02 Jul
02Jul


Um relicário bilíngue onde a sensibilidade infantojuvenil se expande, desaguando na densidade madura da lira contemporânea. O que se vê é um movimento coreografado de alma, perfeitamente orquestrado na trindade de suas partes. O título revela sua estrutura: dividida em três partes - Encantos, que celebra a natureza e, as raízes amazônicas; Desencantos, que aborda perdas, dificuldades e contradições da realidade; e Entre Linhas, com reflexões sobre identidade e afeto. Eis o canto que traduz a travessia dessas três margens:

Encantos

A Celebração da Natureza e das Raízes Amazônicas

Na primeira margem, a escrita se faz solo sagrado, terra úmida e batismo cultural. A autora finca suas fundações na imponência mística da Amazônia, onde a identidade não é apenas um registro, mas uma extensão geográfica e folclórica que transborda em devoção. Aqui, a poesia respira o ar de Guajará-Mirim e se banha nas águas imensas que moldam o espírito. A natureza deixa de ser cenário para se tornar a própria matriz criadora, o ventre de onde nasce o canto originário e a alegria das festas populares. O eu-lírico se proclama monarca e fruto dessa terra, anunciando com altivez: “A terra que me sustenta e me faz / majestosa feito castanheira”, compreendendo que sua própria existência é um milagre geográfico, pois “Mamoré é o rio que me pariu, / bem na fronteira de Guajará.”

Nesse território de encantamentos, o amor se amalgama à pulsação do Bumbódromo e à cadência das tradições regionais; a paixão veste as cores da cultura popular e a beleza humana é coroada pela ancestralidade, como um hino entoado à beira-rio: “Rainha da marujada, / cunhã de beleza rara, / quando tu nasceste, Deus foi Caprichoso”. O afeto, nesta primeira parte, possui a leveza de um voo e a doçura de um amanhecer intocado, onde o ser amado é a própria personificação da pureza e do contentamento: “Vieste, pássaro raro, / o meu ninho / perfumar.”

Desencantos

As Perdas, as Dificuldades e as Contradições da Realidade

Mas a mesma torrente que banha a terra é capaz de arrastar as certezas. Ao cruzar a fronteira para a segunda margem, a lírica se reveste de sobriedade e crueza para enfrentar o luto do fim, a solidão dos lençóis vazios e a aspereza do abandono. O tom intimista rasga o véu da ilusão e expõe a carne viva de quem ousou amar sem reservas. 

A dor aqui não aceita adornos ou artifícios literários; ela se impõe com o peso seco e definitivo da realidade. O sofrimento é confessado na nudez de uma manhã solitária e na repetição quase litúrgica do pranto: “Chorar é um verbo seco, / dispensa metáforas. / Chorei.”Os relacionamentos se revelam assimétricos, desmascarando a fragilidade dos laços modernos e o desgaste daquilo que se deixou corromper pela indiferença, metamorfoseando o afeto em um resíduo mundano: “São iguais a um chiclete em asfalto quente / abandonado numa BR movimentada. / (...) Passa a ser só uma mancha pegajosa / no caminho de alguém.” Há um lamento profundo que ecoa pelo teto que já não abriga o encontro, uma indignação melancólica de quem foi preterida e desprovida até mesmo do direito a um encerramento digno: “Tu me negaste a chance / de um amor desnudo. / (...) Nem a palavra adeus / meu amor mereceu.” 

Ao final, a própria poesia passa a ser o espelho desse esgotamento, onde cada verso se torna o testemunho de um desmembramento interior: “Em mim, / o poema é dor. / Cada sílaba poética / é um pedaço de mim / que o tempo arrancou, / pétala a pétala.”

Entre Linhas

Reflexões sobre Identidade, Afeto e Superação

Por fim, no espaço liminar que une a ferida à cicatriz, ergue-se a terceira margem: o território do amadurecimento e da reconstrução. Entre Linhas não é o espaço da ilusão e nem o da lamentação, mas o da sabedoria conquistada após a tempestade. O eu-lírico recolhe seus próprios fragmentos e, ao costurá-los, descobre uma nova autonomia. O outro deixa de ser uma necessidade vital e passa a ser, unicamente, matéria-prima para a arte; a dor é domesticada e convertida em soberania emocional: “Não preciso de ti para viver, / apenas para inspirar meus poemas.” 

A obstinação do sofrimento dá lugar a uma profunda maturidade existencial, que dialoga com os mestres da tradição literária para ressignificar os tropeços do caminho. A pedra no meio da estrada já não é apenas um motivo de queda, mas uma revelação de rotas e de autoconhecimento: “Somos as pedras no meio do caminho, / mas também somos os caminhos.”É neste entrelugar que a esperança se despretende do passado e do futuro para fincar os pés descalços no agora, compreendendo que a vida legítima só acontece no presente. 

