe Moreno, Gabriela Saturnino, e a própria Naylane Araújo. Os poemas abordam temas como: 

  • Identidade beradeira e pertencimento territorial;
  • Relação simbiótica entre rio, floresta e corpo;
  • Memória coletiva e traumas coloniais;
  • Mulheres negras amazônidas e ancestralidade;
  • Impactos socioambientais, como hidrelétricas e desmatamento;
  • Cosmovisões indígenas e afroamazônicas;
  • Linguagem como resistência, com o uso de termos como béra, beradeiro/a, beradeiragem.

 A obra também inclui textos introdutórios que contextualizam o movimento beradeiro e discutem a poética como ferramenta de resistência contracolonial. Esses textos funcionam como base teórica para compreender a dimensão política da antologia. 

2.2. Resenha Crítica 

Do ponto de vista crítico, Beradeiragem se destaca por propor uma ruptura com o olhar colonial que historicamente definiu a Amazônia a partir de narrativas externas. Em vez disso, a antologia reivindica um lócus de enunciação amazônico, no qual os próprios sujeitos da floresta narram suas experiências, dores, memórias e resistências. 

A linguagem é um dos elementos mais potentes da obra. O uso do “pretuguês”, conceito de Lélia Gonzalez, e de expressões regionais marca uma recusa consciente ao português normativo e à estética literária hegemônica. A poesia torna-se, assim, um espaço de insurgência linguística. 

Outro ponto de destaque é a presença de vozes femininas negras, que ampliam a compreensão da Amazônia como território pluricultural e interseccional. 

Poemas como os de Jamile Soares, Negra Mari e Amanara Brandão trazem à tona questões de corpo, raça, ancestralidade e resistência, deslocando a imagem homogênea da mulher amazônica construída pelo imaginário nacional. 

A antologia também dialoga com questões ambientais e políticas contemporâneas, como a construção das hidrelétricas no rio Madeira, o genocídio indígena e o avanço do capitalismo predatório. Poemas como os de Poeta Mado e Nilza Menezes funcionam como registros de memória e denúncia. A capa reforça essa leitura crítica: o homem na canoa não é um símbolo folclórico, mas um sujeito histórico, navegando entre raízes profundas — metáfora da travessia de um povo que resiste apesar das violências coloniais e neoliberais. 

Assim, Beradeiragem não é apenas uma coletânea de poemas, mas um projeto político-pedagógico que busca formar consciência crítica, valorizar identidades locais e disputar narrativas sobre a Amazônia. 

3. Conclusão

Beradeiragem: Antologia Poética é uma obra fundamental para compreender a produção literária amazônica contemporânea e os movimentos de resistência cultural que emergem das margens do rio Madeira. A antologia articula poesia, memória, crítica social e afirmação identitária, oferecendo ao leitor uma visão complexa e plural da Amazônia , muito distante dos estereótipos difundidos pela literatura e pela mídia hegemônica. Ao reunir vozes diversas, a obra reafirma que a Amazônia é território de múltiplas narrativas e que a poesia pode ser uma ferramenta poderosa de descolonização, denúncia e reconstrução simbólica. Trata-se de um livro que não apenas emociona, mas também convoca à reflexão e ao engajamento político, tornando-se um material valioso para escolas, universidades e espaços culturais.

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