O eu-lírico reorganiza sua vulnerabilidade, transformando-a em abertura para o mundo, preparando o terreno interno para os novos ciclos que inevitavelmente virão: “Sigo à espera / de um amanhecer sem trevas, / (...) para semear um jardim de amor / e brindar à nova era, / de pés descalços / e peito aberto.” É o triunfo da autora que, sabendo transitar entre o encanto e a crueza, encontra na poesia o seu prumo, o seu destino e a sua cura.

O Corpo da Obra: Sinceridade, Raízes e Horizontes

Com o olhar apurado de quem decifra não apenas a palavra, mas a tessitura visual que a abraça, a arquitetura de (Des)EnCantos Poéticos, de Eva da Silva Alves, publicada pela Editora Temática e Cursos pode ser vista na imagem da capa. A obra se manifesta como um organismo vivo, onde o texto e a imagem deixam de ser vizinhos para se tornarem um único corpo.

A poesia de Eva da Silva Alves não nasce no vácuo; ela possui CEP, cheiro de terra úmida e o ritmo dos rios de Rondônia. A grande virtude desta obra reside em sua capacidade de ancorar-se na identidade cultural da Amazônia, resgatando termos, costumes e a pulsação de um povo sem perder o tom de confidência ao pé do ouvido. Há uma simbiose perfeita entre o realismo das dores cotidianas e a beleza mística que resiste nas margens; a vida é apresentada na sua totalidade, feita de luzes e sombras.Todavia, o lirismo aqui escolhe o caminho da limpidez. 

A estrutura caminha por veredas tradicionais, abdicando de quebras formais abruptas ou de experimentações rítmicas radicais. Para os olhos que buscam o hermetismo ou a densidade de labirintos simbólicos profundos, alguns poemas - curtos, sintéticos, quase epigramáticos - podem sussurrar uma sensação de brevidade, onde a simplicidade da linguagem flerta com o despojamento. Mas é justamente nessa nudez verbal que reside o seu maior acerto: a acessibilidade. A autora democratiza o afeto, abrindo as portas do templo poético para novos leitores e fazendo do livro um instrumento precioso para salas de aula e para os devotos da literatura regional. É uma obra autêntica, cujo valor não se mede pela pirotecnia da forma, mas pela profundidade de suas raízes.

O Diálogo dos Sentidos: A Linha e o Pincel

Se a palavra de Eva dá o tom, os traços de Flávio Dutka - artista e historiador cuja paixão é verter a Amazônia em cores, conforme revelam suas notas biográficas públicas -  oferecem o cenário e a atmosfera. Suas ilustrações não adornam as páginas; elas estendem o poema para além das margens do texto.Na emblemática imagem da capa, ergue-se o símbolo maior do livro: uma árvore de galhos claros e ramificados recortada contra a densidade de um fundo escuro. No coração dessa copa, pulsa um centro magenta vibrante. 

É a perfeita metáfora do título: o fundo preto evoca o silêncio, a noite da alma e o desencanto das perdas; a explosão rosa no centro é o milagre da seiva, a vida que teima em brotar, o encanto do amor e da inspiração. Os traços finos que descem da copa assemelham-se a linhas de escrita ou fios de um tear, sugerindo o ato de bordar o próprio tempo. A árvore, firme em suas raízes profundas em Guajará-Mirim, estende seus galhos desfolhados como quem atravessa as intempéries da existência com altivez.Ao abrir o livro, as páginas internas revelam um diário cromático em perfeita consonância com o espírito dos versos:

As Molduras Celestiais: Em poemas como Raios de Luz na Fronteira, o azul suave se faz brisa e céu, emoldurando a quietude contemplativa da autora.

A Fluidez das Águas: Diante de Mãe-d’água, Rio Mamoré e Ficção, o pincel se liquefaz em ondas, gotas e torrentes, lembrando ao leitor que a água na obra é tanto o sal do choro quanto o bálsamo do recomeço.

O Esplendor da Festa: Quando a poesia celebra o Azul de Rondônia ou a Rainha da Marujada, as linhas ganham a sinuosidade das danças, as cores tornam-se incandescentes e festivas, capturando a energia vibrante do Boi-Bumbá.

A Leveza e a Sombra: Onde há o desabrochar de Eu Quero Ser, as borboletas e as flores em tons pastéis dominam a página; onde ecoa o silêncio de Despedida ou do Poema do Fim, os traços recuam, o vazio se alarga e as tonalidades escurecem, respeitando o recolhimento da dor.

(Des)EnCantos Poéticos consagra-se como um livro-objeto indissociável. Eva da Silva Alves escreve com a alma despida; Flávio Dutka pinta com os olhos cheios de floresta e rio. Juntos, oferecem uma experiência estética integrada, onde a palavra se faz imagem e a imagem se converte em canto, imortalizando a sensibilidade amazônica em cada verso e em cada traço.

ALVES,Eva da Silva. (Des)EnCantos Poéticos, 1.ed.,Temática Editora e Cursos,Porto Velho,2025.

Tradução Espanhol: Laurent López M.

Tradução Libras: Náthali Machado e Nilcea Jesus de Souza

Ilustrações: Flavio Dutka

Por outro lado, analisando as nuances dos poemas e as informações contidas na própria estrutura do livro físico (como a contracapa, a orelha e os selos de identificação presentes nas imagens), há aspectos técnicos e conceituais fundamentais que enriquecem ainda mais a compreensão de (Des)EnCantos Poéticos:

1. Uma Obra com Foco em Acessibilidade e Inclusão

Ao observar atentamente a base da capa do livro, nota-se a presença de dois selos fundamentais que revelam o compromisso social e inclusivo da publicação:

O Selo de Libras: Indica que a obra foi pensada ou possui desdobramentos que dialogam com a Língua Brasileira de Sinais,traduzida pelas Professoras tradutoras/intérprete de Libras   Nilcea Jesus de Souza e Náthali Machado.  Isso demonstra que o livro não busca apenas leitores convencionais, mas faz parte de um projeto pedagógico e inclusivo mais amplo.

O Selo "ES Español": O selo na capa chancela formalmente a presença da tradução para o espanhol realizada por Laurent López M. Em uma região de fronteira como Guajará-Mirim (que divide o Brasil com a Bolívia), a escolha pelo bilinguismo deixa de ser apenas uma opção estética e passa a ser uma ponte cultural e geográfica real. A poesia ganha uma função de integração fronteiriça.

2. O Perfil dos Criadores: Educação e Identidade Ribeirinha

A orelha do livro revela a bagagem que sustenta a sensibilidade da obra:

Eva da Silva Alves - Doutora em Educação, escritora,poeta e faz parte da Academia de Letras,Ciência e Artes da Amazônia Brasileira (ALCAAB) , da AJEB-RO e Academia Guajaraminense de Letras (AGL).Além disso  é pesquisadora vinculada à Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Sua escrita é madura porque carrega a responsabilidade de quem estuda a fundo a linguagem, os sinais indígenas e os fatos culturais locais.

Flávio Dutka não é apenas um ilustrador de estúdio; ele é professor em comunidades ribeirinhas de Rondônia e graduado em História. Esse detalhe muda completamente a forma como enxergamos os desenhos do livro. As cores e formas que ele usa vêm da convivência direta com as pessoas que vivem na beira dos rios amazônicos. Existe uma verdade histórica e antropológica no traço dele.

3. A Dualidade Existencial como Fio Condutor

O uso dos parênteses no título - (Des)EnCantos - funciona como uma chave de leitura para toda a obra. A autora propõe que o encanto e o desencanto não são momentos separados da vida, mas sim estados sobrepostos.

  • Nas seções de desamor (como em Chorei ou Despedida), o "encanto" da poesia é o que salva a autora de se afogar na dor.
  • Nas seções de exaltação da terra (como em Rio Mamoré), o "desencanto" histórico das cachoeiras modificadas ou das dificuldades da região também se faz presente, mas é superado pelo orgulho e pertencimento.

4. Diálogo Intertextual e Amadurecimento Litério

Embora a linguagem seja simples e acessível, o livro demonstra uma sólida bagagem literária. Quando a autora escreve a Dedicatória ( "O preço do feijão não cabe no poema) e em "Beatriz e evocando diretamente Ferreira Gular e Carlos Drummond de Andrade ("Ah, meu caro Drummond! / É cada pedra no caminho"), ela insere a literatura rondoniense em um diálogo com o modernismo brasileiro. Ela pega um clássico nacional e o reinterpreta a partir de uma perspectiva feminina e contemporânea, mostrando que os obstáculos do caminho servem para nos redefinir.

Em suma:(Des)EnCantos Poéticos é mais do que um livro de poesias íntimas; é um projeto cultural de fronteira, inclusivo por natureza, que une a precisão de uma pesquisadora da linguagem à vivência de um artista das comunidades ribeirinhas, resultando em um registro afetivo e visual primoroso da Amazônia sul-ocidental.

O Porco-do-mato e o Caçador Corajoso 

Arte,Amor e Desventuras

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